sexta-feira, maio 03, 2024

Dino (L.F.Riesemberg)


Na minha remota infância, lembro de constantemente encontrar pelas ruas de São Mateus um negro forte, de olhos bondosos e roupas rasgadas, carregando um saco nas costas e uma garrafa na mão. Era onipresente, deitado na calçada ou caminhando muito lentamente com suas botas sete léguas, na companhia de um cachorro. Só mais tarde fui saber que seu nome era Dino, irmão do Borraio, outra figura folclórica da cidade, este dado a corridas.

Dino fazia parte do cenário. Quando criança eu tinha pavor dele, não sei porque. Talvez tenham me colocado medo, por ser preto e pobre, como se isso fosse alguma ameaça. Mas ele era inofensivo, sempre andando com passos muito lentos e um sorriso no olhar. Certa vez passei perto e ele me cumprimentou com um “bão?” e eu respondi: “bão”.

Fui crescendo sem me dar conta de que um dia ele desapareceria, e foi o que aconteceu. Na última vez que o vi ele estava olhando dentro das latas de lixo perto da igreja, à noite. Eu estava com a metade de um x-salada que não tinha aguentado comer no Luizinho e levava para casa em uma sacola. Perguntei a ele: “Tá com fome?”. Ele disse que sim e agradeceu, sempre com o olhar bondoso e humilde, seguindo caminho pela praça escura.

Por muitos anos, sem nunca mais vê-lo, acreditei que havia encontrado um fim trágico como o irmão, e sentia falta de sua presença marcante pelas ruas. Porém, querendo saber que fim o tinha levado, o descobri vivo e bem, com noventa anos. “Tô véio, né? Até me perdi na idade”, falou.

Fui até a Vila Bom Jesus e passei uma tarde de sábado conversando com ele, a irmã e uma sobrinha. Me narraram muitas histórias boas, que um dia preciso contar.

Ele só tinha sumido porque uma moto bateu e lhe quebrou as duas pernas, numa noite de Natal. Agora estava bem, mas não saía mais de casa. Também não tomava mais os goles de antes: só mascava fumo, de vez em quando. Lembrou de quando andava com os mendigos, de quando carpia lotes em troca de moedas. Teve um tempo que andava com um papagaio no ombro, mas roubaram. E aquele cachorrinho, que companheiro! “Mas tudo acaba, né?”.

Não, não gostava de correr igual o irmão. Mas teve um tempo que tinha um cavalo e até carroça. Saí de lá satisfeito por ter encontrado, vivo e bem, um personagem folclórico que habitava minhas memórias. “Mas tudo termina, né? Tá louco!”, disse.

Não voltei, e não sei se ainda está lá. Mas sei que vai estar sempre aqui, dentro de mim.

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