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sexta-feira, maio 24, 2013

Para ser lido com reservas (Charles Dickens)



Observei sempre uma geral falta de coragem, até mesmo entre pessoas de inteligência e cultura superiores, em revelar suas próprias experiências psicológicas quando estas são de uma natureza estranha. Quase todos receiam que relatos desse tipo poderiam não encontrar experiências semelhantes ou receptividade na vida interior de um ouvinte e ser vistos
com reservas ou como dignos de chacota. Um viajante veraz que houvesse visto uma criatura extraordinária semelhante a uma serpente do mar não temeria mencioná-lo; mas o mesmo viajante, caso tivesse tido algum pressentimento, impulso, pensamento fantasioso (a assim chamada) visão, sonho ou outra impressão mediúnica extraordinária, hesitaria muito
antes de confessá-lo. A essas reticências atribuo muito da obscuridade na qual tais assuntos estão envolvidos. Não comunicamos habitualmente nossas experiências desses fatos subjetivos da mesma forma que nossas experiências da criação objetiva. A conseqüência é que o conhecimento público dessas experiências parece ser incomum, e realmente é, em virtude de ser lamentavelmente incompleto.
Com o que estou prestes a relatar não tenho nenhuma intenção de avançar, opor ou sustentar qualquer teoria que seja. Conheço a história do livreiro de Berlim, estudei o caso da esposa de um falecido astrônomo real tal como me foi relatado por Sir David Brewster e acompanhei, até os mínimos detalhes, um caso muito mais notável de ilusão espectral ocorrido em meu círculo de amizades. Talvez seja necessário declarar quanto a este último que a pessoa em questão (uma senhora) não era absolutamente em qualquer grau, mesmo distante, relacionada a mim.
Uma suposição equivocada sobre esse fato poderia sugerir uma explicação
de parte de minha história — mas somente de parte — totalmente
sem fundamento. Ela não deve ser atribuída a minha herança de qualquer
peculiaridade desenvolvida; eu também jamais tive qualquer experiência
semelhante desde então.
Há anos — não importa se há muitos ou poucos — foi cometido na
Inglaterra um certo homicídio que atraiu grande atenção. Comentam-se
mais do que se deveria notícias sobre assassinos, as quais, avolumadas
proporcionalmente à sua atrocidade, assaltam nossos ouvidos, e meu desejo
seria, se pudesse, enterrar a lembrança desse vilão em particular, tal
como seu corpo o foi, na prisão de Newgate. Abstenho-me intencionalmente
de dar qualquer pista direta da identidade do criminoso.
Quando o assassinato foi descoberto, nenhuma suspeita recaiu — ou
antes diria, pois não posso apresentar os fatos exatos, nenhuma suspeita
foi publicada — sobre o homem que posteriormente foi levado a julgamento.
Como nenhuma referência a ele se fez àquela ocasião nos jornais,
é obviamente impossível que qualquer descrição sua àquela época tenha
sido dada nos jornais. É fundamental que se tenha esse fato na lembrança.
Ao abrir meu jornal matutino durante o desjejum, o relato daquela
primeira descoberta chamou minha atenção e o li com vivo interesse. Eu
o li duas vezes, talvez três. Ela fora feita em um quarto de dormir e,
quando baixei o jornal, tive consciência de um clarão de luz — agitação,
fluxo, não sei como designado, não consigo encontrar nenhuma palavra
para descrevê-lo satisfatoriamente — no qual eu parecera ver aquele
quarto atravessando minha sala, como um quadro absurdamente pintado
sobre as águas correntes de um rio. Não obstante quase instantâneo em
sua aparição, ele era perfeitamente visível; tão visível que eu, com uma
sensação de alívio, observei distintamente a ausência do corpo morto na
cama.
Não foi em um lugar romântico que tive essa sensação curiosa, e
sim em aposentos na Picadilly, bem próximos a Saint James Street. Nunca
me ocorrera algo parecido. Estava em minha poltrona naquele momento,
e a sensação foi acompanhada de um estremecimento singular que
moveu a cadeira. (Mas devo dizer que os pés em rodízio facilitavam o
movimento.) Dirigi-me a uma das janelas (havia duas no aposento, e este
ficava no segundo andar) para revigorar meus olhos na agitação de Picadilly.
Era uma manhã clara de outono, e a rua estava cheia de vida e alegria.
O vento soprava forte. Quando olhei para fora, ele trazia do parque
grande quantidade de folhas caídas, que uma rajada apanhou e girou em
uma coluna espiralada. À medida que a espiral caía e as folhas se dispersavam,
vi dois homens no lado oposto do caminho, caminhando do oeste
para o leste. Um seguia o outro. O que estava à frente olhava constantemente
sobre os ombros, para o que vinha atrás. O segundo o seguia, a
uma distância de cerca de trinta passos, com sua mão direita levantada,
num gesto ameaçador. A estranheza e constância de seu gesto ameaçador
em um lugar tão público atraíram minha atenção, em primeiro lugar; e
em segundo, a circunstância ainda mais extraordinária de ninguém atentar
para ele. Ambos os homens abriam caminho por entre os outros transeuntes,
com uma facilidade muito pouco compatível com a ação de andar
sobre uma calçada, e ninguém, que eu pudesse ver, lhes abria caminho,
tocava-os ou olhava para eles. Ao passarem diante de minhas janelas,
ambos me fitaram. Vi distintamente seus rostos e soube que poderia
reconhecê-los em qualquer lugar. Não que eu registrasse conscientemente
qualquer traço notável em seus rostos, exceto que o homem que ia à frente
tinha uma aparência inusitadamente sombria e que a face do homem
que o seguia era da cor de cera suja.
Sou solteiro, e meu criado e sua esposa constituem toda a minha
criadagem. Trabalho em um certo Branch Bank e gostaria que minhas
obrigações como chefe de uma seção fossem tão leves quanto se julga.
Elas me prenderam na cidade naquele outono, quando necessitava de
uma mudança. Não estava doente, mas não me sentia bem. Meu leitor
deve levar em conta, tanto quanto for razoável, meu estado de exaustão,
sob a pressão de um desânimo diante de uma vida monótona e num estado
“ligeiramente dispéptico”. Meu médico, de grande reputação, assegurou-
me que meu estado de saúde real àquela época não justifica uma descrição
mais severa, e cito suas próprias palavras, na resposta por escrito
às minhas indagações.
À medida que as circunstâncias do assassinato, gradualmente esclarecendo-
se, captavam com força cada vez maior a atenção do público, eu
as afastava da minha, delas sabendo tão pouco quanto possível em meio à
agitação geral. Mas eu sabia que o réu fora confinado em Newgate e
aguardava seu julgamento por homicídio doloso. Eu também sabia que
esse julgamento fora adiado numa sessão do Tribunal Penal Central,27 sob
alegação de pré-julgamento e tempo insuficiente para a preparação da defesa.
É possível também que eu tenha obtido informações — mas acredito
que não — sobre o dia, ou data aproximada, do julgamento.
Minha sala de estar, dormitório e quarto de vestir [closet] ficam todos
no mesmo andar. Nenhuma comunicação com este último existe, senão
através do dormitório. É verdade que nele existe uma porta, que se
comunicava com a escadaria; mas uma parte dos encanamentos de meu
banheiro foi — desde há alguns anos — fixada nela. Na mesma época, e
como parte da mesma reforma, a porta foi pregada e pintada.
Estava em pé em meu quarto uma noite, bem tarde, dando algumas
instruções a meu criado antes de ele recolher-se. Encontrava-me de frente
para a única porta de comunicação com o quarto de vestir, a qual estava
fechada. Meu criado achava-se de costas para essa porta. Enquanto falava,
eu a vi abrir-se e aparecer um homem, olhando para dentro do quarto,
um homem a acenar para mim com gestos graves e misteriosos. Esse ho-
27 Tribunal Penal de Old Bailey, Londres (London Central Criminal Court), a mais importante e
famosa corte criminal da Inglaterra, em funcionamento desde 1539 (N.E.).
mem era o mesmo que seguira o outro em Picadilly e cuja face tinha uma
cor de cera suja.
Após acenar, a figura recuou e fechou a porta. Num espaço de tempo
não maior do que o necessário para atravessar o quarto de dormir, abri
a porta do quarto de vestir e olhei para dentro. Eu já tinha na mão uma
vela acesa. Intimamente não esperava ver a figura no quarto de vestir e,
de fato, não a vi.
Consciente do espanto de meu criado virei-me para ele e disse:
“Derrick, você acreditaria que vi, com meus próprios olhos, um...” Neste
instante, pus minha mão em seu peito e ele, com um súbito e violento tremor,
disse: “Sim, senhor, sim! Um morto acenando!”
Ora, não creio que esse John Derrick, meu fiel e dedicado criado durante
mais de vinte anos, tivera qualquer impressão de ver tal figura antes
de eu o tocar. A mudança nele foi tão espantosa quando eu o toquei que
acredito piamente que essa impressão, de alguma forma oculta, comunicou-
se de mim para ele naquele instante.
Roguei a John Derrick que me trouxesse um pouco de conhaque e
lhe servi um gole, antes de tomar um pouco também eu. Do que antecedera
ao fenômeno naquela noite não lhe disse uma só palavra. Refletindo
sobre isso, convenci-me de que absolutamente jamais vira aquele rosto
antes, exceto naquela ocasião em Picadilly. A comparação de sua expressão
quando acenara na porta, com sua expressão quando me fitara à janela,
levou-me à conclusão de que na primeira ocasião ele procurara imprimir-
se em minha memória e de que na segunda certificara-se de ser imediatamente
lembrado.
Fiquei um pouco inquieto naquela noite, embora sentisse uma certeza,
difícil de explicar, de que a figura não retornaria. À luz do dia, caí em
um sono pesado, do qual fui acordado pela presença de John Derrick ao
pé de minha cama, com um papel na mão.
Esse papel, ao que parece, fora objeto de uma discussão à porta, entre
seu portador e meu criado. Era uma convocação para fazer parte de
um corpo de jurados na próxima sessão do Tribunal Criminal Central em
Old Bailey. Eu jamais fora convocado antes para um júri, como John
Derrick bem sabia. Ele acreditava — e não estou certo agora se com ou
sem razão — que aquele corpo de jurados era normalmente escolhido entre
homens de classe inferior à minha, e ele de início recusara-se a receber
a convocação. O homem que a entregava permanecera impassível.
Disse que o cumprimento não lhe dizia respeito; ali estava a convocação;
e que a mim cabia resolver a questão, por minha conta e risco, não a ele.
Durante um dia ou dois fiquei indeciso quanto a obedecer ao chamado
ou ignorá-lo. Não me passou pela cabeça coisa alguma relacionada a
aspectos misteriosos, influência ou atração, fossem quais fossem. Disso
estou absolutamente certo, assim como de qualquer outra afirmação que
aqui faço. Por fim, decidi, como uma maneira de quebrar a monotonia de
minha vida, que iria.
A manhã marcada era uma manhã fria e úmida do mês de novembro.
Picadilly estava coberta de uma névoa parda, que se tornou simplesmente
negra e extremamente opressiva a leste de Temple Bar.28 Encontrei
as passagens e escadarias da corte tomadas pela luz resplandecente dos
lampiões de gás, e o próprio tribunal igualmente iluminado. Acho que, até
o momento em que fui conduzido por oficiais ao recinto e o vi ocupado
por uma multidão, não sabia que o assassino deveria ser julgado naquele
dia. Acho que, até ser levado com muita dificuldade ao recinto do tribunal,
não sabia a qual dos dois recintos da corte minha convocação me levaria.
Mas isso não deve ser tomado como uma afirmação cabal, pois não
estou totalmente convencido quanto a nenhum desses fatos.
Sentei-me no lugar destinado aos jurados e passei meus olhos pelo
recinto tanto quanto me permitiu a densidade da névoa e de hálito úmido
que nele pairavam pesadamente. Observei o negro vapor que pendia
como uma cortina escura fora de grandes janelas e chamaram-me a aten-
ção o som compacto de rodas sobre a palha ou cascas de árvore que cobriam
a rua e também o murmúrio das pessoas ali reunidas, que um zunido
agudo, ou um refrão ou saudação mais altos do que os outros sons vez
por outra atravessavam. Logo em seguida, os juízes — eram dois — entraram
e tomaram seus lugares. O burburinho no tribunal foi veementemente
silenciado. Ordenou-se que o criminoso fosse trazido ao cancelo.
Ele ali se apresentou. E no mesmo instante reconheci nele o primeiro dos
dois homens que haviam caminhado por Picadilly.
Se meu nome fosse então chamado, duvido que tivesse conseguido
responder com voz audível. Mas ele foi pronunciado cerca de seis ou oito
vezes na lista de jurados e então fui capaz de dizer “Presente”. Pois bem,
observem. Quando subi ao tablado, o prisioneiro, que até então tudo olhava
atentamente, mas sem qualquer sinal de preocupação, tomou-se de
violenta agitação e acenou para seu advogado. O desejo do prisioneiro a
me opor era de tal forma manifesto que provocou uma pausa, durante a
qual o advogado, com a mão no banco dos réus, sussurrou com seu cliente
e balançou a cabeça. Eu soube posteriormente, por aquele senhor, que
as primeiras palavras amedrontadas do prisioneiro a ele foram “Recuse, a
todo custo, aquele homem! ” Mas, como ele não quis dar o motivo para
tal e admitiu que sequer sabia meu nome antes de ele ser pronunciado e
eu me apresentar, isso não foi feito.
Tanto pelos motivos já expostos — pois não é meu desejo trazer novamente
à baila a memória nefasta daquele assassino — e também porque
um relato detalhado desse longo julgamento não é absolutamente indispensável
à minha história, limitar-me-ei exclusivamente aos incidentes,
nos dez dias e noites durante os quais nós, os jurados, fomos mantidos
juntos, pois dizem respeito somente a minha estranha experiência
pessoal. É para isso, e não para o assassino, que desejo chamar a atenção
de meu leitor. É para isso, e não para uma página dos registros de Newgate,
que lhe rogo o obséquio de sua atenção.
Fui escolhido para ser o primeiro jurado. Na segunda manhã do julgamento,
depois que as provas haviam sido apresentadas durante duas
horas (ouvi o relógio da igreja soar duas vezes), ocorreu-me percorrer os
olhos pelos meus companheiros jurados e encontrei uma dificuldade
inexplicável em contá-los. Contei-os diversas vezes, e no entanto sempre
com a mesma dificuldade. Em suma, percebi que seu número excedia o
normal.
Toquei o jurado próximo a mim e lhe sussurrei: “Por favor, conte
quantos somos”. Ele olhou surpreso diante do pedido, mas voltou sua cabeça
e contou. “Ora”, disse ele subitamente, “somos trez...; mas não, não
é possível. Não, somos doze”.
Segundo minha contagem naquele dia, nosso número estava sempre
certo no pormenor, mas no todo sempre superior. Não havia nada aparentemente
— nenhum número — que o explicasse; mas eu tinha agora um
pressentimento do número que certamente surgiria.
O júri foi hospedado na London Tavern. Dormíamos todos em um
quarto grande, em camas separadas e ficávamos continuamente sob as ordens
e a vigilância de um oficial encarregado, sob juramento, de nossa
segurança. Não vejo motivos para omitir o nome real daquele oficial. Ele
era inteligente, extremamente polido e prestativo e (fiquei feliz em saber)
muito respeitado. Tinha uma aparência agradável, olhos benevolentes, invejáveis
costeletas negras e uma voz bela e sonora. Seu nome era sr.
Harker.
Quando voltamos para nossas doze camas à noite, a cama do Sr.
Harker foi colocada em frente à porta. Na noite do segundo dia, como eu
não estivesse inclinado a me deitar e visse o sr. Harker sentado em sua
cama, fui sentar-me a seu lado e lhe ofereci uma pitada de rapé. Quando a
mão do sr. Harker tocou a minha ao pegá-lo de minha caixa, ele foi tomado
de um estremecimento singular e disse: “Quem é esse!”
Seguindo o olhar do sr. Harker e olhando para o quarto, vi novamente
a figura que eu esperava: o segundo dos dois homens que haviam
atravessado Picadilly. Levantei-me e dei alguns passos; então parei e
olhei novamente para o sr. Harker. Ele estava bem despreocupado, riu e
disse de um modo amável, “por um instante pensei ter visto um décimoterceiro
jurado, sem uma cama. Mas vejo que é o luar”.
Nada revelando ao sr. Harker, mas convidando-o a dar uma volta
comigo até o fim do aposento, observei o que fazia a figura. Permaneci
por uns momentos ao lado de cada um de meus onze companheiros jurados,
junto ao travesseiro. Ela se movia sempre do lado direito da cama e
sempre passava para o pé da cama seguinte. Pareceu-me, pelo movimento
da cabeça, apenas olhar para baixo pensativamente, para cada uma das figuras
deitadas. Não tomou conhecimento de mim, nem de minha cama,
que era próxima à do sr. Harker. Pareceu sair por onde entrava a luz do
luar, através de uma janela alta, como por uma escada etérea.
Na manhã seguinte, ao desjejum, pareceu que todos os presentes haviam
sonhado naquela noite com o homem assassinado, exceto eu próprio
e o sr. Harker.
Eu estava agora convencido de que o segundo homem que atravessara
Picadilly era o assassinado (por assim dizer), como se esse fato fosse
gerado em minha consciência por seu testemunho direto. Mas até mesmo
isso ocorreu de uma forma para a qual eu não estava absolutamente preparado.
No quinto dia do julgamento, quando as provas da promotoria chegavam
a seu termo, foi apresentado um retrato em miniatura do homem
assassinado, que desaparecera de seu quarto de dormir à época da descoberta
do fato e depois encontrada no esconderijo que o assassino fora visto
a cavar. Identificado pela testemunha interrogada, foi levado ao banco
e entregue à inspeção dos jurados. Quando um oficial, em um manto negro,
dirigia-se com ele até mim, a figura do segundo homem que atravessara
Picadilly impetuosamente saiu da multidão, tomou a miniatura do
oficial e deu-a para mim com suas próprias mãos, dizendo ao mesmo
tempo em uma voz baixa e cava, antes que eu visse a miniatura, que esta-
va em um medalhão: “Eu era jovem e meu rosto ainda não estava exangue.”
Ele também se postou entre mim e o jurado próximo, a quem eu deveria
passar a miniatura e entre ele e o jurado ao qual aquele deveria entregá-
lo, assim procedendo até que a passasse a todos os jurados e em seguida
devolvendo-a a mim. Nenhum deles, contudo, apercebeu-se disso.
À mesa, e geralmente quando estávamos enclausurados sob a custódia
do sr. Harker, desde o início nossas conversas sempre se dirigiam aos
detalhes das ocorrências do dia. Naquele quinto dia, concluídas as provas
da promotoria e estabelecido por nós o quadro dessa questão, nossa discussão
tornou-se mais animada e séria. Entre nós encontrava-se um membro
do conselho paroquial — o maior idiota que eu jamais encontrara —,
que objetou da maneira mais ridícula as provas mais evidentes e que foi
secundado por dois parasitas paroquiais balofos — todos os três recrutados
de um distrito tão entregue à exaltação que deveriam ser eles próprios
julgados por centenas de assassinatos. Quando esses estúpidos nefastos
estavam no auge de sua exaltação, o que ocorreu por volta da meia-noite,
quando alguns de nós já se preparavam para ir para a cama, vi novamente
o homem assassinado. Ele postou-se solenemente atrás deles, acenando
para mim. Quando me dirigi a eles e intervim na conversa, ele imediatamente
retirou-se. Essa foi a primeira de uma série de aparições isoladas,
circunscritas àquele grande aposento a que nós nos encontrávamos circunscritos.
Toda vez que um grupo de meus colegas jurados aproximava
suas cabeças, eu via a cabeça do homem assassinado entre elas. Toda vez
que sua comparação de notas lhe era desfavorável, ele solene e resolutamente
acenava para mim.
Deve-se ter em mente que, até a apresentação do resumo no quinto
dia do julgamento, eu nunca vira a aparição no tribunal. Três mudanças
ocorreram quando se iniciou a apresentação da defesa. Duas delas mencionarei
juntas, em primeiro lugar. O fantasma estava sempre no tribunal,
e ele nunca lá se dirigia a mim, mas sempre à pessoa que estava falando
no momento. Por exemplo, a garganta do homem assassinado havia sido
cortada em linha reta. No discurso de abertura da defesa, sugeriu-se que o
morto poderia ter cortado sua própria garganta. Naquele mesmo instante,
a figura, com sua garganta nessa condição terrível a que se referiu (ela
havia escondido isso anteriormente), se postou ao lado do falante, movendo
ora sua mão esquerda, ora sua mão direita pela sua traquéia, dando
a entender com veemência ao próprio falante a impossibilidade de que tal
ferida tivesse sido infligida por qualquer uma das mãos. Outro exemplo:
uma mulher testemunhou em favor do caráter do prisioneiro, dizendo ser
ele o mais amável dos seres. O fantasma, naquele instante, postou-se à
sua frente, encarando-a e apontando para a expressão malévola do prisioneiro
com um braço estendido e o dedo em riste.
A terceira mudança a ser agora acrescentada causou-me forte impressão,
por ser a mais eloqüente e extraordinária de todas. Não avanço
nenhuma hipótese sobre ela; descrevo-a com exatidão, simplesmente.
Embora a aparição não fosse em si percebida por aqueles a quem ela se
dirigia, sua aproximação era invariavelmente acompanhada de um tremor
ou perturbação por parte dessas pessoas. Parecia-me que alguma lei a
mim inacessível o impedia de se revelar aos outros e, todavia, como se
ele pudesse, invisível, silenciosa e sombriamente toldar seus espíritos.
Quando o principal advogado de defesa aventou a hipótese de suicídio e
o fantasma postou-se junto àquele cavalheiro erudito, serrando aterradoramente
sua garganta, o advogado inequivocamente vacilou em seu discurso,
perdeu por alguns instantes o fio de seu discurso engenhoso, enxugou
sua testa com um lenço e ficou extremamente pálido. Quando a testemunha
em favor do caráter foi desafiada pela aparição, seus olhos visivelmente
seguiram a direção do dedo em riste e pousaram com grande
hesitação e perturbação no rosto do prisioneiro. Dois exemplos adicionais
bastarão. No oitavo dia do julgamento, depois da pausa que se fazia diariamente
no início da tarde para um descanso de alguns minutos e uma
refeição ligeira, voltei para o tribunal com os demais jurados, um pouco
antes do retorno dos juízes. De pé no tablado e olhando a minha volta,
julguei que o fantasma não estava lá, até que, levantando por acaso meus
olhos para a galeria, vi-o inclinando-se para a frente e encostando-se em
urna mulher muito distinta, como se para verificar se os juízes haviam retomado
ou não seus lugares. Imediatamente depois, aquela mulher gritou,
desmaiou e foi carregada para fora. O mesmo ocorreu com o venerável,
sagaz e paciente juiz que presidia ao julgamento. Quando a defesa terminou
e ele reuniu os documentos para a súmula, o homem assassinado entrou
pela porta dos juízes, avançou para a mesa de Sua Excelência e
olhou ansiosamente por sobre seu ombro para as páginas de suas anotações,
que ele estava virando. Sua fisionomia se transformou; sua mão deteve-
se; o singular tremor que eu tão bem conhecia atravessou-o; ele vacilou,
“Perdoem-me, cavalheiros, por alguns instantes. Creio que o ar viciado
me afetou”, e não se recobrou antes de tomar um copo d’água.
Durante toda a monotonia daqueles dez dias intermináveis — os
mesmos juízes e os demais em seus lugares, o mesmo assassino no banco
dos réus, as mesmas entoações de perguntas e respostas a ressoar pela
sala do tribunal, o mesmo ranger da pena do juiz, os mesmos oficiais entrando
e saindo, as mesmas luzes acesas à mesma hora, não obstante a luz
natural do dia, a mesma cortina de fumaça fora das grandes janelas quando
havia névoa, a mesma chuva tamborilando e gotejando quando chovia,
as mesmas pisadas do carcereiro e do prisioneiro dia após dia na mesma
serragem, as mesmas chaves a fechar e abrir as mesmas portas pesadas
— durante toda a cansativa monotonia que me fez sentir como se fora o
primeiro jurado durante um enorme período do tempo e Picadilly tivesse
vicejado contemporaneamente à Babilônia, o homem assassinado nunca
perdeu um traço de sua visibilidade em meus olhos, e tampouco em momento
algum se fez menos nítido do que qualquer outra pessoa. Na verdade,
não devo omitir que sequer uma vez vi a aparição que designo por
homem assassinado olhar para o assassino. Repetidas vezes perguntei-me
por que não o fazia. Mas ele não o fazia.
Ele tampouco olhou para mim, após a apresentação da miniatura, até
os últimos minutos de conclusão do julgamento. Nós nos retiramos para
deliberar às sete para as dez da noite. O apalermado membro de conselho
paroquial e seus dois parasitas paroquiais nos deram tanto trabalho que
por duas vezes retornamos ao tribunal para requerer a leitura de certos
extratos das anotações dos juízes. Para nove de nós não havia qualquer
dúvida quanto a essas passagens, tampouco, creio eu, para qualquer outra
pessoa no tribunal; o triunvirato de patetas, contudo, não desejando senão
a obstrução, justamente por isso objetava a elas. Por fim vencemos e finalmente
o júri retornou ao tribunal à meia-noite e dez.
O homem assassinado colocou-se no lugar oposto ao banco dos jurados,
no outro lado do Tribunal. Quando tomei meu lugar, seus olhos
pousaram em mim, com grande atenção; ele parecia satisfeito e vagarosamente
agitou um grande véu cinza, que carregava em seu braço, pela primeira
vez sobre a cabeça. No momento em que declarei nosso veredicto
de “Culpado”, o véu caiu e tudo desapareceu, deixando vazio seu lugar.
Quando o juiz, segundo o costume, perguntou-lhe se desejava declarar
algo antes que lhe fosse dada a sentença de morte, o assassino murmurou
indistintamente algo que foi descrito pelos principais jornais do
dia seguinte como “umas poucas divagações incoerentes e palavras semiinaudíveis,
pelas quais deu a entender que não tivera um julgamento justo
porque o primeiro jurado se colocara contra ele”. A extraordinária declaração
que ele realmente fizera é a seguinte: “Meu senhor, eu soube que
estava condenado quando o primeiro jurado de meu julgamento subiu ao
banco. Meu senhor, eu soube que ele nunca me libertaria, porque, antes
que eu fosse preso, ele pôs-se ao lado de minha cama à noite, não sei
como, acordou-me e pôs uma corda em volta de meu pescoço.”

segunda-feira, julho 27, 2009

O SINALEIRO (Charles Dickens)


“Olá! Você, aí embaixo!”
Quando ele ouviu uma voz chamando-o, estava à porta de sua cabine, com uma bandeira na mão, enrolada na sua vareta curta. Considerando-se a natureza da área, imaginar-se-ia que ele não pudesse duvidar de onde vinha a voz; mas em vez de olhar para cima, onde eu me postara no alto do patamar praticamente por sobre a sua cabeça, ele virou-se e olhou para a Linha abaixo. Havia algo de estranho na sua maneira de fazê-lo, mas eu não, absolutamente não, poderia dizer o quê. Mas sei que era estranho o bastante para atrair minha atenção, embora sua silhueta estivesse parcialmente oculta e ensombrecida na passagem de nível abaixo, e a minha, bem acima dele, tão imersa no brilho incandescente de um crepúsculo rubro que eu tivera de proteger meus olhos com a mão antes de o ver.
“Olá! Aí embaixo!”
Depois de olhar para a Linha abaixo, ele voltou-se novamente e, levantando os olhos, viu minha silhueta no alto.
“Existe um caminho pelo qual eu possa descer e falar com você?”
Olhou para mim sem responder e olhei para ele, sem pressioná-lo imediatamente com uma repetição de minha pergunta ociosa. Foi então que houve uma vaga vibração no chão e na atmosfera, rapidamente transformando-se em uma violenta pulsação e progressiva agitação que me fez recuar, como se ela tivesse força para arrastar-me para baixo. Quando uma nuvem de vapor do trem veloz havia passado por mim, olhei novamente o nível inferior e o vi enrolando novamente a bandeira que ele desfraldara à passagem do trem.
Repeti minha pergunta. Após uma pausa, durante a qual ele pareceu me olhar com uma atenção concentrada, acenou com sua bandeira enrolada em direção a um ponto em meu patamar, distante umas duas ou três centenas de jardas.
Respondi-lhe “Está bem!” e desci àquele ponto. Lá, à força de olhar atentamente ao meu redor, encontrei um caminho escavado e irregular descendo em ziguezague, que segui.
O entalho era extremamente profundo e anormalmente abrupto. Era feito em pedra úmida, que se tornava mais gotejante e molhada à medida que eu descia. Por isso, o percurso foi lento o bastante para me dar tempo de recordar um ar singular de relutância ou obrigação com o qual ele me apontara o caminho.
Após descer o ziguezague o suficiente para vê-lo novamente, vi que ele se postara entre os trilhos pelos quais o trem passara recentemente, como se estivesse esperando que eu aparecesse. Tinha a mão esquerda no queixo e o cotovelo esquerdo pousava na mão direita, cruzada sobre o peito. Sua postura era de tal expectativa e cautela que me detive por um instante, surpreso.
Retomei minha descida e, caminhando cautelosamente até o nível dos trilhos e aproximando-me dele, vi que era um homem moreno e aparência doentia, com uma barba escura e sobrancelhas um tanto cerradas. Seu posto ficava no lugar mais solitário e lúgubre que eu jamais vira. De ambos os lados, um gotejante muro de pedras irregularmente recortadas, que a tudo ocultava, exceto uma faixa de céu; o panorama numa direção apresentava apenas um prolongamento torto desse grande calabouço; na outra direção, mais proximamente, avistava-se uma luz vermelha sombria e a entrada ainda mais sombria de um túnel negro, em cuja arquitetura maciça havia apenas um ar terrivelmente opressivo e irrespirável. Esse lugar recebia tão pouca luz do sol que exalava um cheiro de terra insuportável; e atravessava-o um vento tão frio que fiquei gelado, como se houvesse me distanciado do mundo real.
Antes que ele se movesse, eu fiquei tão próximo que poderia tocá-lo. Sem tirar os olhos de mim nem mesmo então, ele recuou um passo e levantou a mão.
Esse posto era solitário (disse eu) e havia chamado minha atenção quando de lá de cima olhara para baixo. Raramente aparecia um visitante, eu supunha; mas essa seria uma raridade indesejável? Talvez em mim ele pudesse ver um homem que igualmente fora encerrado em limites estreitos durante toda a vida mas que, finalmente livre, fora recentemente despertado para essas grandes obras. Assim dirigi-me a ele; mas não estou certo de que foram essas as palavras usadas, pois, além de eu não ser bom em entabular uma conversa, havia algo no homem que me intimidava.
Ele lançou um olhar muito estranho para a luz vermelha perto da boca do túnel e perscrutou-a, como se algo estivesse faltando ali e depois olhou para mim.
“Aquela luz fazia parte de sua ocupação? Não é?”
Respondeu numa voz baixa: “Você sabe que sim”.
Um pensamento terrível me veio à mente enquanto examinava atentamente os olhos fixos e o rosto saturnino, que se tratava não de um homem, mas de um espectro. Desde então tenho me perguntado se seu espírito não estava contaminado.
Quanto a mim, recuei. Mas, ao fazê-lo, detectei em seus olhos algum medo latente de mim. Isso pôs a correr o pensamento terrível.
“Você olha para mim”, falei, forçando um sorriso, “como se me receasse.”
“Eu não tinha certeza”, respondeu ele, “se o vira antes.”
“Onde?”
Ele apontou para a luz vermelha para onde olhara.
“Lá?”, disse eu.
Com um olhar atento e cauteloso, ele respondeu (mas com voz inaudível) que sim.
“Meu bom amigo, o que eu estaria fazendo lá? Mas, de qualquer forma, eu nunca estive lá, pode estar certo disso.”
“Acho que posso”, repetiu ele. “Sim, acho que posso.”
Seu rosto se desanuviou, assim como o meu. Respondeu às minhas indagações com solicitude e palavras precisas. Ele tinha muito que fazer ali? Sim, diria que sim, tinha muitas coisas sob sua responsabilidade, mas o que se exigia dele eram pontualidade e atenção, não um trabalho real — manual. Para mudar aquele sinal, ajustar aquelas luzes e girar essa maçaneta de ferro de quando e quando era tudo que tinha a fazer. Com relação àquelas muitas horas longas e solitárias que me chamavam tanto a atenção, ele podia apenas dizer que a rotina de sua vida assim se acomodara e que a ela se habituara. Ele aprendera lá uma linguagem — se conhecê-la apenas pela visão e ter formado suas próprias idéias toscas de sua pronúncia pudesse ser chamado de aprendizado. Ele também trabalhava com frações e decimais e tentara um pouco de álgebra; mas tinha dificuldade, desde criança, com números. Era-lhe necessário, quando em serviço, permanecer sempre naquela corrente de ar úmido e não podia nunca subir para a luz do sol, por entre aqueles altos muros de pedra? Ora, isso dependia da hora e das circunstâncias. Sob certas circunstâncias, havia menos trabalho no Ramal do que nos outros, independente de horas diurnas ou noturnas. Quando o tempo estava bom, ele às vezes saía um pouco daquelas sombras inferiores; mas, como estava sempre sujeito a chamadas de sua campainha elétrica, e nessas ocasiões precisava ficar atento a ela com ansiedade redobrada, o alívio era menor do que eu poderia supor.
Ele me levou ao seu cubículo, onde havia uma lareira, uma escrivaninha para um livro oficial no qual ele devia registrar certas entradas, um aparelho telegráfico com seu dispositivo de discagem, mostrador e agulhas e o pequeno sino de que falara. Quando expressei minha certeza de que ele perdoaria minha observação quanto ao fato de que era um homem instruído e (sem ofensa, esperava eu) talvez acima daquele cargo, ele observou que era extremamente raro encontrarem-se exemplos de ligeira discordância desse tipo entre uma grande quantidade de pessoas; que ouvira casos assim nas oficinas, na polícia, até mesmo naquele último recurso desesperado, o exército; e que ele sabia ser assim, mais ou menos, em qualquer equipe de uma grande companhia de estradas-de-ferro. Fora, quando jovem (se me fosse possível crer, sentado naquela cabina; até mesmo a ele era difícil crer), um estudante de filosofia natural e freqüentara cursos; mas havia se comportado mal, perdido suas oportunidades, decaído, e nunca mais se recuperara. Não se queixava disso. Fizera sua cama e deitara-se nela. Era tarde demais para fazer outra.
Tudo isso — que eu resumi aqui — ele o disse de jeito calmo, com seus olhares sérios divididos entre mim e o fogo. Ele intercalava a palavra “Senhor” de tempos em tempos e especialmente quando se referia a sua juventude: como se me pedisse para compreender que ele não pretendia ser senão o que eu nele via. Diversas vezes ele foi interrompido pelo sininho e precisou ler mensagens e enviar respostas. Uma das vezes, teve de postar-se além da porta e agitar uma bandeira enquanto um trem passava e trocar algumas palavras com o foguista. Observei que, no desempenho de seus deveres, ele era notavelmente pontual e atento, interrompendo seu discurso numa sílaba e permanecendo em silêncio até terminar o que tinha a fazer.
Em suma, eu daria as melhores recomendações a respeito desse homem para esse emprego, salvo pela circunstância de que, enquanto falava comigo, interrompeu-se duas vezes, empalideceu, virou seu rosto para o sininho que não estava tocando, abriu a porta da cabina (que ficava fechada para impedir a umidade insalubre) e olhou para a luz vermelha próxima à boca do túnel. Em ambas as ocasiões voltou para o fogo com o ar inexplicável que eu observara, mas não fora capaz de definir, quando ainda estávamos muito distantes um do outro.
Eu disse, quando me levantei para despedir-me: “Você quase me fez pensar que encontrei um homem feliz”. (Mas devo confessar que o disse para animá-lo).
“Creio que era”, replicou ele, na voz baixa com que falara pela primeira vez, “mas estou perturbado, senhor, estou perturbado.”
Ele teria retirado as palavras, se pudesse. Mas dissera-as, contudo, e eu rapidamente agarrei a deixa.
“Com o quê? O que o perturba?”
“É muito difícil explicá-lo, senhor. É algo sobre o que é muito difícil falar. Se algum dia o senhor me fizer uma outra visita, tentarei contar-lhe.”
“Mas eu tenho realmente a intenção de fazer-lhe uma outra visita. Diga-me, quando poderei fazê-lo?”
“Saio de manhã cedo e volto novamente amanhã às dez da noite, senhor.”
“Virei às onze.”
Mostrou-se agradecido e foi até a porta comigo. “Acenderei minha luz branca, senhor”, disse ele, naquele seu tom de voz baixa que lhe era peculiar, “até o senhor encontrar seu caminho para cima. Quando chegar lá, não grite! E quando estiver no topo, não grite!”
Sua atitude parecia fazer o lugar me parecer mais frio, mas eu nada mais disse senão “Está bem”.
“E quando descer amanhã à noite, não grite! Permita-me fazer-lhe uma última pergunta. O que o fez gritar ‘Alô! Alô, aí embaixo’ esta noite?”
“Sabe-se lá”, disse eu. “Gritei algo assim...”
“Não assim, senhor. As palavras foram exatamente essas. Conheço-as bem.”
“Admito que foram essas as palavras. Eu as disse, sem dúvida, porque eu o vi embaixo.”
“Por nenhum outro motivo?”
“Por que outro? Que outro motivo poderia haver?”
“Não teve nenhuma sensação de que lhe eram comunicadas de algum modo sobrenatural?”
“Não.”
Ele me desejou boa noite e levantou sua lanterna. Andei pelo lado da linha de trilhos abaixo (com uma sensação muito desagradável de um trem vindo atrás de mim), até encontrar o lugar de subida. Era mais fácil subir do que descer, e eu voltei para meu hotel sem quaisquer incidentes.

II

Pontualmente, coloquei meu pé no primeiro entalhe do ziguezague na noite seguinte quando os relógios ao longe estavam batendo as onze horas. Ele estava a minha espera no fundo, com sua luz branca acesa. “Não gritei”, disse eu, quando nos aproximamos; “posso falar agora?”. “Claro que sim, senhor.” “Boa noite, então, e aqui está minha mão.” “Boa noite, senhor; aqui está a minha.” Com isso, caminhamos lado a lado até sua cabina, entramos, fechamos a porta e sentamo-nos ao lado do fogo.
“Decidi, senhor”, começou ele, inclinando-se para frente assim que nos sentamos e falando num tom pouco acima de um sussurro, “que não precisará perguntar duas vezes sobre o que me perturba. Tomei o senhor por outra pessoa ontem à noite. O que me perturba.”
“Esse engano?”
“Não. A outra pessoa.”
“Quem é ela?”
“Não sei.”
“Parecida comigo?”
“Não sei. Nunca vi o rosto. O braço esquerdo está na frente do rosto, e o braço direito está acenando. Acenando com violência. Assim.”
Segui seu gesto com meus olhos e era o de um braço a agitar-se com extrema comoção e veemência. “Pelo amor de Deus, saia do caminho!”
“Numa noite enluarada”, disse o homem, “eu estava sentado aqui quando ouvi uma voz gritar: Alô! Aí embaixo!' Fiz um movimento, olhei daquela porta e vi essa pessoa de pé, ao lado da luz vermelha perto do túnel, acenando exatamente como lhe mostrei agora. A voz parecia rouca de tanto gritar e gritava: ‘Cuidado! Cuidado!’. E depois novamente: ‘Alô! Aí embaixo! Cuidado!’. Peguei minha lanterna, acendi a luz vermelha e corri em direção à figura, dizendo: ‘O que há de errado? O que aconteceu? Onde?’. Eu estava perto da escuridão do túnel. Avancei para bem perto dele, pois estranhei o fato de manter a manga diante de seus olhos. Corri para ele e, quando estendi minha mão para puxar a manga, ele desapareceu”.
“Dentro do túnel?”, indaguei.
“Não. Corri para dentro do túnel, quinhentas jardas. Parei e levantei minha lanterna acima da cabeça e vi as figuras de uma certa distância e as gotas de umidade descendo pelas paredes e escorrendo pelo arco. Corri para fora novamente, mais rápido do que correra para dentro dele (pois tenho um pavor mortal do lugar) e olhei tudo em volta da luz vermelha com a minha própria luz vermelha e subi a escada de ferro até a galeria acima e desci novamente, correndo de volta para cá. Telegrafei para ambos os lados: ‘Houve um alerta. Alguma coisa errada?’ A resposta de ambos foi: ‘Tudo certo?’.”
Afastando o lento toque de um dedo gelado a subir pela minha espinha, expliquei-lhe que aquela imagem devia ser uma ilusão de óptica e que se sabia que essas imagens, originadas por doença dos nervos delicados que comandam as funções dos olhos, muitas vezes perturbavam os pacientes, alguns dos quais haviam reconhecido a natureza de sua ansiedade e até mesmo comprovado-a por experiências consigo mesmos. “Quanto ao grito imaginário”, expliquei, “ouça apenas por um momento o vento nesse vale artificial enquanto falamos com vozes tão baixas e como ele faz dos fios do telégrafo uma harpa extremamente sonora!”
Tudo isso estava muito certo, respondeu ele, depois que já estávamos sentados por bons minutos, e já deveria ter pensado no vento e nos fios, ele que tantas vezes passara longas noites de inverno ali, sozinho e em vigília. Mas rogou-me atentar para o fato de que ainda não terminara.
Pedi desculpas, e ele lentamente acrescentou estas palavras, tocando em meu braço:
“Seis horas após a Aparição, aconteceu o famoso acidente desta Linha e durante dez horas os mortos e feridos foram trazidos de dentro do túnel, sobre o ponto em que estivera a imagem”.
Um calafrio desagradável subiu-me pelo corpo, mas fiz o possível para ignorá-lo. Era inegável, repliquei, que se tratava de uma coincidência notável e na medida certa para impressioná-lo. Mas era inquestionável que coincidências notáveis ocorriam sempre e que elas devem ser levadas em conta ao lidar com assuntos desse tipo. Embora eu certamente devesse admitir, acrescentei (pois julgava prever que ele iria contra-argumentar) que homens de bom senso geralmente não incluem coincidências nas previsões dos acontecimentos cotidianos.
Ele novamente rogou-me que atentasse para o fato de que não terminara.
Novamente pedi desculpas por tê-lo interrompido.
“Isso”, disse ele, pondo a mão em meu braço de novo e olhando por sobre o ombro com olhos vazios, “aconteceu exatamente um ano atrás. Seis ou sete meses se passaram, e eu me recobrara da surpresa e do choque quando uma manhã, ao amanhecer, de pé naquela porta, olhei para a luz vermelha e vi o espectro novamente”. Ele parou, com um olhar fixo para mim.
“Ele gritou?”
“Não. Ficou em silêncio.”
“Ele acenou?”
“Não. Encostou-se ao poste da lanterna, com as duas mãos diante do rosto. Assim.”
Mais uma vez, segui seu gesto com os olhos. Era um gesto de luto. Já vi essa postura em figuras de pedra sobre túmulos.
“Você foi até ele?”
“Entrei e sentei-me, em parte para recobrar o domínio de meus pensa-mentos, em parte porque me sentia a ponto de desmaiar. Quando fui novamente até a porta, a luz do dia brilhava e o fantasma desaparecera.”
“Mas nada mais aconteceu? Foi tudo?”
Ele me tocou o braço com seu dedo indicador duas ou três vezes, acompanhando cada um desses gestos com uma inclinação da cabeça, aterrorizado.
“Naquele mesmo dia, quando um trem saiu do túnel, notei, numa janela do vagão para o meu lado, o que parecia uma confusão de mãos e de cabeças, e algo acenava. Eu o vi, a tempo de fazer um sinal para o foguista parar. Ele desligou e freou, mas o trem arrastou-se outras cento e cinqüenta jardas ou mais. Corri para ele e, enquanto o acompanhava, ouvi gritos agudos e choros terríveis. Uma bela e jovem senhora morrera instantaneamente em um dos compartimentos e foi trazida para cá; deitaram-na neste chão, aqui, entre nós dois.”
Involuntariamente, recuei minha cadeira, enquanto meu olhar ia das tábuas para as quais ele apontava para ele próprio.
“Verdade, senhor. Verdade. Foi exatamente assim que aconteceu, estou lhe dizendo.”
Eu não conseguia pensar em nada para dizer, nada que conviesse, e minha boca estava muito seca. O vento e os fios receberam a história com um longo gemido de lamento.
Ele recomeçou. “Agora, senhor, ouça bem e avalie a perturbação de meu espírito. O espectro voltou, uma semana atrás. Desde então, ele está lá, de quando em quando, intermitentemente.”
“Ao lado da lanterna?”
“Ao lado da lanterna de alerta.”
“O que ele parece estar fazendo?”
Ele repetiu, se possível com uma emoção e veemência maior, a gesticulação anterior de “Pelo amor de Deus, saia do caminho!”
Depois continuou: “Não tenho paz ou tranqüilidade por causa disso. Ele me chama, durante minutos seguidos, de uma forma angustiada, ‘Aí embaixo! Cuidado! Cuidado!’ Ele fica acenando para mim. Ele toca meu sininho...”
Nesse momento, eu o interrompi. “Ele tocou seu sino ontem à noite, quando eu estava aqui e você foi até a porta?”
Duas vezes.
“Ora, veja”, disse eu, “como sua imaginação o engana. Meus olhos estavam no sino, e meus ouvidos atentos, e se estou vivo, ele NÃO tocou então. Não, nenhuma vez, exceto do modo natural das coisas físicas, quando a estação comunicou-se com você.”
Ele balançou a cabeça. “Eu nunca me enganei, senhor. Nunca confundi a badalada do espectro com a humana. O badalar do fantasma é uma vibração estranha no sino que não provém de nada mais, e não afirmei que não se vê o sino balançar. Não surpreende que o senhor não o tenha ouvido. Mas eu ouvi.”
“E o espectro pareceu estar lá, quando você olhou para fora?”
“Ele estava lá.”
“Ambas as vezes?”
Repetiu com firmeza: “Ambas as vezes.”
“Você poderia ir até a porta comigo e procurá-lo agora?”
Ele mordeu o lábio inferior como se relutasse um pouco, mas levantou-se. Abri a porta e fiquei no degrau, enquanto ele se deteve na soleira. Ali estavam as altas paredes de pedras molhadas do entalho. Ali estavam as estrelas bem acima delas.
“Você o vê?”, perguntei-lhe, observando atentamente seu rosto. Seus olhos estavam arregalados e fatigados; mas não muito mais do que haviam estado os meus quando os dirigira atentamente para o mesmo ponto.
“Não”, respondeu ele. “Ele não está lá.”
“Exatamente”, disse eu.
Entramos novamente, fechamos a porta e sentamo-nos. Eu estava pensando em como aproveitar essa vantagem, se é que podemos chamá-la assim, quando ele retomou a conversa de um modo tão direto, admitindo que não poderíamos discordar seriamente diante do fato, que senti estar em uma posição muito desfavorável.
“A esta altura o senhor compreenderá perfeitamente”, disse ele, “que o que me perturba de modo tão terrível é a pergunta: o que quer dizer o espectro?”
Eu não tinha certeza, disse-lhe eu, de tê-lo compreendido perfeitamente.
“Ele está me avisando do quê?”, disse ele, ruminando, os olhos no fogo e apenas de vez em quando os voltando para mim. “Qual é o perigo? Onde está o perigo? Há um perigo à espreita, em algum lugar na linha. Alguma terrível desgraça está para acontecer. Quanto a isso não há dúvida, nesta terceira vez, depois do que aconteceu antes. Mas com certeza isso me atormenta. O que posso fazer?!”
Ele tirou seu lenço e enxugou as gotas de suor de sua testa febril.
“Se eu telegrafar: Perigo, para um dos lados ou para ambos, não posso alegar nenhum motivo para tanto”, continuou ele, enxugando as palmas das mãos. “Eu iria me arrumar problemas e não adiantaria nada. Eles pensariam que estou louco. O que sucederia seria isto: Mensagem ‘Perigo! Cuidado!’ Resposta: ‘Que Perigo? Onde?’ Mensagem: ‘Não sei. Mas, pelo amor de Deus, cuidado!’ Eles me demitiriam. O que mais poderia fazer?”
Seu sofrimento causava grande pena. Era a tortura mental de um homem consciencioso, oprimido intoleravelmente por uma responsabilidade ininteligível que envolvia vidas.
“Quando ele ficou pela primeira vez sob a luz de perigo”, continuou, afastando da testa seus cabelos escuros e esfregando as mãos pelas têmporas, num gesto de desespero febril, “por que não me dizer onde esse acidente devia acontecer — se ele devia acontecer? Por que não me dizer como ele poderia ter sido evitado — se ele pudesse ser evitado? Quando de sua segunda aparição, ele escondeu o rosto; por que, em vez disso, não me disse, ‘Ela vai morrer. Diga-lhes para mantê-la em casa?’ Se ele viesse, nessas duas ocasiões, apenas para me mostrar que seus avisos eram verdadeiros e portanto para preparar-me para o terceiro, por que simplesmente não me avisar agora? E eu, Deus me ajude, um simples e pobre sinaleiro neste lugar solitário! Por que não ir até alguém com credibilidade e poder para agir?!”
Quando o vi nesse estado, compreendi que, em favor do pobre homem, assim como para a segurança do público, o que me cabia fazer no momento era acalmá-lo. Conseqüentemente, deixando de lado toda discussão entre nós sobre o que era real e o que não era, argumentei com ele que quem quer que exercesse tão conscienciosamente sua função fazia-o bem, e que ao menos para seu consolo ele compreendia seu dever, embora não compreendesse essas aparições malditas. Nesse esforço eu me saí muito melhor do que na tentativa de convencê-lo de que estava errado. Ele ficou calmo; as ocupações inerentes a seu posto, à medida que a noite avançava, começaram a requisitar cada vez mais sua atenção, e eu o deixei às duas da manhã. Eu me ofereci para ficar a noite toda, mas ele absolutamente não quis.
Que eu mais de uma vez olhei para trás, para a luz vermelha, enquanto subia pelo caminho, que eu não gostava da luz vermelha e que teria dormido muito mal se minha cama estivesse sob ela são fatos que não vejo motivo para esconder. Nem gostei das duas seqüências do acidente e da moça morta. Não vejo motivo para esconder isso também.
Mas o que mais me ocupava o pensamento era a reflexão sobre como deveria agir, agora que me fora feita uma tal revelação. Eu verificara que o homem era inteligente, atento, escrupuloso e pontual; mas por quanto tempo ele continuaria assim, nesse estado de espírito? Apesar de sua posição subordinada, ele tinha uma responsabilidade da maior importância. Gostaria eu (por exemplo) de apostar minha própria vida nas possibilidades de ele continuar a executá-la com perfeição?
Incapaz de superar uma sensação de cometer de certa forma uma traição se comunicasse aos seus superiores na Companhia o que ele me dissera, sem primeiro ter uma conversa franca e propor uma solução intermediária para ele, resolvi por fim oferecer-me para acompanhá-lo (e também guardar segredo por uns tempos) ao melhor médico especialista que pudéssemos consultar na região e pedir sua opinião. Uma mudança no seu turno de serviço ocorreria na noite seguinte, segundo ele me informara; ele estaria livre uma hora ou duas após o amanhecer e voltaria logo depois do anoitecer. Tínhamos marcado nosso encontro conforme esse esquema.
A noite seguinte estava agradável, e eu saí cedo de casa, a fim de desfrutá-la. O sol ainda não se pusera quando atravessei a calçada próxima do topo do entalhe profundo. Eu estenderia minha caminhada por uma hora, disse comigo, meia hora para ir e meia hora para voltar, e então já seria hora de ir à cabina do meu sinaleiro.
Antes de prosseguir meu passeio, pisei na borda e mecanicamente olhei para baixo, no lugar de onde o vira pela primeira vez. Não consigo descrever o calafrio que me percorreu quando, junto à boca do túnel, vi o vulto de um homem, com sua manga esquerda sobre os olhos, acenando veementemente com o braço direito.
O indizível horror que me sufocava passou num minuto, pois logo vi que esse vulto era de fato um homem e que havia um pequeno grupo de outros homens em pé a uma pouca distância dali, para quem ele parecia estar encenando o gesto que fizera. A luz de perigo ainda não estava acesa. Junto ao poste, estava uma pequena tenda baixa, que nunca vira antes, com suportes de madeira e lona. Não parecia maior do que uma cama.
Com uma sensação inelutável de que havia algo errado — com um súbito medo do sentimento de culpa pelo erro fatal de ter deixado o homem ali e não ter feito com que enviasse alguém para supervisioná-lo ou corrigir o que ele fazia — desci o caminho chanfrado o mais depressa que pude.
“O que aconteceu?”, perguntei aos homens.
“O sinaleiro foi morto esta manhã, senhor.”
“Não é o homem daquela cabina, é?”
“É sim, senhor.”
“O homem que conheço?”
“O senhor o reconhecerá, se o conhecia”, disse o homem que era um porta-voz, descobrindo solenemente sua própria cabeça e levantando uma ponta da lona, “pois seu rosto não se alterou”.
“Meu Deus! Como isso aconteceu, como isso aconteceu?”, perguntei, virando para um e para outro, enquanto a cabina era novamente fechada.
“Ele foi morto por uma locomotiva, senhor. Ninguém na Inglaterra conhecia melhor seu trabalho do que ele. Mas, não se sabe por quê, ele não saiu do trilho externo. Foi em pleno dia. Ele havia acendido a luz e tinha na mão a lanterna. Quando a locomotiva saiu do túnel, ele estava de costas para ela e foi atingido. Aquele homem ali estava no comando e mostrando como aconteceu. Mostre a este cavalheiro, Tom.”
O homem, que usava uma capa tosca e escura, recuou para o lugar onde estivera antes, junto à boca do túnel.
“Depois da curva do túnel, senhor”, disse ele, “eu o vi no fim, como que numa luneta. Não deu tempo de diminuir a velocidade, e eu sabia que ele era muito cuidadoso. Como ele pareceu não ouvir o apito, eu desliguei a máquina quando estávamos próximos dele e chamei-o o mais alto que pude.”
“O que você disse?”
“Eu disse: Alô, aí embaixo! Cuidado! Cuidado! Pelo amor de Deus, saia do caminho!”
Levei um choque.
“Ah!, foi horrível, senhor. Eu não parei de gritar para ele. Pus meu braço na frente dos olhos, para não ver, e acenei este outro até o último momento; mas de nada adiantou.”
Para não prolongar a narrativa com detalhes acerca de algumas das estranhas circunstâncias mais do que de outras, posso, ao encerrá-la, sublinhar a coincidência de que o alerta do maquinista da locomotiva incluía não apenas as palavras que o infeliz sinaleiro repetira para mim e que dizia persegui-lo, mas também as palavras que não ele, mas eu próprio associara — e apenas mentalmente — ao gesto que ele imitara.