sábado, julho 11, 2020

Kaleidoscópio (L.F.Riesemberg)



“É um caleidoscópio”, disse a mãe, com o olho grudado no objeto. “Eu tinha um quando era menina, mas este é muito mais sofisticado”. O filho esperou impacientemente que ela lhe devolvesse o brinquedo, para que pudesse logo brincar. Gabriel espiou pelo pequeno buraco em uma das bases daquele cilindro feito de lata e madeira. A mãe explicou a mágica: “As paredes internas são espelhos, e conforme você gira, os cristais lá dentro criam essas lindas ilusões”.

Mas Gabriel não via apenas cristais. Parecia algo muito maior. Teve a impressão de olhar todo o universo, com suas estrelas, nebulosas e cometas correndo por todos os lados. “O mundo está aqui dentro”, pensou. Caminhou para o quarto sem tirar o olho daquela pequena janela mágica. “Cuidado para não se machucar andando assim”, alertou a mãe.

Mas como ele poderia se machucar? Estava diante da maior das criações! Quanto mais girava o cilindro, mais imagens surgiam no seu interior. Viu o planeta Terra, com todos os seus continentes mergulhados num mar verde. Encontrou as pirâmides do Egito antigo, que logo se transformaram em um navio cruzando o oceano. Quando mais girava, mais visões iam se revelando.

O menino não saberia dizer quanto tempo ficou ali, admirando aquele mundo de imagens que se formavam e se desmanchavam. Viu navios cruzando o oceano virarem guerreiros de uma tribo pré-histórica, que depois se transformavam em vulcões  de um planeta desconhecido. Girando mais devagar, observou todo o país, com todos os Estados, e seu Estado, com todas as cidades. Deu uma batidinha na lateral do aparelho e então viu surgir sua cidade vista do alto, e achou o telhado da própria casa.

Pouco depois pôde ver até a si mesmo, ali no quarto, maravilhado com tudo aquilo. Pelo visor do cilindro viu até sua mãe na cozinha, preparando o almoço, e depois enxergou a biblioteca fechada naquele sábado, onde pôde entrar e passear pelos corredores silenciosos.

“Que bom que gostou do brinquedo”, disse a mãe, na mesa do almoço. Seria inútil explicar a ela que não era só um brinquedo. “Sim, é muito legal”, concordou, tentando imaginar de onde teria vindo aquele poder fantástico. “Como será que isto foi parar no córrego?”, ela perguntou. Gabriel não sabia, mas em um impulso levantou-se e voltou correndo para o quarto, onde novamente levou o cilindro ao olho.

Os cristais foram se movendo dentro da câmara e revelaram o caminho contrário que o artefato havia percorrido antes de chegar até suas mãos. Gabriel viu-se naquela manhã, abrindo a caixa de madeira na beira do córrego, e antes disso boiando na água. Então viu a caixa subindo rio acima, por muitos quilômetros, até um forte impacto lançá-la na carroceria de um caminhão que sofreu um acidente durante a tempestade. O caminhão rumava para um museu na capital, mas sua carga ficou espalhada na estrada.

Gabriel tirou os olhos do visor e respirou fundo. Como era possível aquele objeto lhe revelar tanto sobre tudo? Que poder incrível ele tinha em mãos! Olhou novamente o exterior do caleidoscópio, com suas inscrições em japonês, e concluiu que, de posse daquilo, poderia saber sobre tudo o que quisesse. Nunca mais teria dúvidas a respeito do que quer que fosse. Bastava olhar e a resposta lhe seria revelada.

Grudou outra vez o olho no objeto, e procurou as questões da próxima prova de Matemática. E estavam lá! Começou a pensar em tudo o que queria saber, e lembrou da linda moça da biblioteca. Como seria o seu nome, que ele nunca teve coragem de perguntar? Procurou um pouco e logo viu, dentro do cilindro, o envelope de uma carta escrita por ela. “Sofia”, repetiu, maravilhado.

E a gangue do Jackson? Onde estaria? Encontrou no caleidoscópio cada um dos garotos e viu como eles pareciam ridículos quando não estavam juntos fazendo maldades. A partir de agora, eles nunca mais o pegariam de surpresa na rua, nem o ameaçariam nunca mais.  

“Eu nunca mais vou ter medo de nada!”, disse, rindo como o Dr. Frankenstein ao constatar que o monstro estava vivo.

sexta-feira, julho 10, 2020

KALEIDOSCÓPIO



A Tempestade (L.F.Riesemberg)



De repente o dia virou noite e o vento começou a assobiar pelas janelas. Os primeiros pingos anunciavam que a chuva seria forte. Logo a cidade desapareceu entre as rajadas de água e vapor que vinham de todas as direções. O canal sob a ponte não foi o suficiente para conter o volume do córrego, e as águas subiram até as ruas.

Foi uma chuva rápida, mas destruidora. Os jornais do dia seguinte chamariam aquele fenômeno de ciclone, e muitas famílias sofreriam com as perdas. No sábado o clima ainda era de preocupação geral e contabilização dos prejuízos, mas Gabriel aproveitou o momento para se aventurar.

Calçou as galochas e foi dar uma volta pela rua, para observar os estragos. Havia árvores caídas, carros da companhia de luz correndo, móveis estragados nas calçadas e ruas sujas de lama. O menino caminhou até a ponte, para ver como estava o nível da água, e ao chegar o que mais lhe chamou a atenção não foi o volume, mas a fúria com que o córrego se deslocava. Parecia que haviam aberto a represa, tamanha a velocidade com que as águas fluíam.

Gabriel ficou admirando a correnteza e os eventuais objetos que ocasionalmente surgiam boiando e viajando por ela. Galhos, folhas secas e pedaços de madeira eram os mais comuns, mas também viu um colchão e uma velha boneca navegando rio abaixo. Resolveu descer o mais que pôde até a margem do córrego para ver de perto aqueles estranhos passageiros, torcendo para aparecer algo interessante. Mais tarde ele entenderia esta ação como inspirada por alguma força superior.

Após alguns minutos observando o curso das águas, reparou em algo preso num dos pilares da ponte. Parecia uma caixa de madeira. Gabriel pegou um galho comprido que estava caído próximo aos seus pés e o esticou até o objeto. Com alguns movimentos ele se desprendeu e entrou no fluxo do córrego. “Não, não! Venha pra cá!”, implorou o menino, puxando com a ponta do galho, até que conseguiu trazê-lo para a margem.

“Ora, ora, o que temos aqui?’, pensou o garoto, observando o que havia pescado. “De onde veio isso?”.

Era um pequeno baú, muito velho, que parecia uma arca do tesouro de um filme de piratas. Estava coberto de lama e lodo, exalando um odor forte e pútrido. Gabriel olhou ao redor, para ver se não estava sendo observado. Uma espécie de piche selava a tampa, que com um pouco de esforço abriu-se totalmente. Lá dentro havia mais lama, porém algo reluziu no meio dela. O garoto utilizou um pedaço de pau para resgatar o que quer que fosse aquilo, e estranhou o formato cilíndrico daquela descoberta.

Com todo o cuidado, lavou o objeto na margem rasa do córrego, e ficou maravilhado. Era algo que nunca havia visto antes, nem em livros: um tubo de metal, com cerca de trinta centímetros de comprimento por dez de diâmetro. Ao lado havia algumas inscrições em japonês.

“O que é isso?”, pensou, em êxtase. Havia feito um achado! Saiu para explorar e acabou ganhando um presente. “Mãe, veja o que eu encontrei no riozinho!”, anunciou ao chegar em casa. Ela não disfarçou o contentamento ao ver o filho feliz. “Que sorte a sua, Gabriel!”, disse ela, mais tarde. “Agora telefone para algum amigo e o chame aqui para vocês descobrirem para que isso serve”, falou, esperançosa.

Mas Gabriel não tinha amigos. Ao menos, não amigos comuns. A tempestade é que fora sua amiga, trazendo-lhe aquele presente raro e inusitado, que mudaria sua vida para sempre.    


quinta-feira, julho 09, 2020

O Refúgio (L.F.Riesemberg)



Finalmente havia chegado a sexta-feira, dia ir até a biblioteca trocar livros. Gabriel depositou os exemplares em uma sacola, e olhou no espelho. Usava um boné preto, que ajudava como disfarce. O caminho era longo, e ele não queria o risco de ser reconhecido pelos garotos da escola.

Tinha desenhado um mapa no caderno, com o trajeto mais rápido. Isso incluía atravessar um terreno baldio e pular um muro, o que ainda era menos arriscado do que encontrar algum dos membros da gangue pela rua.

Ele avisou a mãe onde ia e deu início à aventura, sempre olhando em todas as direções para não ter qualquer surpresa. Protegeria a sacola com a própria vida, se fosse necessário. Corria se não via ninguém. Disfarçava e andava normalmente quando encontrava outro pedestre.

Aquele caminho tinha vários marcos, que Gabriel classificava como missões cumpridas assim que os atingia: o primeiro era o parque infantil com seus brinquedos enferrujados e quase sempre deserto. Alguns quarteirões à frente tinha o velho convento, que naquele tempo funcionava como colégio. O ponto seguinte era o monumento com o busto de um soldado que morreu na guerra. Depois havia a pequena ponte sobre o córrego, e depois o muro, no fim de uma rua sem saída, que precisava ser pulado. No total havia sete marcos.

Atrás do muro ficava o terreno baldio, que Gabriel imaginava ser uma floresta assombrada. A cada um desses marcos vencidos, o menino comemorava. Mas antes que passasse pela ponte, seu coração quase parou: notou que Jackson e sua turma estavam na rua, mal-encarados como sempre. Era tarde demais para voltar sem ser visto, e ainda faltava um longo trecho até seu destino.

Gabriel desviou os olhos para baixo e continuou seu caminho, torcendo para não ser visto. Seus pés mal tocavam o chão, tamanha a velocidade com que andava. Tudo o que ele queria naquela hora era ficar invisível, ou se transformar em alguém diferente para não ser reconhecido.

“Ei, olha só quem tá ali”. Eram exatamente as palavras que ele não queria ouvir. Gabriel olhou com o canto dos olhos, rezando para que a gangue não estivesse se referindo a ele, mas viu que os garotos olhavam e vinham rapidamente em sua direção. Sem tempo para pensar, resolveu correr com todas as suas forças. Passou voando pelos marcos de número quatro, cinco e seis, sem olhar para trás. Apenas imaginava os cinco meninos malvados correndo atrás dele, prontos para machucá-lo e roubar suas coisas.

Ao pular o muro, arranhou-se como nunca, caindo desajeitadamente do outro lado. Levantou-se e juntou a sacola como pôde, sem verificar o estado dos livros. Atravessou correndo a floresta assombrada, e ao sair dela pôde finalmente enxergar a biblioteca. Estaria seguro lá dentro.

“Veio correndo hoje, Gabriel?”, perguntou a simpática bibliotecária, que parecia cada vez mais bonita. Ele queria responder, mas antes olhou pela janela, para checar se não havia sido seguido até lá. Parecia estar seguro. “Ah, sim, é que eu queria chegar logo”, respondeu, sem pensar em uma ideia melhor.

Retirou o conteúdo da sacola, pedindo aos deuses para que estivessem em perfeito estado.  Felizmente, estavam. “Nós recebemos livros novos esta semana. Acho que você vai gostar”, ela falou, com sua voz suave. Gabriel havia chegado, de fato, ao reino mais feliz em que poderia desejar estar. Aquele era seu refúgio contra a realidade. Um território onde as regras do tempo e do espaço eram suspensas, e em que ele poderia fazer o que a sua imaginação permitisse.

segunda-feira, julho 06, 2020

Monstrologia (L.F.Riesemberg)



Gabriel apagou as luzes e começou a ver monstros pelo quarto. Era no escuro que eles surgiam, com seus olhos ferozes, garras e mandíbulas saindo do meio das sombras. Ele tentava fingir que nada daquilo era real, até que corria para o quarto dos pais, implorando por ajuda.

“Veja! Não tem nada aqui...”, falou a mãe, paciente, mostrando cada canto do cômodo. Mas era inútil, pois os monstros só apareciam quando Gabriel estava sozinho. Adotando outra estratégia para vencer o medo do filho, a mãe falou: “Talvez eles só desejem te conhecer. Você é um menino tão legal que até os monstros querem você como amigo”.

Foi esta ideia que fez o menino querer saber mais sobre os monstros.

“Moça, onde fica a seção de Monstrologia?”, perguntou à bibliotecária. Ela achou graça, e o levou até uma estante onde ele talvez encontrasse algo. “Você já leu Frankenstein? Também tem Drácula, O Médico e o Monstro. E essas revistas em quadrinhos aqui”, disse a moça, deixando o garoto perdido entre as criaturas.

Todos os dias, durante muito tempo, Gabriel estudou os monstros. Queria saber de onde vinham, o que faziam, como viviam. Aos poucos foi descobrindo fatos muito interessantes, que os deixava cada vez mais à vontade com a sua presença. Seu medo à noite foi diminuindo e, quando ele descobriu que na verdade gostava dos monstros e os queria como amigos, eles deixaram de aparecer.

Essas lembranças surgiram velozes como um raio, e então Gabriel voltou a si. Deu-se conta de que já não era mais uma criança e que agora ele próprio era o pai de um menino com medo de monstros. Estava ajoelhado diante da cama do garotinho. “E esses monstros...", perguntou ternamente ao filho. "Eles só aparecem no escuro, quando você está sozinho?”. 

"Sim, pai. Como você sabe?”.

Gabriel contou sua história. Por fim, disse que tudo o que aprendeu em suas pesquisas lhe garantira o título de Doutor em Monstrologia. “Os monstros são legais, filho. Eles só são um pouco tímidos, porque muita gente os acha feios. Então eles aparecem somente à noite, quando é seguro - e só para crianças muito especiais, como você”.

O menino ficou pensando naquilo. “Tem uns garotos malvados na escola, que me perseguem no fim da aula. Será que eles também veem monstros?”.

Gabriel suspirou, lembrando do seu próprio tempo de escola. Por que tinha que haver tanta maldade no mundo? Ele ficou tentado a dizer que esses garotos é que eram os verdadeiros monstros. Mas apenas acariciou os cabelos do filho.

“Não, meu amor. Os monstros não gostam desse tipo de gente”.

“Por que não, pai?”.

“Porque sabem que o medo faz parte de nós. Sempre vamos ter medo de alguma coisa, mesmo depois de adultos. E os monstros nos ajudam a conviver com isso. Já esses meninos só ficam causando medo por diversão. Eles não sabem o que estão fazendo”.

Ao perceber que o filho já havia adormecido, Gabriel saiu do quarto sem fazer barulho. “Boa noite...”, disse, com ternura, antes de fechar a porta. “E cuidem bem dele...”.

segunda-feira, março 16, 2020

Vampiros do século XXI (L.F.Riesemberg)



Angel, apesar do nome, era um vampiro. Mas não como os das ficções, que precisam se nutrir de sangue e fugir da luz do Sol. Você poderia encontrá-lo a qualquer hora do dia, com uma aparência comum, desempenhando atividades absolutamente normais. Mas nas noites de sexta ele transformava-se. Alterava sua aparência com vestimentas, adereços e penteados, e saía à caça.

Quando o vi dançando entre dois amigos, bebendo desajeitadamente uma bebida fora de moda, deduzi que, como eu, ele era um peixe fora d’água naquele local. Encorajado pela ação do álcool, me aproximei e iniciamos um diálogo. A conversa fluiu tão bem, apesar do som ambiente, que decidimos prolongar a diversão de forma mais reservada.

Pensei ter encontrado uma alma gêmea, ou ao menos alguém muito especial, com quem seria ótimo passar mais tempo. Conversamos sobre pequenas coisas que nos causavam sensações e sentimentos parecidos, e a cada nova similaridade descoberta, mais eu sentia um magnetismo feroz nos aproximando. Por fim, convidei para ir ao meu apartamento.

Na intimidade, fui o mais doce possível, como o sou normalmente, e ele retribuiu toda atenção, sendo bastante compreensivo com meus defeitos. Na manhã seguinte, o surpreendi com farto café na cama, apenas para ver mais uma vez a doçura em seu olhar. O deixei em sua casa acreditando ter sido um encontro especial, o qual eu adoraria repetir.

Não me importava nada do que eu havia dispensado a ele naquelas horas. Eu estava contente por poder fazer gentilezas, a faria outras se pudesse. Ele merecia aquilo tudo.

Meus pensamentos com ele foram tantos, que alguns dias depois combinamos novo encontro. Outra vez houve aquela aura mágica, pela qual o cerquei de carinhos sinceros, de cuidados sem segundas intenções, o que nos levou a repetir os rituais de natureza íntima. Nos sentimentais, lhe confiei segredos nunca antes revelados. Nos físicos, combinei toda a minha força com carícias suaves, paciência e imaginação, a fim de lhe dar o prazer máximo.

Levei semanas para perceber o que estava acontecendo. Foi mais precisamente em uma noite de conjunção carnal que, em êxtase, ele gritou com fôlego de modo tão intenso que me preocupei com o sono dos vizinhos. Já havíamos conversado sobre certas regras, as quais ele descumpria repetidamente, responsabilizando o calor do momento pelos atos de insensatez.

Ele passou a atuar com cada vez mais força e egoísmo, sem a suavidade e atenção que lhe dispensei desde o primeiro encontro. Foi num momento assim, de peles coladas pelos suores, que entendi que aquele não era um relacionamento justo. Havia apenas investimento da minha parte. Eu lhe cedia meu tempo, minha atenção, minha força, minha criatividade, e não obtinha o mesmo. Ele sugava tudo, regulava até mesmo minhas amizades, mas não me entregava nada.

Assim rompemos, e mesmo depois disto ele me roubou noites de sono, pois eu acreditava ter agido com injustiça. Ao menos foi isso que ele me falou enquanto nos despedíamos. Somente mais tarde fui concluir que, lhe dispensando, eu não havia lhe causado qualquer avaria. Ao contrário, eu devia ter sido uma de suas caças perfeitas, daquelas que o predador se alimenta até se fartar, e ainda garante uma reserva para sobreviver por algum tempo.

Anos depois, contando essa história para uma amiga, percebi que ela tinha alguma informação e fiz com que me contasse. Com um sorriso malicioso, ela revelou que também tinha tido um relacionamento rápido com o mesmo rapaz. Porém, com sua experiência, logo notou uma malícia nas palavras dele, e até mesmo mentiras, típicas de quem quer encantar para então sugar ao máximo tudo o que pode, e depois partir para outra vítima.

A vida seguiu, eu formei uma família e, apenas eventualmente, meus pensamentos eram assombrados por ele, normalmente com compaixão. Talvez Angel fosse apenas um ser humano, carente e com falhas como tantos somos.

Para minha surpresa, recentemente percebi que ele se mudara para o meu prédio. Assim que coloquei os olhos nele, senti como se tivesse caído um raio sobre mim. Sabe, ele tem ainda o seu charme.

E se eu tivesse cometido um equívoco? Ao observá-lo, notei uma ponta de interesse em seu olhar. Pensei, por certo tempo, que ele não havia tirado nada de mim que eu não quisesse lhe dar. Já pensei em procurá-lo para viver uma aventura rápida e descomprometida, como reparação pelo mal que lhe causei, mas sempre lembro de algo que ouvi um dia. Que os vampiros de hoje não apenas abusam de você. Eles também fazem com que acredite que é você quem os está vampirizando.  

sexta-feira, março 13, 2020

Como Andar de Bicicleta (L.F.Riesemberg)



Igor era jovem, inexperiente e impulsivo: uma combinação perigosa. Havia ingressado na universidade, mas não estava certo sobre ser aquele o seu caminho. Por isso pensava, sentado em um banco na praça, observando as pessoas que iam e vinham, algumas sorridentes, outras sérias, gente de todos os tipos, com diferentes histórias para contar.

“Posso me sentar aqui?”. Era um senhor simpático que apareceu de repente.  “Claro!”, disse Igor, interessado em descobrir o título do livro que o homem portava. “Sempre venho aqui para ler um pouco”, o homem comentou, abrindo o exemplar. “Puxa...”, disse Igor “...eu devia ter trazido um livro também. É um ótimo lugar para ler”.

O homem, concordando com o rapaz, estendeu-lhe o livro. “Fique com o meu”. A capa tinha um retrato de Albert Einstein. “Muito obrigado, senhor, mas não precisa”.  O homem sorriu. “Engraçado você me chamar de senhor”. Igor desculpou-se. “Está tudo bem, rapaz! É que o tempo é uma coisa e tanto”.

“Eu justamente estou tentando saber como aproveitar o meu tempo”, falou Igor. “Há tanto a se fazer, mas tão pouco tempo para decidir. Tenho medo de tomar uma decisão errada e estragar todo o meu futuro. Talvez o senhor pudesse me dar umas dicas, com sua experiência”.

O homem suspirou. “De fato eu sou experiente, meu jovem”. Igor animou-se. “Então pode me ajudar?”. “Mas é claro! Foi por isso que vim!”. O rapaz sorriu, achando aquela afirmação uma tolice. “Não duvide, filho. Tudo acontece por um motivo”, disse o velho.

“De fato, estou em dúvida sobre a minha vida”, disse o rapaz. “Dúvidas podem ser ruins”, falou o velho. “Dúvidas são impasses, são freios”. Naquele momento passaram duas crianças andando de bicicleta. “Neste livro há a seguinte frase: ‘Viver é como andar de bicicleta. Para haver equilíbrio é preciso estar em movimento’. E faço um adendo: As dúvidas são aqueles momentos em que você para de pedalar”.

“Mas como não ter dúvidas, se não sabemos o caminho certo?”, perguntou Igor. O homem ao seu lado olhou no fundo dos seus olhos. “As dúvidas só desaparecem com o tempo, e eu sei bem do que falo”, afirmou, colocando sua mão enrugada ao lado da mão do jovem. “Quanto mais marcas do tempo possuímos, menos dúvidas nos restam”.

“Ou seja, eu tenho que aceitar minhas indecisões?”, perguntou o rapaz. “Mas o senhor não falou que iria me ajudar a decidir?”. O velho voltou a sorrir e lançou o olhar à distância, como se contemplasse um reino que só ele via. “Filho, você sabe o que tem que fazer. Pare o que está fazendo, e siga seu coração! Não vale a pena continuar com algo que te deixa em dúvida”.

“Puxa, é um ótimo conselho”, disse Igor. “Sim, eu sei”, disse o homem. “E não é só isso que eu sei. Eu sei muito mais sobre você do que pensa”. Igor imaginou estar diante de um desses idosos que acham que os jovens são todos iguais, que vão cometer os mesmos erros que eles, e por isso concluem que conhecem o futuro de todos. “Eu sei, por exemplo, que você pensa em viajar pelo mundo antes de ingressar na universidade, e eu digo que é isso que você deve fazer. Também sei que seu pai é contra, mas você deve enfrentá-lo, porque o que ele espera de você não é o que vai torná-lo feliz”.

“Puxa”, disse Igor, impressionado. “O senhor realmente sabe o que está falando. Como conhece tanto a meu respeito?”.

O velho levantou-se. “Digamos que eu tenha vindo do futuro”.

“Nossa!”, disse Igor. “Aonde o senhor quer chegar?”

“Imagine que, daqui a cinquenta anos, você esteja cheio de arrependimentos, cercado de infelicidade, mas descobre como voltar no tempo e tem a chance de aconselhar, a si mesmo, para não tomar a decisão errada”.

Igor estava estupefato. “Quer dizer que você sou eu? Eu vim do futuro mudar o meu próprio destino?”

“Ah, não”, falou o velho. “O meu eu jovem está por aí, em algum canto da cidade, com mais certezas do que dúvidas. Você não sou eu, mas você é meu melhor amigo, e eu não poderia te deixar aqui sozinho. Se você também não mudar de rota agora, nossos caminhos nunca irão se cruzar, pois nos conhecemos na universidade... a mesma que você não deve mais frequentar”.

“Calma aí”, disse Igor. “Minha cabeça já está embaralhando. ”Então o senhor é...”

“Sou um amigo”, completou o velho. “Um amigo que já passou pelo que você está passando, que escolheu a opção errada, desperdiçou uma vida e que agora está tendo a chance de consertar tudo”.

Igor ouviu o conselho do velho, sem saber se acreditava literalmente em tudo, ou se eram apenas forças de expressão, ou ainda se o homem era louco. “Por isso, meu amigo, você deve partir amanhã. Pegue o trem para o destino que você tanto sonha, e na viagem você vai conhecer a minha versão mais jovem. Já está tudo acertado!”.

O velho se despediu com um forte aperto de mãos, montou em uma bicicleta que estava encostada no muro e saiu de cena pedalando, até perder-se entre as pessoas da praça. Somente mais tarde Igor deu-se conta que ele havia deixado o livro sobre o banco, ao mesmo tempo em que dúvidas o atormentavam. “Mas se isso for verdade, como vou falar ao meu pai que devo largar os estudos? Será que realmente vou encontrá-lo na viagem? E como o velho sabe que esse plano vai funcionar?”.

Na contracapa do livro, havia uma dedicatória: “Viver é como andar de bicicleta: no começo é difícil, mas uma vez que você aprende, não esquece jamais”.   

quarta-feira, março 11, 2020

A Freira (L.F.Riesemberg)



Do outro lado do rio havia uma escola, onde certos alunos só chegavam de barco. A edificação era antiga, e sempre se ouviam ruídos durante as aulas. Os adolescentes aproveitavam para contar histórias sobre o fantasma da freira que ali vagava desde que a casa era um convento, décadas atrás.

Naquela aula, o professor viu que Emily estava calada. Quando tocou o sino da saída, pediu a ela que ficasse um pouco mais, a fim de conversarem em particular. Era comum manter diálogos com estudantes que aparentavam problemas, ainda mais na região rural, onde não há muito apoio da família.

“Qual o problema, Emily?”. Ela estava claramente tentando dizer algo, mas parecia ser um assunto muito delicado. “Pode contar comigo. Nada do que conversarmos vai sair desta sala”. A garota levou as mãos ao rosto e começou a chorar. Não sabia começar a narrar sua história. “Tudo bem”, disse o professor, lhe entregando um lenço. “Chore à vontade”.

Emily contou sobre um rapaz que conhecera há alguns meses, por quem se apaixonou. O professor logo entendeu toda a história, lembrando de outros casos que haviam terminado de forma violenta naquela região. Após deixá-la desabafar, prometeu dar todo apoio e proteção. “Você não vai fazer nada contra a própria vontade”, garantiu a ela.

Ele sabia que, em certas situações, os jovens tendem a cometer loucuras. Se não eles, seus próprios pais, muitas vezes obrigando-os a se casar ou levando-os a arriscadas práticas abortivas. Assim, aconselhou a aluna a manter o segredo sobre a gravidez, até que ele pensasse em uma solução.

Naquela tarde, após se despedir da garota, ficou ainda bastante tempo na escola, pensando e corrigindo trabalhos, até perceber que já estava escurecendo. Guardou todo seu material e apressou-se para partir, pois havia um longo caminho a percorrer. Mas antes que saísse da sala, ouviu outra vez aquele ruído estranho que, não raramente, atrapalhava suas explanações.

“É a freira”, pensou, rindo nervoso. O barulho parecia vir da sala ao lado, que estava trancada. Caminhou lentamente até a porta e olhou pelo buraco da fechadura. O barulho cessou. “Amanhã os garotos vão adorar ouvir essa história”, disse em voz alta, para quebrar a tensão. Mas ao sair, olhou para a escola e pôde notar, através da janela, uma enigmática silhueta negra parada entre as carteiras.

No dia seguinte o professor conduzia a aula tentando ignorar a única carteira vazia. “Alguém sabe por que a Emily não veio?”. Ninguém sabia. Então, após sentar-se diante dos alunos, perguntou se eles já haviam visto a famigerada freira.

Sim, professor, não é invenção, muita gente já a viu no corredor, ou no sótão”, disse uma aluna. “Lembra aquela vez que todo mundo saiu correndo?, perguntou uma garota para o resto da turma. “Agora a gente dá risada, mas na hora deu medo”.

“E vocês sabem alguma coisa sobre ela?”, perguntou.

“Minha vó disse que ela morreu aqui, professor”, comentou um rapaz. “Ela cometeu um pecado grave, e foi condenada por um tribunal do convento, ou algo assim”, disse outro. “Eu ouvi que a deixaram presa, sem nunca ver a luz do dia, até ela morrer”.

Vendo que alguns alunos permaneciam em silêncio, talvez assustados, e temendo ter problemas com os pais dos jovens, o professor explicou sobre como surgem as lendas, tranquilizando a todos.

Depois do expediente, o professor apressou-se. Enquanto passava pelo portão, sentiu olhares fulminantes de um vulto negro na janela, mas aquilo não o impediria. Atravessou a plantação com o Sol ainda alto, e ao chegar ao rio a noite já começava a cair. O bote deslizou pelas águas levando-o até a outra margem, onde encontraria a casa que procurava.

“Eu vim ver a Emily”, disse o professor. “Ela não foi para a escola hoje, e fiquei preocupado”. O pai, desconfiado, não o deixava passar da cerca. “Ela está indisposta”, disse ele. Mas o professor insistiu em vê-la, até que, contrariado, o homem o deixou entrar.

A menina ficou surpresa ao ver o professor, e este se espantou quando a viu. Ela estava de cama, abatida e machucada. Eram óbvios os maus tratos que sofrera. Pela postura do pai, ficou fácil deduzir o que havia acontecido. “Eu acabei contando a ele”, desculpou-se a menina.

O professor conversou com o pai sobre as possibilidades para o caso, que não necessariamente incluíam casamento ou aborto. “Ela pode ter a criança e continuar solteira”, falou. Mas o pai, preso a tradições familiares e velhos preconceitos, estava irredutível. Se a filha não casasse, coisas ruins aconteceriam, principalmente para o pai da criança.

Voltando desanimado pelo caminho escuro, o professor atravessou o rio com uma neblina espessa, tentando remar enquanto segurava a lanterna. Ele não percebia, mas as sombras que o cercavam confundiam-se com o hábito da freira que o acompanhava no barco. “Não existem fantasmas”, falava ele para espantar o medo. “As assombrações na verdade são o machismo e esses costumes que fazem tantas vítimas, perpetuando esse ciclo de sofrimento para tantas famílias...”.