terça-feira, maio 25, 2021

A Gaveta (L.F.Riesemberg)

 

Há muitos anos eu não visitava aquele quarto, nem olhava aqueles móveis. Tudo estava com um leve cheiro de mofo e coberto por uma fina camada de poeira. Era o quarto de vovô, que havia partido há muito tempo. De repente vi algo que me chamou a atenção: a gaveta da escrivaninha onde ele guardava seu maior mistério.

Quando eu era menino, costumava correr pela casa, fingindo ser um explorador que fugia de canibais. Às vezes acontecia de eu ir parar neste quarto. Mas tudo parecia maior naquela época. A cama era alta como uma montanha. O lustre, que hoje bate na minha cabeça, ficava no céu. E, numa das vezes em que adentrei sorrateiramente aquele cômodo mágico, avistei vovô sozinho, sentado na cama, diante da gaveta aberta.

Ele estava paralisado, pensativo, olhando ao longe, como se a parede à sua frente fosse um deserto a se perder de vista. Entrei devagar para não assustá-lo, acreditando que ele logo sairia daquele transe, e instintivamente saí do meu papel: deixei de ser um aventureiro em fuga para voltar a ser uma criança na casa dos avós. Lentamente me coloquei à sua frente, para que me notasse, mas aquilo não foi o suficiente para fazê-lo voltar. Ele estava como que hipnotizado, olhando para o nada, como se só o seu corpo estivesse ali sentado, e sua alma tivesse sido capturada por alguma força sobrenatural.

“Vovô, tudo bem?”, perguntei, e ainda assim ele permaneceu naquele estado, levado para um mundo desconhecido, como se nada existisse ao seu redor. Fiquei com muito medo naquela hora. Teria meu vozinho morrido? Era sinistro pensar que alguém poderia morrer naquela posição, mas todo o resto da cena indicava que não havia nada ali, a não ser seu corpo. Onde estaria aquele avô amável que me pegava no colo, que me dava trocados para comprar sorvete e sempre tinha uma bala no bolso para me oferecer?

Com todo o cuidado o cutuquei no joelho. Ele continuou com os olhos desfocados, então toquei com mais força, falando “vovô, vovô!”, até que ele finalmente voltou a si e me viu em sua frente. Por algum tempo ainda permaneceu sem me reconhecer, apenas me olhando, mas eu soube que ele estava de volta no momento em que sorriu, como sempre fazia ao me receber. O brilho que renasceu em seus olhos iluminou o quarto todo, e fiquei aliviado por ter meu vozinho de volta.

Aquela experiência, apesar de rápida, havia sido tão assustadora que o abracei com toda a minha força e não quis mais largá-lo. Sinto que até hoje ainda estou abraçado a ele. Por muitos anos, sempre que eu recordava daquele momento sentia arrepios ao imaginar o que haveria dentro daquela gaveta aberta, diante da qual ele estava posicionado. Em minha imaginação, ele havia avistado lá dentro algum objeto amaldiçoado que estava tentando sequestrar sua alma, mas eu cheguei a tempo de salvá-lo e o trouxe de volta.

E agora estou aqui, diante dela, depois de tantos anos. Tudo no quarto continua igual, então aquilo que meu avô havia visto continuaria lá, esperando. Era possível!

Não tenho mais medo e abro a gaveta. De fato, havia algo lá. Uma fotografia. Era muito antiga, bastante amarelada, mas não me era desconhecida. No retrato apareciam meu próprio vozinho, ainda criança, ao lado do meu bisavô, ou seu pai. Ele a me mostrava e falava a respeito do seu tempo. Fiquei olhando aquela foto e sentei na cama, como ele mesmo estava naquele dia, há tanto tempo.

Muitas coisas se passaram pela minha mente naquele momento. Fiquei pensando na passagem do tempo, e isso me levou a ver minha própria infância, com cenas de eu menino correndo por aquela casa, bancando o explorador. Não sei quanto tempo fiquei ali, preso a tais lembranças, abraçando aquelas saudades antigas do alguém que eu havia sido. Era como se houvessem suspendido as leis da natureza e eu adentrasse aquele reino mágico, um lugar doce, de tons dourados e odores fascinantes, onde eu era criança e podia ser o que eu quisesse. Desejei voar e voei, e estava nas nuvens. Entendi que era lá que meu avô estava, quando subitamente fui trazido de volta ao meu corpo, pelo toque suave de uma mãozinha.

“Pai, você tá bem? Eu falava e você não respondia”, disse meu filho, um tanto acanhado.

Minha alma entristeceu por voltar ao mundo, mas aqueles olhinhos a animaram novamente.

Nenhum comentário:

Postar um comentário