segunda-feira, março 16, 2020

Vampiros do século XXI



Angel, apesar do nome, era um vampiro. Mas não como os das ficções, que precisam se nutrir de sangue e fugir da luz do Sol. Você poderia encontrá-lo a qualquer hora do dia, com uma aparência comum, desempenhando atividades absolutamente normais. Mas nas noites de sexta ele transformava-se. Alterava sua aparência com vestimentas, adereços e penteados, e saía à caça.

Quando o vi dançando entre dois amigos, bebendo desajeitadamente uma bebida fora de moda, deduzi que, como eu, ele era um peixe fora d’água naquele local. Encorajado pela ação do álcool, me aproximei e iniciamos um diálogo. A conversa fluiu tão bem, apesar do som ambiente, que decidimos prolongar a diversão de forma mais reservada.

Pensei ter encontrado uma alma gêmea, ou ao menos alguém muito especial, com quem seria ótimo passar mais tempo. Conversamos sobre pequenas coisas que nos causavam sensações e sentimentos parecidos, e a cada nova similaridade descoberta, mais eu sentia um magnetismo feroz nos aproximando. Por fim, convidei para ir ao meu apartamento.

Na intimidade, fui o mais doce possível, como o sou normalmente, e ele retribuiu toda atenção, sendo bastante compreensivo com meus defeitos. Na manhã seguinte, o surpreendi com farto café na cama, apenas para ver mais uma vez a doçura em seu olhar. O deixei em sua casa acreditando ter sido um encontro especial, o qual eu adoraria repetir.

Não me importava nada do que eu havia dispensado a ele naquelas horas. Eu estava contente por poder fazer gentilezas, a faria outras se pudesse. Ele merecia aquilo tudo.

Meus pensamentos com ele foram tantos, que alguns dias depois combinamos novo encontro. Outra vez houve aquela aura mágica, pela qual o cerquei de carinhos sinceros, de cuidados sem segundas intenções, o que nos levou a repetir os rituais de natureza íntima. Nos sentimentais, lhe confiei segredos nunca antes revelados. Nos físicos, combinei toda a minha força com carícias suaves, paciência e imaginação, a fim de lhe dar o prazer máximo.

Levei semanas para perceber o que estava acontecendo. Foi mais precisamente em uma noite de conjunção carnal que, em êxtase, ele gritou com fôlego de modo tão intenso que me preocupei com o sono dos vizinhos. Já havíamos conversado sobre certas regras, as quais ele descumpria repetidamente, responsabilizando o calor do momento pelos atos de insensatez.

Ele passou a atuar com cada vez mais força e egoísmo, sem a suavidade e atenção que lhe dispensei desde o primeiro encontro. Foi num momento assim, de peles coladas pelos suores, que entendi que aquele não era um relacionamento justo. Havia apenas investimento da minha parte. Eu lhe cedia meu tempo, minha atenção, minha força, minha criatividade, e não obtinha o mesmo. Ele sugava tudo, regulava até mesmo minhas amizades, mas não me entregava nada.

Assim rompemos, e mesmo depois disto ele me roubou noites de sono, pois eu acreditava ter agido com injustiça. Ao menos foi isso que ele me falou enquanto nos despedíamos. Somente mais tarde fui concluir que, lhe dispensando, eu não havia lhe causado qualquer avaria. Ao contrário, eu devia ter sido uma de suas caças perfeitas, daquelas que o predador se alimenta até se fartar, e ainda garante uma reserva para sobreviver por algum tempo.

Anos depois, contando essa história para uma amiga, percebi que ela tinha alguma informação e fiz com que me contasse. Com um sorriso malicioso, ela revelou que também tinha tido um relacionamento rápido com o mesmo rapaz. Porém, com sua experiência, logo notou uma malícia nas palavras dele, e até mesmo mentiras, típicas de quem quer encantar para então sugar ao máximo tudo o que pode, e depois partir para outra vítima.

A vida seguiu, eu formei uma família e, apenas eventualmente, meus pensamentos eram assombrados por ele, normalmente com compaixão. Talvez Angel fosse apenas um ser humano, carente e com falhas como tantos somos.

Para minha surpresa, recentemente percebi que ele se mudara para o meu prédio. Assim que coloquei os olhos nele, senti como se tivesse caído um raio sobre mim. Sabe, ele tem ainda o seu charme.

E se eu tivesse cometido um equívoco? Ao observá-lo, notei uma ponta de interesse em seu olhar. Pensei, por certo tempo, que ele não havia tirado nada de mim que eu não quisesse lhe dar. Já pensei em procurá-lo para viver uma aventura rápida e descomprometida, como reparação pelo mal que lhe causei, mas sempre lembro de algo que ouvi um dia. Que os vampiros de hoje não apenas abusam de você. Eles também fazem com que acredite que é você quem os está vampirizando.  

sexta-feira, março 13, 2020

Como Andar de Bicicleta (L.F.Riesemberg)



Igor era jovem, inexperiente e impulsivo: uma combinação perigosa. Havia ingressado na universidade, mas não estava certo sobre ser aquele o seu caminho. Por isso pensava, sentado em um banco na praça, observando as pessoas que iam e vinham, algumas sorridentes, outras sérias, gente de todos os tipos, com diferentes histórias para contar.

“Posso me sentar aqui?”. Era um senhor simpático que apareceu de repente.  “Claro!”, disse Igor, interessado em descobrir o título do livro que o homem portava. “Sempre venho aqui para ler um pouco”, o homem comentou, abrindo o exemplar. “Puxa...”, disse Igor “...eu devia ter trazido um livro também”, comentou Igor. “É um ótimo lugar para ler”, continuou.

O homem, concordando com o rapaz, estendeu-lhe o livro. “Fique com o meu”. A capa tinha um retrato de Albert Einstein. “Muito obrigado, senhor, mas não precisa”.  O homem sorriu. “Engraçado você me chamar de senhor”. Igor desculpou-se. “Está tudo bem, rapaz! É que o tempo é uma coisa e tanto”.

“Eu justamente estou tentando saber como aproveitar o meu tempo”, falou Igor. “Há tanto a se fazer, mas tão pouco tempo para decidir. Tenho medo de tomar uma decisão errada e estragar todo o meu futuro. Talvez o senhor pudesse me dar umas dicas, com sua experiência”.

O homem suspirou. “De fato eu sou experiente, meu jovem”. Igor animou-se. “Então pode me ajudar?”. “Mas é claro! Foi por isso que vim!”. O rapaz sorriu, achando aquela afirmação uma tolice. “Não duvide, filho. Tudo acontece por um motivo”, disse o velho.

“De fato, estou em dúvida sobre a minha vida”, disse o rapaz. “Dúvidas podem ser ruins”, falou o velho. “Dúvidas são impasses, são freios”. Naquele momento passaram duas crianças andando de bicicleta. “Neste livro há a seguinte frase: ‘Viver é como andar de bicicleta. Para haver equilíbrio é preciso estar em movimento’. E faço um adendo: As dúvidas são aqueles momentos em que você para de pedalar”.

“Mas como não ter dúvidas, se não sabemos o caminho certo?”, perguntou Igor. O homem ao seu lado olhou no fundo dos seus olhos. “As dúvidas só desaparecem com o tempo, e eu sei bem do que falo”, afirmou, colocando sua mão enrugada ao lado da mão do jovem. “Quanto mais marcas do tempo possuímos, menos dúvidas nos restam”.

“Ou seja, eu tenho que aceitar minhas indecisões?”, perguntou o rapaz. “Mas o senhor não falou que iria me ajudar a decidir?”. O velho voltou a sorrir e lançou o olhar à distância, como se contemplasse um reino que só ele via. “Filho, você sabe o que tem que fazer. Pare o que está fazendo, e siga seu coração! Não vale a pena continuar com algo que te deixa em dúvida”.

“Puxa, é um ótimo conselho”, disse Igor. “Sim, eu sei”, disse o homem. “E não é só isso que eu sei. Eu sei muito mais sobre você do que pensa”. Igor imaginou estar diante de um desses idosos que acham que os jovens são todos iguais, que vão cometer os mesmos erros que eles, e por isso concluem que conhecem o futuro de todos. “Eu sei, por exemplo, que você pensa em viajar pelo mundo antes de ingressar na universidade, e eu digo que é isso que você deve fazer. Também sei que seu pai é contra, mas você deve enfrentá-lo, porque o que ele espera de você não é o que vai torná-lo feliz”.

“Puxa”, disse Igor, impressionado. “O senhor realmente sabe o que está falando. Como conhece tanto a meu respeito?”.

O velho levantou-se. “Digamos que eu tenha vindo do futuro”.

“Nossa!”, disse Igor. “Aonde o senhor quer chegar?”

“Imagine que, daqui a cinquenta anos, você esteja cheio de arrependimentos, cercado de infelicidade, mas descobre como voltar no tempo e tem a chance de aconselhar, a si mesmo, para não tomar a decisão errada”.

Igor estava estupefato. “Quer dizer que você sou eu? Eu vim do futuro mudar o meu próprio destino?”

“Ah, não”, falou o velho. “O meu eu jovem está por aí, em algum canto da cidade, com mais certezas do que dúvidas. Você não sou eu, mas você é meu melhor amigo, e eu não poderia te deixar aqui sozinho. Se você também não mudar de rota agora, nossos caminhos nunca irão se cruzar, pois nos conhecemos na universidade... a mesma que você não deve mais frequentar”.

“Calma aí”, disse Igor. “Minha cabeça já está embaralhando. ”Então o senhor é...”

“Sou um amigo”, completou o velho. “Um amigo que já passou pelo que você está passando, que escolheu a opção errada, desperdiçou uma vida e que agora está tendo a chance de consertar tudo”.

Igor ouviu o conselho do velho, sem saber se acreditava literalmente em tudo, ou se eram apenas forças de expressão, ou ainda se o homem era louco. “Por isso, meu amigo, você deve partir amanhã. Pegue o trem para o destino que você tanto sonha, e na viagem você vai conhecer a minha versão mais jovem. Já está tudo acertado!”.

O velho se despediu com um forte aperto de mãos, montou em uma bicicleta que estava encostada no muro e saiu de cena pedalando, até perder-se entre as pessoas da praça. Somente mais tarde Igor deu-se conta que ele havia deixado o livro sobre o banco, ao mesmo tempo em que dúvidas o atormentavam. “Mas se isso for verdade, como vou falar ao meu pai que devo largar os estudos? Será que realmente vou encontrá-lo na viagem? E como o velho sabe que esse plano vai funcionar?”.

Na contracapa do livro, havia uma dedicatória: “Viver é como andar de bicicleta: no começo é difícil, mas uma vez que você aprende, não esquece jamais”.   

quarta-feira, março 11, 2020

A Freira (L.F.Riesemberg)



Do outro lado do rio havia uma escola, onde certos alunos só chegavam de barco. A edificação era antiga, e sempre se ouviam ruídos durante as aulas. Os adolescentes aproveitavam para contar histórias sobre o fantasma da freira que ali vagava desde que a casa era um convento, décadas atrás.

Naquela aula, o professor viu que Emily estava calada. Quando tocou o sino da saída, pediu a ela que ficasse um pouco mais, a fim de conversarem em particular. Era comum manter diálogos com estudantes que aparentavam problemas, ainda mais na região rural, onde não há muito apoio da família.

“Qual o problema, Emily?”. Ela estava claramente tentando dizer algo, mas parecia ser um assunto muito delicado. “Pode contar comigo. Nada do que conversarmos vai sair desta sala”. A garota levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Não sabia começar a narrar sua história. “Tudo bem”, disse o professor, lhe entregando um lenço. “Chore à vontade”.

Emily contou sobre um rapaz que conhecera há alguns meses, por quem se apaixonou. O professor logo entendeu toda a história, lembrando de outros casos que haviam terminado de forma violenta naquela região. Após deixá-la desabafar, prometeu dar todo apoio e proteção. “Você não vai fazer nada contra a própria vontade”, garantiu a ela.

Ele sabia que, em certas situações, os jovens tendem a cometer loucuras. Se não eles, seus próprios pais, muitas vezes obrigando-os a se casar ou levando-os a arriscadas práticas abortivas. Assim, aconselhou a aluna a manter o segredo sobre a gravidez, até que ele pensasse em uma solução.

Naquela tarde, após se despedir da garota, ficou ainda bastante tempo na escola, pensando e corrigindo trabalhos, até perceber que já estava escurecendo. Guardou todo seu material e apressou-se para partir, pois havia um longo caminho a percorrer. Mas antes que saísse da sala, ouviu outra vez aquele ruído estranho que, não raramente, atrapalhava suas explanações.

“É a freira”, pensou, rindo nervoso. O barulho parecia vir da sala ao lado, que estava trancada. Caminhou lentamente até a porta e olhou pelo buraco da fechadura. O barulho cessou. “Amanhã os garotos vão adorar ouvir essa história”, disse em voz alta, para quebrar a tensão. Mas ao sair, olhou para a escola e pôde notar, através da janela, uma enigmática silhueta negra parada entre as carteiras.

No dia seguinte o professor conduzia a aula tentando ignorar a única carteira vazia. “Alguém sabe por que a Emily não veio?”. Ninguém sabia. Então, após sentar-se diante dos alunos, perguntou se eles já haviam visto a famigerada freira.

Sim, professor, não é invenção, muita gente já a viu no corredor, ou no sótão”, disse uma aluna. “Lembra aquela vez que todo mundo saiu correndo?, perguntou uma garota para o resto da turma. “Agora a gente dá risada, mas na hora deu medo”.

“E vocês sabem alguma coisa sobre ela?”, perguntou.

“Minha vó disse que ela morreu aqui, professor”, comentou um rapaz. “Ela cometeu um pecado grave, e foi condenada por um tribunal do convento, ou algo assim”, disse outro. “Eu ouvi que a deixaram presa, sem nunca ver a luz do dia, até ela morrer”.

Vendo que alguns alunos permaneciam em silêncio, talvez assustados, e temendo ter problemas com os pais dos jovens, o professor explicou sobre como surgem as lendas, tranquilizando a todos.

Depois do expediente, o professor apressou-se. Enquanto passava pelo portão, sentiu olhares fulminantes de um vulto negro na janela, mas aquilo não o impediria. Atravessou a plantação com o Sol ainda alto, e ao chegar ao rio a noite já começava a cair. O bote deslizou pelas águas levando-o até a outra margem, onde encontraria a casa que procurava.

“Eu vim ver a Emily”, disse o professor. “Ela não foi para a escola hoje, e fiquei preocupado”. O pai, desconfiado, não o deixava passar da cerca. “Ela está indisposta”, disse ele. Mas o professor insistiu em vê-la, até que, contrariado, o homem o deixou entrar.

A menina ficou surpresa ao ver o professor, e este se espantou quando a viu. Ela estava de cama, abatida e machucada. Eram óbvios os maus tratos que sofrera. Pela postura do pai, ficou fácil deduzir o que havia acontecido. “Eu acabei contando a ele”, desculpou-se a menina.

O professor conversou com o pai sobre as possibilidades para o caso, que não necessariamente incluíam casamento ou aborto. “Ela pode ter a criança e continuar solteira”, falou. Mas o pai, preso a tradições familiares e velhos preconceitos, estava irredutível. Se a filha não casasse, coisas ruins aconteceriam, principalmente para o pai da criança.

Voltando desanimado pelo caminho escuro, o professor atravessou o rio com uma neblina espessa, tentando remar enquanto segurava a lanterna. Ele não percebia, mas as sombras que o cercavam confundiam-se com o hábito da freira que o acompanhava no barco. “Não existem fantasmas”, falava ele para espantar o medo. “As assombrações na verdade são o machismo e esses costumes que fazem tantas vítimas, perpetuando esse ciclo de sofrimento para tantas famílias...”.  

segunda-feira, março 09, 2020

O Amigo Invisível (L.F.Riesemberg)



Nem crianças, nem adultos. Éramos um grupo de amigos, companheiros, colegas de faculdade ou como queira chamar. E se algum de nós dissesse que tinha um objetivo, era mentira. Não sabíamos nem por que tínhamos escolhido aquele curso. Tudo o que queríamos, a cada manhã, era que as aulas terminassem logo para irmos em lojas de discos, comer hambúrgueres e fazer piadas.

E um de nós era o Robin.

Na primeira vez que o vi, o achei muito peculiar. Naquela época, eu nunca escolheria sua companhia, graças ao preconceito que havia crescido em mim desde a infância. Eu vinha de uma família tradicional, e de uma cidade pequena, onde certas particularidades são ridicularizadas e mantidas em segredo. Mas Robin já fazia parte do grupo em que acabei entrando, e não pude evitá-lo.

Contudo, em menos de um mês já não importava mais como ele era, ou o que fazia longe dos meus olhos. Éramos amigos, e isso bastava. Robin tinha múltiplos talentos: dançava, desenhava, falava Inglês e imitava pessoas como ninguém. E era de uma beleza admirável, moreno, alto, olhos verdes. Mas naquele tempo, é claro, um homem não fazia elogios a outro, e nunca lhe confessei o quanto ele era incrível.

Durante as aulas, ele fazia com traços de mestre caricaturas dos professores e dos colegas. Não só desenhava, como escrevia legendas que me faziam ter que morder a língua para não rir alto. E podíamos conversar por horas a respeito de filmes e músicas dos anos oitenta. Às vezes nossa comunicação era por símbolos em folhas de caderno, que só nós compreendíamos. Quase por telepatia.

Por outro lado, Robin tinha defeitos. Não escrevia muito bem. Não lia livros que não fossem romances açucarados. Era terrivelmente alienado em relação a política. E não aceitava aquelas brincadeiras comuns entre homens que precisam constantemente alardear sua masculinidade. Aquilo o ofendia, na verdade. Assim, eu não tomava liberdades com ele, para não ferir seus sentimentos. Apenas seguíamos nos divertindo, indo ao cinema, ouvindo música, rindo dos outros, sem que analisássemos nossas próprias falhas como seres humanos.

Eu não me envergonhava de andar com ele, e estar ao seu lado era tão divertido que, fosse ele mulher, eu constataria que o que tínhamos era amor. Bem, o que tínhamos era mesmo amor. Eu só não conseguiria admitir ou falar abertamente sobre isso, porque qualquer um entenderia de outro modo. Era amor de amigos, amor de irmãos, de almas que sintonizam e se buscam, independentemente dos corpos que habitam.

Porém, como o tempo é impiedoso com tudo, até mesmo com os amantes mais apaixonados e com as amizades mais sinceras, ocorreu de eu me enveredar por outros caminhos. Não aconteceu do dia para a noite, é claro. Fomos nos afastando, olhando para novas direções, achando outros interesses.  E, alguns anos depois, eu tinha outros amigos.

Robin passou por nós e não o cumprimentei, apesar de ainda tê-lo nítido em meus pensamentos. Os rapazes à minha volta riram e sussurraram uma frase ofensiva em relação a ele ou ao grupo que, acreditavam, ele representava.

O meu eu de hoje teria censurado o autor daquele comentário e ido atrás do velho amigo. Mas eu era então outra pessoa, e tudo o que fiz foi rir. Do mesmo modo como antes eu ria com Robin a respeito de tudo o que achávamos ridículo, ali estava eu, rindo dele, achando-o ridículo.

Ironicamente, agora eu sei que a coisa mais ridícula lá era eu. E, como hoje meninos podem chorar, é isso que eu faço.

No último ano da faculdade, sem que falasse comigo, Robin pediu transferência. Imagino o que sentiu quando um dos meus novos amigos escreveu algo horrível sobre ele em um banheiro. E assim, não mais o vi.

Depois da formatura, por muito tempo também não encontrei meus outros colegas. Isto faz parte da vida: cada um segue seu caminho. Começamos a trabalhar, vamos conhecendo outras pessoas, nos mudamos de cidade, perdemos cada vez mais o contato. Você não percebe, mas tudo aquilo que você viveu deixa de existir.

Até que, por mágica, surge uma novidade capaz de descobrir o paradeiro de todos os antigos amigos, com alguns simples toques. Colegas que você não via há cinco, dez anos, de repente aparecem diante de seus olhos, e através de imagens você descobre que aquela menina tímida virou ativista política, que o drogado é chef de cozinha na Indonésia, que o gordinho é um requisitado preparador físico e aquela deusa que todos desejavam é uma esforçada dona de casa com três filhos.

Mas, entre todos, não havia ninguém de quem eu tinha tanta curiosidade para conhecer o destino. O que a vida teria feito com aquele rapaz engraçado, brilhante, que estava em um curso inútil para seus talentos? Estaria feliz? Teria realizado seus sonhos?

Pesquisei seu nome, mas não encontrei nenhum resultado. Estaria morto? Preso? Talvez fosse apenas avesso a tecnologias, e demoraria um pouco mais para entrar neste mundo. Ou talvez tenha assumido um novo nome. Tenha mudado de corpo, se transformado em outro alguém.

Foram essas as dúvidas que tive na primeira vez que te procurei, há dez anos, e continuo com elas ainda hoje, sem obter qualquer pista de onde você está.

Se você queria se vingar, parabéns: toda vez que procuro e não encontro nenhum vestígio da sua existência, mais eu acho que estou enlouquecendo. Concluo que você era bom demais para ser real, e que não passou de uma fantasia que criei para mascarar a dor de ter tido uma vida vazia. Apenas um amigo imaginário...

terça-feira, março 03, 2020

Tudo aquilo que você ama (L.F.Riesemberg)



Acordei sabendo que havia deixado o mundo dos vivos. Não senti dor, nem raiva. Estava apenas curioso sobre o que viria a seguir. Eu sabia que estava em um plano superior, mas que ali não era o paraíso, nem nada equivalente. O lugar lembrava muito uma sala de aula, e então um professor apareceu.

Eu achei tudo muito natural, como se já houvesse passado por aquilo. “Você vai fazer alguns testes para definirmos o seu local de destino. Boa sorte!”, disse o professor, entregando-me uma folha de prova.

A questão era muito simples: “Escrever uma carta a Deus justificando sua entrada em Seu reino”. Como sempre cultivei o hábito de escrever, foi com grande tranquilidade que produzi meu texto. As ideias vinham com muita rapidez, e em pouco tempo finalizei a tarefa.

O professor leu meu texto e, aparentemente satisfeito, anotou algo em sua prancheta. “Muito bem, sigamos em frente!”.

O segundo exercício era igualmente fácil: cuidar de um animal em situação de abandono. “Excelente!”, pensei, sendo encaminhado a um local que lembrava um abrigo. Sempre fui apaixonado por animais, e há muitos anos cuido deles voluntariamente. Cães, gatos, coelhos e toda uma variedade de bichos ali se encontravam. Eu tinha que escolher um, e aplicar os cuidados necessários. Mas não consegui optar por um só. Dei atenção a todos aqueles pobrezinhos, que me retribuíram o afeto, até que fui levado a outro ambiente.

“Você está se saindo muito bem. A terceira tarefa é igualmente bastante simples”, disse o professor. “Basta manter uma conversa comigo durante cinco minutos”. Realmente, seria muito fácil, pensei, satisfeito. “Mas em russo”, ele completou.

Esta foi a primeira atividade que não consegui finalizar. O engraçado é que eu sempre sonhei em aprender russo, pois adoro a língua, mas nunca me dediquei o suficiente para dominá-la. Assim, tudo o que consegui foi pronunciar meia dúzia de palavras, e entender duas ou três das que ele me disse. Falhei.

“Tudo bem, são raros os que obtêm sucesso em todas as questões”, tranquilizou-me o professor. Então me encaminhou para uma espécie de adega, e deduzi que a próxima tarefa seria relacionada a vinhos. “Outra atividade bastante fácil para você”, disse o professor. “Deverá degustar o conteúdo de uma garrafa à sua escolha e em seguida apontar a safra e o tipo de uva com que foi produzido”.

Neste ponto comecei a estranhar aquele teste. Por que ele disse que seria fácil para mim? De fato, eu sempre amei vinhos, e queria muito me aprofundar na área, mas nunca deixei de ser um leigo no assunto. “Tem certeza que é o teste certo?”, perguntei.

O professor conferiu algo em sua prancheta e confirmou: “Sim, não houve nenhum engano, ao menos da nossa parte”. Confuso, tentei completar a atividade saboreando um dos vinhos, mas me faltava conhecimento para dar as respostas certas e acabei fracassando novamente. Comecei a ficar preocupado.

“E como última tarefa, você irá construir uma casa”, falou, apontando uma pilha de tijolos e materiais de construção.

Fiquei indignado. Como os tais testes puderam ter começado tão fáceis, para depois ficarem tão desafiadores? “Mas agora você terá ajuda”, tranquilizou-me o professor. Ao mesmo tempo apareceram três pessoas mascaradas. 

Não me contive e falei: “Desculpe, mas acho que ainda é uma equipe muito pequena para construir uma casa, não?”. O professor sorriu: “Eu mencionei que esta será a residência onde você vai morar por toda a eternidade?”.

Aquele era o absurdo dos absurdos. Exigi uma explicação. Benevolentemente, ele falou: “Ainda há pouco li uma carta muito bonita sua, narrando o quanto merecia entrar neste reino. Você escreveu com facilidade por ter sido agraciado desde a infância com o amor às palavras. Em seguida atingiu a nota máxima na segunda tarefa, por ter praticado na Terra o amor pelos animais”.

“Mas e depois?”, perguntei. “Por que me deu tarefas tão difíceis?”.

“Não seriam difíceis, se você tivesse seguido seu coração quando teve a chance. Desenvolver qualquer habilidade é fácil quando você faz o que ama. O amor é um magnetismo que recebem os indivíduos, para que sejam atraídos às tarefas a que estão destinados. Nada é por acaso”.

Compreendi que eu deveria ter ouvido o chamado e aprendido a fazer tudo aquilo que desejava, quando tive chance. Língua russa... enologia... sempre estiveram em meu coração. Mas construir uma casa? Isso nunca me despertou qualquer interesse.

“Nesta parte, o segredo não é a tarefa, e sim a equipe de trabalho. Para você apareceram três pessoas, que são as únicas que você realmente ama”. E assim que elas tiraram as máscaras, reconheci, emocionado, meus pais e meu irmão, de quem recebi um longo abraço.

“Mais uma vez, o amor é a resposta”, esclareceu o professor. “Quanto mais pessoas você amar, mais apoio terá para construir sua moradia no reino dos céus”.

“Então eu falhei”, concluí.

“Não”, disse o professor. “Não permito que ninguém falhe. Você sempre terá mais uma chance”.

E subitamente me vi em casa, acordando com os primeiros raios de sol que entravam pela janela, disposto a começar mais um dia na Terra. Meu coração estava preenchido com um imenso amor a diversas coisas e pessoas que, desta vez, não seriam ignoradas.   

domingo, março 01, 2020

Banhos (L.F.Riesemberg)



Levantei e minha esposa já lia o jornal. “Olha quem faleceu! Você não estudou com esse rapaz?”. Sim, eu havia estudado. Não éramos amigos, mas passamos alguns anos na mesma turma, expliquei. “Ele estava doente?”, perguntei. “Aqui não diz a causa da morte”, estranhou. “Então foi suicídio”, falei. Eles não divulgam isso.

“Você devia ir ao velório, mesmo que não fosse íntimo dele”, ela me disse. Não consegui respondê-la da forma como eu queria, porque na verdade eu e o morto fomos próximos, sim. Mas não por minha vontade. Ele me aterrorizava.

Nunca esqueci os olhares cínicos que ele me dirigia quando sentava na carteira ao lado. Foi de sua boca imunda que ouvi pela primeira vez a palavra “otário”. Tenho marcas até hoje pelo corpo, das surras que me deu. Quando ele me atacava, eu não sentia tanta dor. Somente em casa, na hora do banho, é que eu via os ferimentos, e eles ardiam quando a água os atingia.

“Aqui diz que ele era casado com uma médica”. Não, querida, ele não era casado de verdade. Viviam juntos, apenas. E era por interesse de ambos, visto que ele não trabalhava, e ela era muito mais velha. Nunca pensei em outra opção para ele, aliás. Vagabundo na escola, vagabundo para o resto da vida. 

“Você vai, querido? É na capela aqui perto, e já vai começar. Se quiser, posso ir junto”.

Eu não perderia por nada. Vê-lo uma última vez e perguntar, em pensamento, qual a sensação de ir pro inferno. Ele saberia que eu estaria ali? Lembraria de tudo o que me causou? Ainda não enxergo muito bem, por causa daquele soco. Nem quero saber se o fato de eu não poder ter filhos está ligado aos golpes que recebi. E nada, absolutamente nada do que eu sonhava naquela época se realizou, por eles terem acabado com minha autoestima. Eles simplesmente mataram a criança que eu era.

“Tá bem, amor, então vamos. Só vou tomar um banho antes”, falei. Ela estranhou: “Mas você já não tomou ontem, quando chegou?”. Ela ainda não sabe que os meus banhos, desde o tempo em que eu lavava aquelas feridas, não servem só para higiene. “É verdade! Acho que essa notícia me deixou um pouco abalado, me desculpe”.

São vinte anos desde que vi meu primeiro sangue escorrer pelo ralo. Uma pessoa só precisa de cinco minutos para se banhar, mas desde aquele dia, eu levo quinze. Por dez minutos depois de limpo, eu fazia planos. Foram dez minutos, trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano, por vinte anos. Sabe quanto tempo isso dá? O suficiente para elaborar o crime perfeito.

No velório, encontro os colegas. “Puxa, em uma semana, este é o segundo da nossa turma”, lamentou um deles. “Você não soube? O Jackson morreu no domingo. Da mesma causa”. É claro que eu sabia, mas tapo a boca com expressão de espanto. “Os dois eram próximos, não?”, observo. “Será que a morte de um tem a ver com a do outro?”.

Lançada a semente, a dúvida se espalhou. Cidade pequena é assim. Em breve todos vão estar falando. E vão concluir que o verdadeiro culpado pelas mortes foi o preconceito que impedia seu amor.

Antes do enterro, apelei: “Eles eram grandes companheiros. Tinham esta aparência de brutamontes, mas no fundo eram muito sensíveis. Várias vezes os vi se abraçando”. Aquela era a cereja no topo da vingança que orquestrei em banho-maria.

Já em casa, saindo do boxe com o corpo e a alma lavados, olho no espelho embaçado. “Pensaram que eu tinha esquecido?”, penso, pegando a toalha. “Enquanto vocês achavam que viviam, eu sabia que já estavam mortos. Da mesma forma que vocês acabaram com a minha vida na escola, eu tirei a de vocês. Me chamem de otário agora”.

Mas sigamos em frente. Só espero que essas duas formas no espelho não passem de manchas.

Otário!”.    

sexta-feira, fevereiro 28, 2020

A Fotografia (L.F.Riesemberg)



Havia algo a mais nela. Não era somente o rosto, marcado por grandes olhos azuis e bochechas redondas. Tampouco o corpo, beirando o excesso de curvas, que iam perfeitamente ao encontro de seus desejos. Havia naquela mulher algo difícil de descrever, uma aura em seu sorriso, uma magia no olhar, que lhe proporcionavam mais sensações do que uma fotografia normalmente oferece.

Ele encarava o papel fotográfico com um desejo ardente de tê-la nos braços, imaginando como seria o encontro, o toque, o beijo. De olhos fechados, vivenciava a cena, sabendo que não a realizaria de outro modo, senão nos sonhos.

Guardava aquela foto no fundo da gaveta, oculta sob peças de vestuário. Mantinha assim, em segredo, a única intimidade que teria com ela nesta vida.

Sem que soubesse o nome, a chamava de mulher misteriosa, pois fora a expressão usada pela última dama que estivera fisicamente em seu quarto. “Quem é a mulher misteriosa da foto?”, perguntou. E nunca mais ninguém teve a permissão de ali entrar.

Encontrara o retrato em uma caixa, organizando pertences da família. Nenhum nome escrito, nem uma data. Apenas a imagem da mulher sorrindo, fazendo pose, sem qualquer pista ao fundo que indicasse um local. Perguntou aos familiares mais próximos, e ninguém soube dizer quem era.

“Joga isso fora”, disse a irmã.

A admirava todos os dias, sonhando com a sua voz, com o som do seu riso, o perfume de seus cabelos. Idealizava-a, mas ela não era um sonho. Era uma mulher real, ainda que desconhecesse o tempo e o espaço de onde vinha.

Mas um dia algo surgiu.

“Esclareço tudo do passado, do presente e vejo o futuro”, dizia a placa na tenda. “Trago seu amor afastado”. Ele entrou e a cigana, um olho cego, o encarou. “Aqui está a foto”, disse, depositando o papel sobre a mesa. “Podes mesmo trazê-la?”.

“Sim, meu jovem. De onde esta mulher estiver, ela rastejará até você. É isto o que deseja?”. Ele pensou por um minuto, por fim decidiu-se.

Terminada a sessão de ervas, vapores e cânticos, a encomenda estava feita. “Sexta-feira à noite ela te encontrará”, disse a cigana. “Se mudar de ideia, rasgue a fotografia em sete pedaços”.

Casa arrumada, velas acesas na mesa, rosas sobre a cama. A ânsia de recebê-la era imensa. E mesmo que ela não aparecesse, sempre haveria o retrato para fantasiar.

Ele olhava a fotografia, e agora, sob nova iluminação, enxergava mais nuances naquele rosto. As sombras rendiam outro aspecto à mulher. Pareciam lhe dar uma malícia antes imperceptível. Diria até que uma dose de maldade.

O telefone toca, é a irmã.

“Já se livrou daquela foto? Na verdade eu sei quem é a mulher. Preferi não falar, porque tem assuntos que é melhor deixar no passado. Mas você tem o direito de saber. Ela foi nossa babá por um tempo. Não lembra o que ela fazia com a gente? E sim, foi ela a causa de todos aqueles problemas com os nossos pais. Não quero te deixar perturbado, mas... ela matou-se. Vamos almoçar amanhã e eu te conto tudo”.

Lá fora, alguém abre o portão. Olhando bem, aqueles olhos no retrato estavam diferentes. Algo está rastejando pelo quintal. Olhos ferozes. Agora alguém está arranhando a porta, ou é só impressão? Olhos rancorosos...

A mão trêmula rasga o retrato em dois, depois em quatro pedaços. O arranhar na porta continua. Sete pedaços de papel caem ao chão. Silêncio. Enfim, ele respira. Afasta a cortina, olha pela janela. A noite reina escura, as copas das árvores agitam-se. “Foi só o vento”, conclui.