Thursday, June 09, 2016

A Fada (L.F.Riesemberg)


Sob a luz brilhante de um poste, Gia tomou a forma de libélula e pousou no ombro de um jovem que ia apressado pela calçada. Talvez assim ele lembrasse que, quando criança, as confundia com pequenos helicópteros. Mas o rapaz apenas afastou o inseto com a mão e continuou a andar, sem comover-se com o passado. Em sua mente só havia espaço para uma coisa: a festa aonde se dirigia.

Então a fada ficou invisível e desfez o laço do tênis que ele calçava. Agachado para amarrá-lo, ela lhe assoprou uma figurinha que estava na calçada, uma das poucas que faltavam em seu velho álbum. Ele ia guardá-la, mas desistiu. Não era mais criança. E continuou o seu caminho.

Insistente, Gia adiantou-se até a confeitaria, por onde o adolescente logo iria passar, e empurrou para a rua o cheiro do bolo de milho que ele tanto gostava. Ele sentiu aquele conhecido aroma e formou-se um misto de água na boca com recordações da infância. Chegou a pegar o dinheiro que levava no bolso, pensando em comprar uma fatia, porém era para gastar na festa, e voltou ao seu caminho.

“Sabe aquele filme que você e seus pais adoravam assistir juntos? Vai passar hoje na TV!”, disse ela em seus ouvidos. Mas ele não voltou atrás. A festa era mais importante.

De repente, uma criatura saiu das sombras de um beco e precipitou-se sobre os dois. “Desista, ele é meu”, falou Morso, com sua voz cavernosa. Gia não lhe deu ouvidos. Haveria de convencer o menino a voltar para casa. “Ele não é mais um menino”, disse o demônio.

“Ele só tem quinze anos”, rebateu Gia.

Morso riu. “Tem idade o bastante”, falou. E então foi a sua vez de sussurrar aos ouvidos do rapaz. “A festa vai ser quente, não? Garotas, bebida e tudo mais!”.

O jovem sorriu com aquelas promessas, passando a apertar ainda mais o passo. Era a primeira vez que saía sozinho à noite e sentia-se um homem. É claro que  teve que esconder dos pais algumas coisas, mas já era hora de deixar de ser menino e começar a agir feito adulto.

Gia fez com que ele olhasse para uma família feliz que atravessava a rua. Um sorridente garotinho andava de mãos dadas com os pais, como se fosse o elo daquele casal. “Lembre-se de quando era você!”, ela sussurrou. “As brincadeiras, as cabanas de lençol na sala, as tortas de maçã, as histórias que contavam para você dormir, e como eles corriam te salvar do monstro do armário, no meio da noite”.

O garoto vislumbrou, por um instante, seus alegres anos de infância. Mas logo continuou seu caminho. Nada parecia interferir em sua decisão. “Por que não me ouve mais?”, perguntou a pobre fada, empalidecendo de desânimo.

“É assim mesmo”, disse Morso. “Quando chega essa idade, eles não querem ser crianças. Só desejam sair de casa, ter experiências novas, longe dos pais”.

Gia enxugou uma lágrima. “Por que você faz isso? Por que simplesmente não me ajuda a tirá-lo deste caminho? Você bem sabe o que o espera!”.

Morso sentou-se ao lado dela no meio-fio. “Gia, eu não sou um demônio, como você pensa. Eu quero tanto o bem dele quanto você. Mas agimos diferente”.

“Como pode você querer o bem dele, se o empurra para uma vida de ilusões e sofrimento?”, disse a fada.

“Oh, talvez por um tempo, sim”, respondeu Morso. “Mas eu sou o anjo do arrependimento, e estarei ao lado dele quando descobrir que este caminho não é bom. Algumas pessoas simplesmente precisam passar por isso. E então será a sua vez de surgir com toda a força, trazendo saudades do passado para ele perceber que aquilo é que o fazia feliz de verdade”.

“Mas e se isso acontecer tarde demais?”, perguntou Gia.

Morso suspirou. “É um risco que todos eles querem correr”.

Gia viu que o garoto estava chegando ao seu destino, e voltou a bater as asas. “Não posso desistir. Vou tentar mais uma vez”, disse, e saiu voando. Morso apenas sacudiu a cabeça, descrente.

Perto dali, o rapaz ia empurrar a porta para entrar na balada. A música vinha alta lá de dentro. Ele encheu os pulmões de ar, pegando coragem para ingressar naquele mundo e deixar sua inocência para trás. Mas algo dentro dele insistia em fazê-lo pensar que aquilo era errado, e que ele não deveria estar ali. 

1 comment:

  1. A estória em si é ate bonita, mas a achei inconclusiva, pois, no meu modestíssimo entendimento, creio que ainda poderia ter-lhe sido dado um melhor desfecho!!!

    ReplyDelete