Sunday, July 03, 2016

O Sonho (L.F.Riesemberg)


Juan acordou estranho. Sonhara que viajaria a um país distante, para então lá viver. Mas, prestes a sair de casa para ir ao aeroporto, pensava nos pais, que teria que deixar, e foi tomado por muitas saudades do passado, dos anos da infância e da segurança que eles lhe davam. Além disso, seria sua primeira viagem para tão longe, e estava nervoso.

Por outro lado, neste sonho, viajaria com Beto e Fernando, seus dois grandes amigos de outrora, com quem não falava há tempos, e a presença deles o confortava. Sua última sensação, antes de acordar, foi um calor humano por estar junto de seus amigos no interior da aeronave, apesar de estarem sentados em assentos distantes.

Ao abrir os olhos naquele dia, Juan lembrou do que sonhara e sentiu-se vazio. O país estava em crise. Não havia empregos, nem a esperança de um futuro melhor. Ir morar no exterior era uma solução, mas ele sequer havia pensado nisso para ele. Nem passaporte possuía. Sentia-se estagnado, sem crescer há muito tempo, e isso o deprimia.

O sonho daquela noite ainda o fez lembrar de Beto e Fernando. Por onde andariam os grandes camaradas? Há muito que não os encontrava. Seria uma boa hora dar um telefonema, marcar algo. O mesmo sobre os pais, de quem estava tão afastado ultimamente, apesar do dinheiro que depositavam mensalmente em sua conta.

Juan levantou determinado a resolver as três questões trazidas pelo sonho: se aproximaria dos pais, voltaria a procurar os amigos e abriria um negócio, por mais difícil que fosse o momento. E algo o fazia sentir que as três coisas estavam conectadas.

Dias depois estava rindo com seus pais e fazendo-os sorrir. Fez uma surpresa na hora do almoço. Pediu desculpas pelo afastamento e pelos pequenos desastres de que foi protagonista, desde a adolescência. Mas agora estava determinado: queria mudar, dar-lhes orgulho. E para coroar o feliz encontro, conseguiu dizer aquela frase, sempre impedida de sair de sua boca, como que por encantamento: “Eu amo vocês”.

Mais tarde estava com Beto e Fernando, no carro deste último.

-Há quantos anos não nos víamos? Três? Quatro?

Rumavam felizes para uma lanchonete, como nos velhos tempos. Quando o carro atravessava uma ponte, Juan suspirou e congelou aquele momento emblemático. Encontrava-se na passagem para uma nova fase de sua vida. Estava deixando para trás tantos erros, dando o primeiro passo de uma longa caminhada. No mesmo dia havia exorcizado vários de seus demônios, falando o que precisava para a família e para os amigos. E tudo havia começado com aquele sonho, em que se preparava para viajar ao exterior.

“Não foi bem um sonho, foi uma premonição”, pensou, associando a viagem, o medo, a presença dos pais e dos amigos com sua vida e com as decisões tomadas. “Sim, o sonho foi bem real”, concluiu, sem perceber o gigantesco caminhão sem controle, na direção oposta, em velocidade vertiginosa e com o motorista adormecido. “Sim, tudo vai mudar daqui pra frente”.

Wednesday, June 29, 2016

O Eco (L.F.Riesemberg)


Era um rancho de dois alqueires, na margem direita do rio, com um velho casebre perto do barranco. Nas minhas férias, papai sempre me levava lá. Ele gostava de ficar estirado em uma poltrona, ouvindo os sons da natureza e fumando um cachimbo, enquanto eu arrumava algo para fazer.

Descontando o assobio dos canários e dos bem-te-vis que viviam na mata, tudo ao redor era muito quieto. Quase podíamos ouvir as águas descendo o rio. E então o meu pai, de pé na ribanceira, gritou para a outra margem: “Eco!”.

Imediatamente uma voz emergiu do meio das árvores, sobrepondo-se à dele com um mínimo de atraso: “Eco!”.

Olhei espantado para a densa floresta do outro lado do rio e perguntei: “Quem mora lá?”. E ele, sorrindo, passou a mãos nos meus cabelos: “Ah, é um outro homem. E ele também tem um filho, igual a nós dois”.

“Eia!”, gritou novamente. E imediatamente aquele homem do outro lado gritou também. Resolvi experimentar, juntando todo o ar que pude nos meus pulmões: “Cadê vocês?”. E logo ouvi uma voz idêntica gritar para mim: “Cadê vocês?”.

“Estamos aqui!”, tornei a berrar.

E o menino do outro lado repetiu: “Estamos aqui!”

Maravilhado, perguntei a papai: “Posso ir lá brincar com ele?”.

“Oh, não! Você não o veria”.

Aquilo me entristeceu.

“Mas eles estão lá, fazendo as mesmas coisas que fazemos aqui, eu e você”, disse papai.

“Eles também pescam? E o menino corre? Será que tem amigos?”. Eu fazia muitas perguntas ao meu velho paizinho. “Tenho certeza que sim”, disse ele. “Fazem tudo isso e muito mais”, falou, sorrindo e me abraçando.

Essas são as lembranças mais vivas que tenho dele. Já faz tanto tempo! Mas no rancho, nada mudou. O rio continua aqui, imenso e silencioso. E a outra margem permanece lá, misteriosa, com as mesmas árvores de sempre ocultando o que quer que haja por trás delas.

Eu já não sou mais aquele menino. Porém, como não há mais ninguém aqui para achar estranho, resolvo gritar:

“Eco!”.

E, ao mesmo tempo, do fundo daquela mata na outra margem, eis que a voz me responde: “Eco!”. Não mais a voz do menino de outrora, mas, inquestionavelmente, a voz das minhas lembranças. A voz do meu pai.

Eu gostaria muito de ir para lá, abraçá-lo como antes, e dizer que o amo, como eu nunca disse. Aproveito o momento e grito outra vez: “Eu amo você!”.

E sou logo correspondido: “Eu amo você!”.

Hoje eu sei que é inútil atravessar o rio e explorar a outra margem. Não haveria nada lá, pois o que eu mais procuro acabaria se transferindo para a margem oposta, onde agora me encontro. “Ainda assim, eu queria o seu abraço”, penso sozinho.

E do outro lado do rio, sem que eu veja, ele me vê. Sentado na poltrona, sorrindo com um cachimbo no canto boca. “Algum dia, filho. Algum dia...”.

Monday, June 27, 2016

O Jardim de Inverno (L.F.Riesemberg)


Era finalmente sexta-feira. Benjamin caminhava sozinho pela calçada, olhando as árvores sem folhas e os gramados secos, sem acreditar que já era final de setembro. No calendário, a primavera já havia começado, mas o menino sabia que algo não estava correto.

Segundo Ben, o inverno só acabava quando as primeiras formigas de asas surgissem do pequeno buraco de algum gramado vizinho e saíssem voando pelos ares. Ele sempre achou fabulosa aquela imagem. Um pequeno esquadrão decolando de dentro da terra, batendo as asas pela primeira vez em direção ao sol.

Haviam condições especiais para aquelas formigas brotarem do chão. Elas deviam esperar a temperatura exata, de um dia quente e úmido, sempre no final da tarde. E sua aparição era o anúncio de muitas alegrias depois dos meses de inverno: em breve viria o primeiro sorvete, as caminhadas noturnas em família, as limonadas com gelo, as poltronas na varanda, o assopro no primeiro dente-de-leão para suas pétalas se desfazerem no ar e caírem como pequenos paraquedistas...

O menino observava atentamente os gramados das casas, já com poucas esperanças de ver suas amigas aladas, pois sentia que aquele ainda não era o dia perfeito. Olhou com muito interesse os jardins de todos os vizinhos, exceto o de Ted, com quem não estava falando, e seguiu para casa.

Conformado, atravessou de cabeça baixa seu jardim seco e triste. A imensa árvore com galhos sem folhas, os canteiros vazios e a grama marrom lembravam mais um cemitério. Entrou e foi direto ao quarto, onde teria que continuar arrumando algo para fazer, já que a primavera não havia começado de verdade.

Ben estava inquieto, pois o próximo era o verão em que faria doze anos. O verão de sua vida. O último em que daria para cumprir todas as tradições da estação, cultivadas desde que se lembrava de estar vivo. Depois disso daria adeus a muitos hábitos, deixando morrer uma parte de si.

Ele podia não saber conscientemente disso tudo, mas era algo que seu coração mandava lhe dizer. E passar um dia a mais preso naquele quarto significava viver um dia a menos de estripulias, um dia a menos de explorações na vizinhança, de aventuras de bicicleta, de torneios de arroto, de risos no gramado verde e de picolés no bar da esquina.

Ficou olhando pela janela o vasto jardim, agora convertido quase em deserto, à espera de suave brisa que trouxesse a primavera. Se ao menos não estivesse de mal com Ted, algo de bom haveria a se fazer com ele. Mas desde que brigaram há algumas semanas, os dias passaram a ser longos e tediosos.

Na tarde de sábado, amargurado, Ben via a casa da frente, onde morava o ex-amigo, e imaginava o que ele estaria fazendo para passar o tempo. Na certa teria encontrado algo divertido, alguma poção mágica, um jogo novo ou um mistério insolúvel. Mas talvez estivesse também solitário, aguardando avidamente para que fizessem as pazes.

“Não vou mais falar com ele”, pensou Ben. Queria um amigo melhor. Além disso, poderia muito bem se virar sozinho. Seria ótimo que Ted visse, da janela do seu quarto, o quanto Ben ficava ótimo sem ele. De súbito pegou seus soldadinhos e correu ao árido gramado, onde criou pequenas barricadas com pedrinhas e iniciou uma guerra entre os dois exércitos. O início até foi divertido, mas com o jardim sem nada verde, não havia como os soldados se camuflarem, e logo aquela batalha se tornou cansativa e sem sentido.

Ben suspirou. Havia perdido a guerra.

“Posso falar com o Ted?”, disse o garoto à mãe do amigo, depois de apertar a campainha. A mulher sorriu e foi chamá-lo. “Ei, Ted, quer brincar lá fora?”. Seus olhares se cruzaram e imediatamente os meninos estavam reconciliados, sem necessidade de qualquer palavra para selar tal gesto. “Tá bem, vou pôr meu tênis”.

E, ao descer o degrau da varanda, Ben notou aquela acentuada mudança no ar, sempre cheia de significado. “Olha só”, apontou Ted. As formigas de asas estavam saindo do solo. “Vamos pegar algumas! Corra!”. E assim, finalmente, começou a primavera.

Friday, June 24, 2016

Crítica de um Filme (L.F.Riesemberg)


Recentemente, saturado dos tolos lançamentos no cinema, reparei um equívoco que há muito me incomodava e conferi It Follows, gema de 2014, rebatizada por estas bandas como A Corrente do Mal. E que agradável surpresa eu tive, pois tratava-se de verdadeira obra de arte, que utilizava o gênero terror para retratar o fim da inocência e a chegada à vida adulta.

Ótima fotografia, trilha sonora atmosférica, clima onírico e excelentes atuações podem não ser comuns nestas produções. Mas It Follows tinha tudo isso e ainda conseguia atingir o seu objetivo inicial, que era o de ser um filme profundamente assustador, apresentando-nos a um monstro que podia assumir diferentes formas e perseguir suas vítimas de modo implacável, ainda que lentamente, vencendo-as pelo cansaço emocional e psicológico.

Decidido a escrever sobre a obra com todo o respeito que ela merecia, desejei entrevistar o diretor David Robert Mitchell, e consegui seu contato através da Nothern Lights, que produziu o filme. Não houve tanta dificuldade ou demora para tal feito, visto que trata-se de um filme independente e de uma produtora de relativamente poucos recursos.

Caprichei na primeira mensagem que enviei diretamente ao correio eletrônico do cineasta, elogiando suas decisões artísticas, principalmente os simbolismos nostálgicos sobre a infância. Confessei que tais detalhes me fizeram lembrar dos contos de Ray Bradbury, e esta foi minha melhor escolha de palavras, visto que o diretor era, ele próprio, grande fã do escritor americano. Acho que foi neste ponto que ganhei sua confiança, e ele me respondeu prontamente, agradecendo as palavras e se dizendo disposto a me fornecer todos os dados que eu necessitasse para meu artigo.

Naquele momento teve início uma longa troca de mensagens eletrônicas entre nós dois, que culminou em uma situação atípica e perturbadora. Este relato poderá soar fantástico demais ou até ridículo, dependendo do leitor, mas afirmo que tudo o que será lido é absolutamente legítimo, como poderá ser comprovado futuramente.

O que se passou foi o seguinte. Creio que havíamos trocado sete ou oito mensagens no decorrer de quatro dias, e Mitchell estava cada vez mais à vontade, escrevendo e-mails mais longos e sinceros à medida que eu também me abria mais e contava sobre o meu passado, principalmente minha adolescência. Eu já havia notado que esse era um de seus temas de interesse, pois naquele meio tempo eu aproveitei para conferir seu primeiro filme, The Myth of the American Sleepover, que pouco difere de It Follows, apesar de ser um drama e não horror.

Àquela altura ele escreveu algo que a princípio ignorei, achando tratar-se de um mal entendido, principalmente devido ao meu Inglês não-nativo. Mas relendo sua mensagem e pedindo para que ele esclarecesse melhor, pude confirmar que não era um erro de interpretação. David Robert Mitchell afirmou, na verdade jurou, que a história toda de It Follows era verídica. Aquilo havia acontecido consigo próprio, retratado no filme como o personagem Jeff. 

“O que? Você está brincando, certo?”, perguntei, mas ele insistiu, dizendo que It Follows era baseado em sua experiência pessoal, em todos os detalhes, sem qualquer tipo de simbolismo. Afirmava que havia sido perseguido por uma assustadora criatura que lhe fora transmitida através do sexo com uma desconhecida, e que a perseguição só terminou no dia em que ele passou a maldição para outra jovem.

De início imaginei ser piada, depois pensei tratar-se de um modo de promover o filme, já que ele sabia que eu escreveria sobre o assunto. Porém, a sua demora em falar a respeito daquilo e o fato da exibição ter ocorrido há tanto tempo me desencorajaram de acreditar nesta versão. Mas o que ele ganharia inventando uma história daquelas?

“Luiz, eu não inventei aquilo. Tudo aconteceu realmente. Mas tudo bem, você não precisa acreditar”, escreveu ele. Desculpei-me pela minha relutância, porém tive que solicitar alguma confirmação. “Você quer uma prova, pois eu te darei uma, se você realmente estiver interessado”. Depois disso, passamos alguns dias sem correspondência. Não queria perder contato com aquele talentoso artista, que provavelmente estava a um passo de sair da semi-obscuridade para ganhar o mainstream e certamente Oscars, mas ao mesmo tempo eu começava a duvidar de sua sanidade, e ter um pouco de medo. “Por que será que os gênios precisam ser tão excêntricos?”, pensei.

Certa noite, já envolvido com outro texto que uma revista me encomendara, fiz breve pausa e, ao olhar pela janela, reparei naquela mulher à distância, caminhando lentamente, como um zumbi, na direção de minha casa. Não pude deixar de me arrepiar, diante de tudo o que havíamos conversado, o cineasta e eu, e continuei olhando, cada vez mais pasmo, principalmente quando pude notar, apesar da minha visão debilitada, que a mulher vinha totalmente nua, e ninguém a notava.

“Ok, deve ser uma brincadeira. O cara é bom!”, pensei. Mas é claro que um lado da minha personalidade me mandava ficar apavorado, me dizendo que a maldição havia passado para mim, e que aquela coisa, que no momento se apresentava como uma mulher, caminharia até me pegar, e este seria o momento da minha morte.

No filme, a vítima precisava sempre fugir, pois a coisa nunca deixava de segui-la. Fiquei esperando a mulher nua andando até chegar à janela. De perto encarei-a, e pude ver como seus olhos pareciam buracos negros, certamente ávidos por me devorar. Ao esbarrar no vitrô, ela procurou algo no chão até encontrar uma pedra, e a atirou violentamente, estilhaçando o vidro e abrindo passagem para pular a janela.

Fugi de lá e fiz como recomendado no filme, indo para o local mais longe possível, e com mais de uma saída. Mandei um e-mail para Mitchell, perguntando o que era aquilo. Se ele quis me pregar uma peça, acabou abrindo um furo no próprio roteiro que havia criado, pois eu nunca poderia pegar aquela maldição, visto que somente a pessoa que se relacionou sexualmente com um amaldiçoado o poderia. A resposta não tardou a chegar na minha caixa de e-mail: “Há mais coisas que não estão no filme, que descobri mais tarde. Tudo o que você precisa saber está no roteiro de It Follows 2, que estou escrevendo”.

Simples assim. Não me disse mais nada. E eu, desde então, ando fugindo da coisa, que me persegue a passos lentos, cada vez com um corpo diferente, e só é vista por mim. Já contei para outras pessoas, mas é óbvio que ninguém acredita. Já pedi, por favor, para Mitchell me dizer como foi que transmitiu a maldição para mim, e como eu posso passá-la adiante. Mas ele não responde mais. Oh, não, ela já está aqui outra vez. Preciso sair daqui agora mesm... 


Tuesday, June 14, 2016

Lua Cheia (L.F.Riesemberg)


O bebê chorava, e a jovem mãe o balançava em seus braços. "Veja a lua", disse ela , apontando o grande círculo branco no céu. "O meu amor por você é daquele tamanho, e nunca vai se acabar", entoou suavemente, e aos poucos o filho foi se acalmando, até fechar os olhos e adormecer totalmente.

O bebê ainda chorou muitas vezes até crescer, e ela sempre mostrava a lua, comparando-a com o imenso amor que tinha por aquele ser.  

Um dia ele parou de usar fraldas, e já era um menino que brincava de carrinhos e super heróis. Não queria mais cantigas de ninar. Mas a mãe, cheia de amor, aguardava até que ele dormisse e sussurrava sobre seus lençóis:

"O meu amor por você é daquele tamanho, e nunca vai se acabar".

A lua mudava a cada semana, e o menino ainda mais. Porém, o amor dela não variava jamais. E na adolescência, que trouxe tantos problemas, a mãe nunca esqueceu o seu velho lema. Lua nova, minguante, crescente ou cheia. A mãe sempre a mirava, e dizia, plena: "O meu amor por você é daquele tamanho, e nunca vai se acabar".

Um dia, o filho foi embora. Tinha que seguir seu caminho. E a mãe, sozinha no ninho, bendizia o seu fruto, confessando baixinho: "O meu amor por você é daquele tamanho, e nunca vai se acabar".

Tarde da noite, o fone tocou. Ele atendeu, era a mãe. "Filhinho, querido, venha me ver". A voz era fraca, e o homem chorou.

No leito encolhida, é ela quem precisa ser acolhida. Mas diante do engasgo do filho, ao vê-la tão abatida, ela mesma tem a iniciativa: "O meu amor por você é daquele tamanho, e nunca vai se acabar". E ficaram abraçados, até o fim, sob a luz do luar.

De volta pra casa, sem mãe a zelar, ele pega do berço o próprio filho, que estava a chorar: "Não chore", diz ele, embalando o bebê. "O meu amor por você é daquele tamanho, e nunca vai se acabar". 

Thursday, June 09, 2016

A Fada (L.F.Riesemberg)


Sob a luz brilhante de um poste, Gia tomou a forma de libélula e pousou no ombro de um jovem que ia apressado pela calçada. Talvez assim ele lembrasse que, quando criança, as confundia com pequenos helicópteros. Mas o rapaz apenas afastou o inseto com a mão e continuou a andar, sem comover-se com o passado. Em sua mente só havia espaço para uma coisa: a festa aonde se dirigia.

Então a fada ficou invisível e desfez o laço do tênis que ele calçava. Agachado para amarrá-lo, ela lhe assoprou uma figurinha que estava na calçada, uma das poucas que faltavam em seu velho álbum. Ele ia guardá-la, mas desistiu. Não era mais criança. E continuou o seu caminho.

Insistente, Gia adiantou-se até a confeitaria, por onde o adolescente logo iria passar, e empurrou para a rua o cheiro do bolo de milho que ele tanto gostava. Ele sentiu aquele conhecido aroma e formou-se um misto de água na boca com recordações da infância. Chegou a pegar o dinheiro que levava no bolso, pensando em comprar uma fatia, porém era para gastar na festa, e voltou ao seu caminho.

“Sabe aquele filme que você e seus pais adoravam assistir juntos? Vai passar hoje na TV!”, disse ela em seus ouvidos. Mas ele não voltou atrás. A festa era mais importante.

De repente, uma criatura saiu das sombras de um beco e precipitou-se sobre os dois. “Desista, ele é meu”, falou Morso, com sua voz cavernosa. Gia não lhe deu ouvidos. Haveria de convencer o menino a voltar para casa. “Ele não é mais um menino”, disse o demônio.

“Ele só tem quinze anos”, rebateu Gia.

Morso riu. “Tem idade o bastante”, falou. E então foi a sua vez de sussurrar aos ouvidos do rapaz. “A festa vai ser quente, não? Garotas, bebida e tudo mais!”.

O jovem sorriu com aquelas promessas, passando a apertar ainda mais o passo. Era a primeira vez que saía sozinho à noite e sentia-se um homem. É claro que  teve que esconder dos pais algumas coisas, mas já era hora de deixar de ser menino e começar a agir feito adulto.

Gia fez com que ele olhasse para uma família feliz que atravessava a rua. Um sorridente garotinho andava de mãos dadas com os pais, como se fosse o elo daquele casal. “Lembre-se de quando era você!”, ela sussurrou. “As brincadeiras, as cabanas de lençol na sala, as tortas de maçã, as histórias que contavam para você dormir, e como eles corriam te salvar do monstro do armário, no meio da noite”.

O garoto vislumbrou, por um instante, seus alegres anos de infância. Mas logo continuou seu caminho. Nada parecia interferir em sua decisão. “Por que não me ouve mais?”, perguntou a pobre fada, empalidecendo de desânimo.

“É assim mesmo”, disse Morso. “Quando chega essa idade, eles não querem ser crianças. Só desejam sair de casa, ter experiências novas, longe dos pais”.

Gia enxugou uma lágrima. “Por que você faz isso? Por que simplesmente não me ajuda a tirá-lo deste caminho? Você bem sabe o que o espera!”.

Morso sentou-se ao lado dela no meio-fio. “Gia, eu não sou um demônio, como você pensa. Eu quero tanto o bem dele quanto você. Mas agimos diferente”.

“Como pode você querer o bem dele, se o empurra para uma vida de ilusões e sofrimento?”, disse a fada.

“Oh, talvez por um tempo, sim”, respondeu Morso. “Mas eu sou o anjo do arrependimento, e estarei ao lado dele quando descobrir que este caminho não é bom. Algumas pessoas simplesmente precisam passar por isso. E então será a sua vez de surgir com toda a força, trazendo saudades do passado para ele perceber que aquilo é que o fazia feliz de verdade”.

“Mas e se isso acontecer tarde demais?”, perguntou Gia.

Morso suspirou. “É um risco que todos eles querem correr”.

Gia viu que o garoto estava chegando ao seu destino, e voltou a bater as asas. “Não posso desistir. Vou tentar mais uma vez”, disse, e saiu voando. Morso apenas sacudiu a cabeça, descrente.

Perto dali, o rapaz ia empurrar a porta para entrar na balada. A música vinha alta lá de dentro. Ele encheu os pulmões de ar, pegando coragem para ingressar naquele mundo e deixar sua inocência para trás. Mas algo dentro dele insistia em fazê-lo pensar que aquilo era errado, e que ele não deveria estar ali. 

Monday, June 06, 2016

A Casa da Praia (L.F.Riesemberg)


Antony construía um castelo de areia quando a irmã trouxe um balde cheio de conchinhas. “Consegui umas bem grandes!”, disse ela. O garoto olhou a pequena coleção ainda úmida e pegou um caramujo. “Vou enfeitar minha torre com este”. A menina concordou e voltou correndo para o mar. Era o último dia na praia, e estava proibido desperdiçar qualquer minuto.

O garoto passara todos seus verões naquele lugar. Dera os primeiros passos na mesma areia que, agora, escavava com a pazinha. À pequena distância ficava a velha casa de praia da família, de onde os pais observavam as duas crianças. “Agora venham! Está na mesa!”, chamou a mãe.

Almoçavam vendo o mar pela janela, degustando o peixe pescado naquela mesma manhã. “Nós temos mesmo que partir?”, perguntou a menina. Os adultos se olharam, um deixando para que o outro falasse, até que a mãe tomou a iniciativa: “Sim, Bianca. Nada dura para sempre, especialmente as férias”.

Mais calado, Antony pensava em uma maneira de levar a praia consigo para a cidade. Assim sentiria menos saudades, e teria mais recordações durante outro ano longe dali. “Vou levar um pouco do mar em uma garrafa”, falou.

Naquela última tarde, o menino completou mais uma vez seu ritual. Depois do almoço, perguntou à mãe se já podia dar um mergulho. Ela o lembrou, pela milésima vez, que era preciso esperar a maré baixar. Enquanto isso não ocorria, ele pediu dinheiro para comprar picolé de um ambulante que passava com seu carrinho. Depois o menino provocou a irmã, correndo atrás dela com a pistola de água. Então ficou resolvendo uma revista de palavras cruzadas que comprara na banca, no dia anterior.

Por ser o último dia antes de voltarem, era importante cumprir todas as tarefas. Não esqueceu nem mesmo de tomar café na caneca verde de plástico, comendo pão com uma fatia grossa de queijo. Mais tarde, liberada a ida ao mar, fez questão de ficar sentado nas pedras, com o sol a lhe secar a pele, até que uma onda batesse com força e lhe molhasse novamente.

Em todos os anos esses acontecimentos se repetiam, e Antony pressentia que eles eram muito maiores do que as aparências indicavam. À noite, ele pediu à mãe que lhe passasse o hidratante nas costas, inspirou a fumaça do espiral contra mosquitos e tentou pegar uma lagartixa na parede, só para vê-la correr feito bêbada pelas tábuas.

Após a noite cair, antes de dormirem com a música das ondas, o pai convidou toda a família para uma caminhada noturna pela praia. Outra aventura que não poderia deixar de se repetir. Caminharam descalços pela areia úmida, observando a pequena luz do farol, à distância.

“Crianças, preciso contar uma coisa”, falou o pai, em tom grave. Tal ar não combinava com aqueles dias mágicos, e Antony sugeriu discretamente que a conversa fosse adiada. A praia deveria ser somente lugar de histórias felizes.

“Você não sabe ainda?”, perguntou a irmã, no caminho de volta. “O pai vai vender a casa. Nunca mais vamos voltar aqui”.

Depois do choque, o garoto se obrigou a não pregar os olhos, um minuto sequer, durante toda a noite. Queria se impregnar, pela última vez, com o cheiro de colchão velho daquele beliche. Outra vez queria ouvir o noturno estalar das madeiras do quarto, que a mãe dizia ser efeito do calor, mas que ele tinha certeza serem fantasmas. E queria uma vez mais sentir sede de madrugada e ter que caminhar no escuro até a cozinha, mesmo com medo, para beber água do filtro de barro.

“Adeus, casinha”, disse Bianca, na manhã seguinte, depositando uma flor em cada janela, como despedida. “Não fiquem tristes, meninos”, disse a mãe. “Um dia vamos comprar uma muito maior que esta, em uma praia bem melhor também”. Mas ela disfarçadamente enxugou uma lágrima quando os quatro deram um abraço coletivo. E enquanto o carro se afastava, Antony ficou olhando pela janela, tentando gravar em sua memória a última imagem daqueles dias felizes de sua infância.

Hoje, depois de quarenta anos, ele volta pela primeira vez àquele lugar. Nada parece como antes. A casa foi demolida, mas ele olha e a vê, como uma fotografia antiga, com todas suas imperfeições, e uma lágrima brota de seus olhos. Não há mais o pai nem a mãe para abraçá-lo, porém ali estão eles, deitados na rede sob a sombra da varanda, e Antony deseja ardentemente voltar ao passado, para aquela vida da mais doce inocência, que se desfizera no ar feito cinzas, consumidas pelas traças do tempo.