domingo, maio 30, 2021

A Ânsia (L.F. Riesemberg)

 


Muito cedo, antes do Sol despontar atrás das montanhas, quando a noite dava seus últimos suspiros, fui despertado por algo rondando a barraca. Permaneci em silêncio, temendo o ataque de predadores ou delinquentes, mas aquele ruído era totalmente estranho para mim. Arrisquei circundar o acampamento, empunhando uma arma. Ela não poderia combater o que espreitava, mas ainda assim minha ingênua ousadia me fez dar um grito longo e assombroso, intentando expulsar o invasor.

O berro ecoou pela mata, destruindo o silêncio e desestabilizando o intrincado sistema de criaturas micro e macroscópicas que viviam naquele habitat, de líquens e musgos a aves e roedores. Não percebi o tumulto que causei com tremendo ato, e fiquei a observar apenas uma floresta que parecia quieta e solitária, mas que se agitava intensamente e me observava com milhares de olhos.

Meu brado despertou algo que eu não poderia compreender naquele momento, e estranho fenômeno ocorreu. Uma força poderosa e antiga, presente em cada ser vivo daquele perímetro, reagiu em intensidade desigual contra mim. Não há palavras em línguas humanas para explicar, mas toda a energia dos arredores materializou-se em uma entidade tão bela quanto imponente, dando a entender que estivesse irritada com minha presença.

Naquele meu estado, ainda escravizado pela ignorância e pelas superstições, concluí que estava diante de uma assombração. A última lembrança de tal momento é a do espectro avançando sobre mim e aplicando uma mordida em meu antebraço – por menor sentido que isso possa fazer -  o que me causou um certeiro torpor e me tombou ao solo, com total perda dos sentidos.

Acordei com o sol no rosto, sem pistas sobre o que havia se dado realmente. O braço doía, mas não havia um ferimento visível. Não tardei a deixar a floresta e evitei relatar a experiência a qualquer conhecido, temendo que a maledicência me agredisse mais violentamente que aquela visagem. Planejei ocultar o sucedido nas entranhas da consciência, cobrindo com excessos de todo tipo, mas antes que pudesse dar o primeiro passo nesta direção, um estranho magnetismo me impediu.

Eu já havia marcado com dois companheiros um festival de luxúria e entorpecimento, quando um ímpeto irresistível me obrigou a cancelar o convite para praticar algo impensável. Ao invés de dar vazão aos desejos irracionais, típicos da carne, passei a noite dentro de casa, lendo um livro. Não era uma grande obra, visto que não havia qualquer outro exemplar no ambiente, mas foi um fato inédito em uma vida inteira sem pretensões intelectuais. Devorei as centenas de páginas em algumas horas, seguindo a atividade com uma espécie de embriaguez gramatical que me levou a declamar poemas janela afora.

Esse foi o primeiro episódio de uma série de ocorrências que me trouxeram, em dezoito meses, a este singelo relato que redijo desajeitadamente, atendendo a uma necessidade irresistível. Desde então não obtive um minuto de paz de espírito. Fui acometido por esta moléstia que não me permite ver o tempo passar sem que eu o aproveite de um modo que me enriqueça espiritualmente. Passei a sentir horror às banalidades, desenvolvi uma fobia de ignorância, em uma desesperada fuga da incultura, principalmente por constatar que gastei toda a minha vida no obscurantismo da mediocridade.

Enquanto escrevo, noto um homem na mesa ao lado. Sei que é um potencial suicida, pois seus olhos indicam uma depressão profunda com pensamentos em desalinho. Minha condição me obrigou a interromper este texto e a ir ter com ele, pois empatia é um dos sintomas deste distúrbio que me acometeu, e só estou voltando a empunhar o lápis depois que o pobre saiu reconfortado e decidido a buscar ajuda médica.

Estou chegando ao fim das folhas de papel e já prevejo a abstinência que sofrerei em seguida. Precisarei com urgência de Mozart em meus ouvidos, de Tolstói, de Sócrates, de correr para um museu, escrever um soneto. Estarei angustiado, necessitado de um debate, com fome de conhecimento, porque o que me mordeu naquela fatídica noite foi o espírito da natureza, a deusa da sapiência ou como queira chamar, mas me transmitiu este vírus que me faz querer sempre aprender mais, que me obriga a fazer cursos, a estudar metodologias, a pesquisar teorias, a formular hipóteses...

Sei que estranhas, caro leitor. “Como isso poderia ser ruim?”, tu dirás. Mas o problema não é a sede de conhecimento, e sim a sua ausência. Olho ao redor e só vejo indivíduos ainda iludidos, se entretendo com frivolidades, vivendo em uma caverna de ignorância, e isso me faz querer gritar, pedir para que por favor acordem dessa letargia, que leiam um livro, que busquem a verdade!

Às vezes minha dor é tamanha que sinto uma terrível vontade de também morder alguém, de passar esse vírus adiante, provocar uma epidemia de ânsia por conhecimento, acabar com esse mal que acomete a tantos, que é a estupidez humana. Há agora mesmo um jovem no recinto, cujo sorriso denuncia uma burrice voluntária, e estou salivando de vontade de atacá-lo, de fazê-lo acordar, mostrar que vive na escuridão. Mas sei que, se eu me aproximar, o segurança que não tira os olhos de mim virá rapidamente em meu desfavor, pois a cor da minha pele o incomoda mais do que tudo.   

sábado, maio 29, 2021

Biografia do autor

Alguns estudantes e professores frequentemente solicitam uma biografia do autor, para acrescentar aos seus trabalhos. Portanto seguem alguns dados a respeito:

Infância na rua Eduardo Sprada, em São Mateus do Sul (PR)

Luiz Fernando Ehlke Riesemberg nasceu em 06 de Outubro de 1980 em São Mateus do Sul, Paraná. Teve uma infância feliz, com toda a liberdade que uma pequena cidade do interior podia proporcionar naquela época, antes do surgimento da Internet. Filho de Gabriel Ludgero Moreira Riesemberg, técnico em contabilidade em uma refinaria de xisto, e de Rita Ehlke Riesemberg, dona de casa e cortineira, passou a infância em uma casa na rua Eduardo Sprada, onde morava com os pais e três irmãs mas velhas: Célia, Cláudia e Selma. 

O autor no clube de sua infância

Gostava de acampar, andar de bicicleta, brincar com bonequinhos de plástico, andar até a represa e de explorar terrenos baldios. Junto com seus amigos da rua formou um clube, em um daqueles terrenos, onde havia uma velha casinha de madeira abandonada. Desde pequeno foi leitor de quadrinhos, principalmente os da Turma da Mônica e do Tio Patinhas, e mais tarde, na adolescência, apaixonou-se pelos livros do Sidney Sheldon, recomendados por seu pai. 

Cenário de muitas aventuras de sua infância 

A adolescência foi cheia de altos em baixos, iniciando feliz, como um prolongamento natural da infância dourada. Até os treze anos vivia rodeado de amigos, tanto na rua quanto na escola. Com os da rua vivenciava aventuras nas matas, estourava bombinhas e corria em carrinhos de rolimã. Com os da escola frequentava a videolocadora, ouvia discos do Pink Floyd, jogava Mega Drive e lia quadrinhos de superherois, particularmente do Wolverine. Sozinho, em casa, lia revistas de cinema e de música.

Com 13 anos de idade

A leitura foi sua maior companheira entre os 14 e os 16 anos, quando as mudanças vindas com a idade fez suas amizades se evaporarem. Detestava o Ensino Médio, mas se encantou com as aulas de Literatura Brasileira. Foi graças à forma como os livros combateram sua solidão que nasceu a vontade de se tornar escritor, mas ainda não tinha maturidade nem prática suficientes para escrever suficientemente bem. Nesta época era bastante calado, solitário, triste, sentindo falta das alegrias compartilhadas com amigos. Para conter a revolta, se interessou pelo punk rock. Outra companheira era sua cachorra Tanza, da raça Akita.   

Com sua cachorra Tanza

Aos 17 mudou-se para a capital Curitiba, onde cursou a faculdade de Jornalismo e voltou a ter amigos, recobrando a alegria dos tempos da infância. Foi uma época de socialização e descobertas, onde houve um grande avanço sobre a timidez e a introversão adquiridas nos anos anteriores. 

Formatura como jornalista, aos 21 anos.

Após a formatura, voltou a morar com os pais em São Mateus do Sul. Seu primeiro emprego foi como professor e criador de conteúdo para o site da mesma escola onde fez o Ensino Médio, e o fantasma da depressão que habitava aquele lugar voltou a persegui-lo. Mesmo sem acreditar na sua vocação como professor, continuou dando aulas e ainda sonhando em se tornar escritor. Aos 22 anos ingressou na faculdade de Letras, em uma extensão da UEPG em São Mateus do Sul, com a intenção de aprender mais sobre Literatura. Foi nesta época que, inspirado pelo ambiente, começou a escrever. Logo em seguida, aos 23 anos, finalmente conseguiu um emprego como jornalista, no jornal semanal da cidade, e passou a praticar diariamente sua escrita.

Entrevistando o cantor Maurício Manieri

Seu primeiro conto foi Eu Não Matei Charles Bronson, escrito em 2003, e incluído em seu primeiro livro, Grafias Noturnas, lançado em 2009. Tinha o interesse em escrever romances, mas optou pelos contos inicialmente como uma forma de exercício e para poder pedir aos professores que lessem seu trabalho e dessem suas opiniões. Uma dessas professoras, incentivando o aluno, lhe emprestou o livro O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury, autor que passou a ser a maior inspiração para seus próprios contos. 

Com professores da faculdade de Letras

Desde que se formou em Jornalismo, aos 21 anos, sempre esteve envolvido com a área da Educação, dando aulas de Português ou Inglês em diversas instituições de São Mateus do Sul e da capital Curitiba, onde passou a morar em 2012, no mesmo ano em que se casou com a professora Rafaela da Rosa e nasceu seu filho, Tiago. 

Casamento com Rafaela, em 2012

De início Luiz Fernando Riesemberg não tinha interesse em seguir a carreira de professor, mas com o tempo passou a amar o ofício, principalmente pelo forte vínculo sentimental estabelecido com algumas de suas turmas.

Com alunos da Guarda Mirim do Paraná, em 2012

Segue escrevendo e recomenda a todos que façam o mesmo. "A escrita é uma cura. Eu deixo todas as minhas dores nas histórias e me sinto renovado a cada uma que finalizo", revela.



Sobre o site Contos Fantásticos:

O site Contos Fantásticos foi criado a princípio para a divulgação de contos de autores clássicos do gênero fantástico, e mais tarde passou a ser o local de publicação para seus próprios textos, depois de desiludir-se com a publicação de livros impressos. O tempo e as despesas necessários para a produção de um livro físico poderiam ser melhor empregados na escrita de novos trabalhos, desta vez voltados ao público da Internet. Os contos passaram a ser mais curtos e, percebendo que havia um grande público de professores e estudantes entre os leitores, passou a considerar sua produção literária como uma forma de contribuir com a Educação de seu país.

O Fantástico para L.F. Riesemberg, como assina seus contos, não é o tradicional, com histórias povoadas por criaturas folclóricas. Para o autor, Fantástico é tudo o que causa perplexidade, encanto e assombro, independentemente se é a aparição de um fantasma ou o bater das asas de uma borboleta. O escritor procura seguir a sugestão do mestre Ray Bradbury, quando este diz que as pessoas precisam constantemente renovar sua capacidade de assombro. 

"Para uma criança, tudo é Fantástico, porque para ela tudo é novo. Mas aos poucos ela vai perdendo essa habilidade de se encantar. Minha intenção, ao fazer Literatura Fantástica, é resgatar essa capacidade que perdemos de achar tudo maravilhoso", diz o autor. "Algo que acho fantástico é nossa habilidade de viajar no tempo através de nossas lembranças sobre o passado ou dos nossos sonhos sobre o futuro", continua. Os temas recorrentes na obra do autor são as saudades da infância, a passagem do tempo, a morte e, acima de tudo, o aprendizado de vida que tudo isso nos proporciona.

Seu conto A Máquina da Alegria foi incluído em um livro didático pela primeira vez em 2012, através da FTD, e desde então esta e outras histórias já apareceram em diversas publicações de diferentes editoras voltadas ao ensino. "Achei que minha missão era apenas ser escritor, mas com o tempo percebi que era algo muito maior. Adoro a ideia de poder estar em várias salas de aulas ao mesmo tempo, contribuindo para a educação de tantos jovens", conclui o autor.


 

terça-feira, maio 25, 2021

A Gaveta (L.F.Riesemberg)

 

Há muitos anos eu não visitava aquele quarto, nem olhava aqueles móveis. Tudo estava com um leve cheiro de mofo e coberto por uma fina camada de poeira. Era o quarto de vovô, que havia partido há muito tempo. De repente vi algo que me chamou a atenção: a gaveta da escrivaninha onde ele guardava seu maior mistério.

Quando eu era menino, costumava correr pela casa, fingindo ser um explorador que fugia de canibais. Às vezes acontecia de eu ir parar neste quarto. Mas tudo parecia maior naquela época. A cama era alta como uma montanha. O lustre, que hoje bate na minha cabeça, ficava no céu. E, numa das vezes em que adentrei sorrateiramente aquele cômodo mágico, avistei vovô sozinho, sentado na cama, diante da gaveta aberta.

Ele estava paralisado, pensativo, olhando ao longe, como se a parede à sua frente fosse um deserto a se perder de vista. Entrei devagar para não assustá-lo, acreditando que ele logo sairia daquele transe, e instintivamente saí do meu papel: deixei de ser um aventureiro em fuga para voltar a ser uma criança na casa dos avós. Lentamente me coloquei à sua frente, para que me notasse, mas aquilo não foi o suficiente para fazê-lo voltar. Ele estava como que hipnotizado, olhando para o nada, como se só o seu corpo estivesse ali sentado, e sua alma tivesse sido capturada por alguma força sobrenatural.

“Vovô, tudo bem?”, perguntei, e ainda assim ele permaneceu naquele estado, levado para um mundo desconhecido, como se nada existisse ao seu redor. Fiquei com muito medo naquela hora. Teria meu vozinho morrido? Era sinistro pensar que alguém poderia morrer naquela posição, mas todo o resto da cena indicava que não havia nada ali, a não ser seu corpo. Onde estaria aquele avô amável que me pegava no colo, que me dava trocados para comprar sorvete e sempre tinha uma bala no bolso para me oferecer?

Com todo o cuidado o cutuquei no joelho. Ele continuou com os olhos desfocados, então toquei com mais força, falando “vovô, vovô!”, até que ele finalmente voltou a si e me viu em sua frente. Por algum tempo ainda permaneceu sem me reconhecer, apenas me olhando, mas eu soube que ele estava de volta no momento em que sorriu, como sempre fazia ao me receber. O brilho que renasceu em seus olhos iluminou o quarto todo, e fiquei aliviado por ter meu vozinho de volta.

Aquela experiência, apesar de rápida, havia sido tão assustadora que o abracei com toda a minha força e não quis mais largá-lo. Sinto que até hoje ainda estou abraçado a ele. Por muitos anos, sempre que eu recordava daquele momento sentia arrepios ao imaginar o que haveria dentro daquela gaveta aberta, diante da qual ele estava posicionado. Em minha imaginação, ele havia avistado lá dentro algum objeto amaldiçoado que estava tentando sequestrar sua alma, mas eu cheguei a tempo de salvá-lo e o trouxe de volta.

E agora estou aqui, diante dela, depois de tantos anos. Tudo no quarto continua igual, então aquilo que meu avô havia visto continuaria lá, esperando. Era possível!

Não tenho mais medo e abro a gaveta. De fato, havia algo lá. Uma fotografia. Era muito antiga, bastante amarelada, mas não me era desconhecida. No retrato apareciam meu próprio vozinho, ainda criança, ao lado do meu bisavô, ou seu pai. Ele a me mostrava e falava a respeito do seu tempo. Fiquei olhando aquela foto e sentei na cama, como ele mesmo estava naquele dia, há tanto tempo.

Muitas coisas se passaram pela minha mente naquele momento. Fiquei pensando na passagem do tempo, e isso me levou a ver minha própria infância, com cenas de eu menino correndo por aquela casa, bancando o explorador. Não sei quanto tempo fiquei ali, preso a tais lembranças, abraçando aquelas saudades antigas do alguém que eu havia sido. Era como se houvessem suspendido as leis da natureza e eu adentrasse aquele reino mágico, um lugar doce, de tons dourados e odores fascinantes, onde eu era criança e podia ser o que eu quisesse. Desejei voar e voei, e estava nas nuvens. Entendi que era lá que meu avô estava, quando subitamente fui trazido de volta ao meu corpo, pelo toque suave de uma mãozinha.

“Pai, você tá bem? Eu falava e você não respondia”, disse meu filho, um tanto acanhado.

Minha alma entristeceu por voltar ao mundo, mas aqueles olhinhos a animaram novamente.

domingo, julho 12, 2020

Homens de Verdade Não Choram (L.F.Riesemberg)




Após ter colocado o filho para dormir, o homem chegou na sala e viu a esposa dormindo no sofá, diante do televisor ligado. Pelo costume, ele deveria sentar-se ao lado dela, mas naquela noite fez diferente. Foi até o banheiro e trancou a porta.

Olhou-se no espelho e viu um homem envelhecido, quase totalmente infeliz. A única alegria vinha do filho, que parecia ser a última criatura do mundo a quem sua existência fazia alguma diferença. Marcos não tinha nenhum outro orgulho na vida, exceto o de ser pai.

Suspirou, arrependido da maioria de suas decisões ao longo das décadas. Chegava a um ponto em que não restavam muitas alternativas, e era duro ter que encarar aquela realidade. “O que você fez com todo aquele potencial?”, perguntou ao seu reflexo. O estrondo de uma batida na porta parecia trazer uma resposta, mas era apenas a esposa reclamando sua ausência. “O que você tá fazendo aí dentro?”, ela perguntou.

Marcos saiu e tentou justificar-se. “Vi que você já estava dormindo, por isso não me sentei ao seu lado hoje”. Ela parecia desconfiada. “É claro! Estou cansada porque trabalhei muito. E hoje você demorou mais para fazê-lo dormir. Por quê?”.

Ela não tinha interesse pelos monstros em que o filho acreditava, e não queria que isso fosse incentivado nele. Marcos teve que inventar outra desculpa para não irritar a esposa. “Ele estava um pouco agitado hoje, só isso”. Ela era muito prática, e não queria que o filho tivesse qualquer ímpeto artístico, como o pai.

“Bem, eu vou dormir, porque amanhã saio cedo”, disse ela. Marcos sentia o ressentimento nas palavras dela, por ter um marido que não contribuía financeiramente no lar. “Eu também vou indo”, ele respondeu, mesmo estando sem sono. Sua esperança era que ela dissesse: “Tudo bem, pode ficar aí e assistir alguma coisa na TV”, mas ela apenas perguntou: “E aquele emprego que você foi ver semana passada, não deu em nada?”.

Marcos estava há meses em casa, e sentia-se bem fazendo as atividades domésticas, cuidando da educação do filho e, nas horas vagas, escrevendo sobre monstros. Contudo, as cobranças da esposa sempre o lembravam de que aquela situação não poderia continuar. Ele tinha que arrumar um emprego que não lhe desse nenhuma alegria mas que pagasse um salário.

“Eu vou arranjar alguma coisa logo, prometo”, disse, enquanto ela se afastava sem prestar atenção. Marcos sentou-se no sofá e lembrou a conversa que teve com o filho, na qual ele confessava estar sofrendo nas mãos de colegas. Na sua época não existia a palavra bullying, o que era muito pior. Ficou lembrando das humilhações, dos xingamentos e das feridas que o bombardeavam na infância.

“Vai contar pra sua mãezinha, seu palerma?”, gritava aquele menino bronco, depois de estapeá-lo no rosto e rasgar seu gibi. "Palerma! Palerma!". Marcos nunca esqueceu as provocações, as ameaças e os risos. Eram crianças, mas naquele tempo, para ele, eram demônios.

“Ele não é de nada mesmo”, zombavam os outros meninos, enquanto Marcos engolia o choro. Foi assim há trinta anos, e continuava sendo. A vida sempre o sufocava, fosse através de uma gangue de garotos malvados, de um chefe injusto ou de uma esposa autoritária. Uma lágrima escorreu, mas Marcos a enxugou. O melhor era pensar em alguma lembrança feliz, antes que a mulher o visse daquele jeito. Senão, ela o chamaria mais uma vez de fraco e patético, já que homens de verdade não choram.

sábado, julho 11, 2020

Kaleidoscópio (L.F.Riesemberg)



“É um caleidoscópio”, disse a mãe, com o olho grudado no objeto. “Eu tinha um quando era menina, mas este é muito mais sofisticado”. O filho esperou impacientemente que ela lhe devolvesse o brinquedo, para que pudesse logo brincar. Gabriel espiou pelo pequeno buraco em uma das bases daquele cilindro feito de lata e madeira. A mãe explicou a mágica: “As paredes internas são espelhos, e conforme você gira, os cristais lá dentro criam essas lindas ilusões”.

Mas Gabriel não via apenas cristais. Parecia algo muito maior. Teve a impressão de olhar todo o universo, com suas estrelas, nebulosas e cometas correndo por todos os lados. “O mundo está aqui dentro”, pensou. Caminhou para o quarto sem tirar o olho daquela pequena janela mágica. “Cuidado para não se machucar andando assim”, alertou a mãe.

Mas como ele poderia se machucar? Estava diante da maior das criações! Quanto mais girava o cilindro, mais imagens surgiam no seu interior. Viu o planeta Terra, com todos os seus continentes mergulhados num mar verde. Encontrou as pirâmides do Egito antigo, que logo se transformaram em um navio cruzando o oceano. Quando mais girava, mais visões iam se revelando.

O menino não saberia dizer quanto tempo ficou ali, admirando aquele mundo de imagens que se formavam e se desmanchavam. Viu navios cruzando o oceano virarem guerreiros de uma tribo pré-histórica, que depois se transformavam em vulcões  de um planeta desconhecido. Girando mais devagar, observou todo o país, com todos os Estados, e seu Estado, com todas as cidades. Deu uma batidinha na lateral do aparelho e então viu surgir sua cidade vista do alto, e achou o telhado da própria casa.

Pouco depois pôde ver até a si mesmo, ali no quarto, maravilhado com tudo aquilo. Pelo visor do cilindro viu até sua mãe na cozinha, preparando o almoço, e depois enxergou a biblioteca fechada naquele sábado, onde pôde entrar e passear pelos corredores silenciosos.

“Que bom que gostou do brinquedo”, disse a mãe, na mesa do almoço. Seria inútil explicar a ela que não era só um brinquedo. “Sim, é muito legal”, concordou, tentando imaginar de onde teria vindo aquele poder fantástico. “Como será que isto foi parar no córrego?”, ela perguntou. Gabriel não sabia, mas em um impulso levantou-se e voltou correndo para o quarto, onde novamente levou o cilindro ao olho.

Os cristais foram se movendo dentro da câmara e revelaram o caminho contrário que o artefato havia percorrido antes de chegar até suas mãos. Gabriel viu-se naquela manhã, abrindo a caixa de madeira na beira do córrego, e antes disso boiando na água. Então viu a caixa subindo rio acima, por muitos quilômetros, até um forte impacto lançá-la na carroceria de um caminhão que sofreu um acidente durante a tempestade. O caminhão rumava para um museu na capital, mas sua carga ficou espalhada na estrada.

Gabriel tirou os olhos do visor e respirou fundo. Como era possível aquele objeto lhe revelar tanto sobre tudo? Que poder incrível ele tinha em mãos! Olhou novamente o exterior do caleidoscópio, com suas inscrições em japonês, e concluiu que, de posse daquilo, poderia saber sobre tudo o que quisesse. Nunca mais teria dúvidas a respeito do que quer que fosse. Bastava olhar e a resposta lhe seria revelada.

Grudou outra vez o olho no objeto, e procurou as questões da próxima prova de Matemática. E estavam lá! Começou a pensar em tudo o que queria saber, e lembrou da linda moça da biblioteca. Como seria o seu nome, que ele nunca teve coragem de perguntar? Procurou um pouco e logo viu, dentro do cilindro, o envelope de uma carta escrita por ela. “Sofia”, repetiu, maravilhado.

E a gangue do Jackson? Onde estaria? Encontrou no caleidoscópio cada um dos garotos e viu como eles pareciam ridículos quando não estavam juntos fazendo maldades. A partir de agora, eles nunca mais o pegariam de surpresa na rua, nem o ameaçariam nunca mais.  

“Eu nunca mais vou ter medo de nada!”, disse, rindo como o Dr. Frankenstein ao constatar que o monstro estava vivo.

sexta-feira, julho 10, 2020

KALEIDOSCÓPIO



(Contos fantásticos curtos)



A Tempestade (L.F.Riesemberg)



De repente o dia virou noite e o vento começou a assobiar pelas janelas. Os primeiros pingos anunciavam que a chuva seria forte. Logo a cidade desapareceu entre as rajadas de água e vapor que vinham de todas as direções. O canal sob a ponte não foi o suficiente para conter o volume do córrego, e as águas subiram até as ruas.

Foi uma chuva rápida, mas destruidora. Os jornais do dia seguinte chamariam aquele fenômeno de ciclone, e muitas famílias sofreriam com as perdas. No sábado o clima ainda era de preocupação geral e contabilização dos prejuízos, mas Gabriel aproveitou o momento para se aventurar.

Calçou as galochas e foi dar uma volta pela rua, para observar os estragos. Havia árvores caídas, carros da companhia de luz correndo, móveis estragados nas calçadas e ruas sujas de lama. O menino caminhou até a ponte, para ver como estava o nível da água, e ao chegar o que mais lhe chamou a atenção não foi o volume, mas a fúria com que o córrego se deslocava. Parecia que haviam aberto a represa, tamanha a velocidade com que as águas fluíam.

Gabriel ficou admirando a correnteza e os eventuais objetos que ocasionalmente surgiam boiando e viajando por ela. Galhos, folhas secas e pedaços de madeira eram os mais comuns, mas também viu um colchão e uma velha boneca navegando rio abaixo. Resolveu descer o mais que pôde até a margem do córrego para ver de perto aqueles estranhos passageiros, torcendo para aparecer algo interessante. Mais tarde ele entenderia esta ação como inspirada por alguma força superior.

Após alguns minutos observando o curso das águas, reparou em algo preso num dos pilares da ponte. Parecia uma caixa de madeira. Gabriel pegou um galho comprido que estava caído próximo aos seus pés e o esticou até o objeto. Com alguns movimentos ele se desprendeu e entrou no fluxo do córrego. “Não, não! Venha pra cá!”, implorou o menino, puxando com a ponta do galho, até que conseguiu trazê-lo para a margem.

“Ora, ora, o que temos aqui?’, pensou o garoto, observando o que havia pescado. “De onde veio isso?”.

Era um pequeno baú, muito velho, que parecia uma arca do tesouro de um filme de piratas. Estava coberto de lama e lodo, exalando um odor forte e pútrido. Gabriel olhou ao redor, para ver se não estava sendo observado. Uma espécie de piche selava a tampa, que com um pouco de esforço abriu-se totalmente. Lá dentro havia mais lama, porém algo reluziu no meio dela. O garoto utilizou um pedaço de pau para resgatar o que quer que fosse aquilo, e estranhou o formato cilíndrico daquela descoberta.

Com todo o cuidado, lavou o objeto na margem rasa do córrego, e ficou maravilhado. Era algo que nunca havia visto antes, nem em livros: um tubo de metal, com cerca de trinta centímetros de comprimento por dez de diâmetro. Ao lado havia algumas inscrições em japonês.

“O que é isso?”, pensou, em êxtase. Havia feito um achado! Saiu para explorar e acabou ganhando um presente. “Mãe, veja o que eu encontrei no riozinho!”, anunciou ao chegar em casa. Ela não disfarçou o contentamento ao ver o filho feliz. “Que sorte a sua, Gabriel!”, disse ela, mais tarde. “Agora telefone para algum amigo e o chame aqui para vocês descobrirem para que isso serve”, falou, esperançosa.

Mas Gabriel não tinha amigos. Ao menos, não amigos comuns. A tempestade é que fora sua amiga, trazendo-lhe aquele presente raro e inusitado, que mudaria sua vida para sempre.    


quinta-feira, julho 09, 2020

O Refúgio (L.F.Riesemberg)



Finalmente havia chegado a sexta-feira, dia ir até a biblioteca trocar livros. Gabriel depositou os exemplares em uma sacola, e olhou no espelho. Usava um boné preto, que ajudava como disfarce. O caminho era longo, e ele não queria o risco de ser reconhecido pelos garotos da escola.

Tinha desenhado um mapa no caderno, com o trajeto mais rápido. Isso incluía atravessar um terreno baldio e pular um muro, o que ainda era menos arriscado do que encontrar algum dos membros da gangue pela rua.

Ele avisou a mãe onde ia e deu início à aventura, sempre olhando em todas as direções para não ter qualquer surpresa. Protegeria a sacola com a própria vida, se fosse necessário. Corria se não via ninguém. Disfarçava e andava normalmente quando encontrava outro pedestre.

Aquele caminho tinha vários marcos, que Gabriel classificava como missões cumpridas assim que os atingia: o primeiro era o parque infantil com seus brinquedos enferrujados e quase sempre deserto. Alguns quarteirões à frente tinha o velho convento, que naquele tempo funcionava como colégio. O ponto seguinte era o monumento com o busto de um soldado que morreu na guerra. Depois havia a pequena ponte sobre o córrego, e depois o muro, no fim de uma rua sem saída, que precisava ser pulado. No total havia sete marcos.

Atrás do muro ficava o terreno baldio, que Gabriel imaginava ser uma floresta assombrada. A cada um desses marcos vencidos, o menino comemorava. Mas antes que passasse pela ponte, seu coração quase parou: notou que Jackson e sua turma estavam na rua, mal-encarados como sempre. Era tarde demais para voltar sem ser visto, e ainda faltava um longo trecho até seu destino.

Gabriel desviou os olhos para baixo e continuou seu caminho, torcendo para não ser visto. Seus pés mal tocavam o chão, tamanha a velocidade com que andava. Tudo o que ele queria naquela hora era ficar invisível, ou se transformar em alguém diferente para não ser reconhecido.

“Ei, olha só quem tá ali”. Eram exatamente as palavras que ele não queria ouvir. Gabriel olhou com o canto dos olhos, rezando para que a gangue não estivesse se referindo a ele, mas viu que os garotos olhavam e vinham rapidamente em sua direção. Sem tempo para pensar, resolveu correr com todas as suas forças. Passou voando pelos marcos de número quatro, cinco e seis, sem olhar para trás. Apenas imaginava os cinco meninos malvados correndo atrás dele, prontos para machucá-lo e roubar suas coisas.

Ao pular o muro, arranhou-se como nunca, caindo desajeitadamente do outro lado. Levantou-se e juntou a sacola como pôde, sem verificar o estado dos livros. Atravessou correndo a floresta assombrada, e ao sair dela pôde finalmente enxergar a biblioteca. Estaria seguro lá dentro.

“Veio correndo hoje, Gabriel?”, perguntou a simpática bibliotecária, que parecia cada vez mais bonita. Ele queria responder, mas antes olhou pela janela, para checar se não havia sido seguido até lá. Parecia estar seguro. “Ah, sim, é que eu queria chegar logo”, respondeu, sem pensar em uma ideia melhor.

Retirou o conteúdo da sacola, pedindo aos deuses para que estivessem em perfeito estado.  Felizmente, estavam. “Nós recebemos livros novos esta semana. Acho que você vai gostar”, ela falou, com sua voz suave. Gabriel havia chegado, de fato, ao reino mais feliz em que poderia desejar estar. Aquele era seu refúgio contra a realidade. Um território onde as regras do tempo e do espaço eram suspensas, e em que ele poderia fazer o que a sua imaginação permitisse.