Thursday, August 21, 2014

O espiral de cinzas (L.F.Riesemberg)



Em outubro começa a melhor época do ano para se acampar. O frio já foi embora, mas ainda não temos aquele calor insuportável e risco de temporais, como em dezembro. Então juntei meu material de camping e fui fazer a primeira expedição com a companhia da Claudia, minha filha de oito anos.
Seria apenas uma noite fora de casa, mas não esqueci de colocar na mochila o fogareiro, o cantil, a lanterna, roupas leves e mais uma porção de utensílios.
No sábado pela manhã, antes de sairmos, passamos no supermercado para pegar café e macarrão instantâneo. Claudia estava muito animada para fazer aquela aventura, mas já fui avisando: “Lá não tem frescuras”. Ela não poderia reclamar da barraca, nem de saudades da mãe, que não quis nos acompanhar. No fundo eu sabia que minha filha, dentro de um ou dois anos, também não se interessaria mais por fazer essas coisas comigo.
Antes de embarcarmos, e depois de ouvirmos mil recomendações da minha mulher, vi Claudia colocar algo dentro da mochila. “Estávamos esquecendo! Vai ter muito pernilongo à noite”, falou. Era uma caixinha daqueles espirais verdes que se queimam para afastar mosquitos. Eu sabia que não era muito eficaz, mas minha filha tinha obsessão por aquilo. Gostava de ver a fumaça branquinha saindo dele, de sentir o cheiro que exalava no ar e, principalmente, do caracol de cinzas que restava no chão, na manhã seguinte.  
O tempo estava bom e o trajeto até o cânion não apresentou muitas dificuldades. Durante todo aquele sábado passamos horas muito divertidas, apesar do cansaço. Mas do momento em que armamos a barraca, até a hora de fazer a fogueira, tive aquela sensação de despedida, por saber que minha filha logo não seria mais uma criança. Eu tinha que aproveitar para fazê-la gostar da natureza e para passarmos um tempo juntos, antes que ela entrasse na adolescência.
À noite ficamos contando histórias e olhando as estrelas. Um meteorito riscou o céu, coroando aquele dia inesquecível.
Fechamos a barraca, nos desejamos boa noite e fomos cada um para o seu saco de dormir. “Obrigado, pai, por essa aventura incrível!”, disse ela, ao meu lado, pouco antes de adormecer profundamente. “Quem agradece sou eu”, pensei. Minhas lembranças dos acampamentos com meu pai tinham ficado guardadas num lugar especial do meu coração. Agora, até o cheiro do interior da barraca me lembrava aquele tempo de garoto, e eu torcia para que Claudia também guardasse boas memórias comigo.
Acabei adormecendo, mas poucas horas depois, no meio da madrugada, acordei com um ruído do lado de fora da barraca. “Porcos do mato, farejando nossos restos”, pensei. Não custava dar uma olhada e espantá-los se fosse preciso. Dificilmente haveria coiotes naquela região, mas era bom ficar atento.
Abri lentamente o zíper da barraca e coloquei a cabeça para fora. A noite estava fria, e predominava no ar um forte odor que inundou minhas narinas. “Ah, Claudia!”, exclamei baixinho, quando vi que ela havia deixado um espiral aceso bem na entrada da barraca, armado sobre o prato onde ela jantou. Pensei em apagá-lo, para não ficarmos impregnados com aquele cheiro, mas ainda havia muitas voltas para continuar queimando, e ela ficaria triste se, na manhã seguinte, não estivesse lá o caracol de cinzas. Então apenas afastei o prato do caminho e fiz uma ronda no perímetro do acampamento. Não encontrei nada. Antes de voltar para dentro, resolvi me afastar uns passos a fim de esvaziar a bexiga atrás de uma árvore, e foi nessa hora que notei algo caminhar pelas redondezas.
Eu só o enxergava com a luminosidade natural do ambiente, pois tinha esquecido de trazer a lanterna. Qualquer animal que fosse, estaria fazendo sua caçada noturna, atrás de comida. Mas, reparando bem nos sons que emitia e no pouco que dava para ver dele na escuridão, minha conclusão foi de que aquilo não podia ser um animal comum.
Fiquei congelado, atento ao que podia acontecer, e rapidamente pensei em Claudia, dormindo sozinha na barraca. Passei a mão pelos meus bolsos, com a esperança de estar com a faca, mas todos estavam vazios. Eu não quis me alarmar, pois talvez não houvesse risco. Porém, a simples dúvida sobre a segurança de um filho já é o suficiente para deixar qualquer pai enlouquecido. Mantive-me espreitando atrás do tronco, achando cada vez mais estranho o formato da criatura que, nas sombras, não me deixava descobrir de que espécie era.
Sua respiração era um rosnado, e ele parecia rastejar pela relva, farejando algo. Percebi que ele tinha as costas encurvadas, de onde apontavam grossos pelos eriçados. Eu, cada vez mais tenso, percebi, para meu desespero, que ele estava lentamente indo em direção à barraca. Olhei pelo chão ao meu redor, tentando enxergar algum pedaço de pau para atacá-lo, e quando olhei novamente, ele estava parado bem na entrada da barraca.
Não dava para esperar mais. Era um momento decisivo, e fiquei pronto para tomar uma atitude violenta. Encontrei no chão uma pedra, peguei-a e me aprontei para correr até a criatura, tentando mirar sua cabeça.
Assim que dei o primeiro passo, algo me deteve. Observei melhor, e notei que a coisa havia estacionado a cerca de um metro da barraca. Estava com a cabeça abaixada, emitindo aqueles sons amedrontadores, e então fui perceber o insólito: o inominável ser estava parado diante do espiral, olhando fixamente a ponta acesa em brasa. Fiquei prestando atenção, temendo que voltasse a se mover na direção de minha filha. Por mais de um minuto - que esperei imóvel, com todos os músculos tensos – a criatura ficou parada, olhando o espiral queimar. Parecia que nunca tinha visto algo parecido, e percebi que estava admirando a pequena brasa alaranjada que percorria lentamente a extensão do espiral.
Imaginei que a criatura, fosse o que fosse, estava fascinada, achando aquilo bonito, assim como Claudia. Segundos foram passando, ou talvez minutos, e não parecia haver nada que a tirasse daquela posição. Eu já havia afrouxado a pedra no meu punho, um pouco mais tranquilo, quando ouvi no meio da mata um som realmente assustador, muito mais alto que o daquela criatura. Ao mesmo tempo, a coisa alarmou-se, levantou a cabeça e correu rumo ao rugido. Antes de entrar no matagal, ainda parou, deu mais uma olhada em direção à brasa do espiral e soltou um pequeno mugido. Tive a estranha sensação de que era um sorriso. E então correu para longe, desaparecendo na escuridão.
Antes de qualquer coisa, corri para dentro da barraca e vi minha filha ainda adormecida, sonhando, sem a menor ideia do que eu tinha presenciado. Deitei-me ao seu lado e a abracei, agradecendo por ela estar bem.
Quando recordo disso tudo, nem eu mesmo compreendo o que houve. Às vezes até duvido do que vi. Não sei que animal era aquele, mas hoje tenho a certeza de que era só um filhote, e que voltou correndo para sua mãe, ou pai, assim que ouviu o chamado.
Na manhã seguinte, tão cedo que algumas estrelas ainda permaneciam no céu, Claudia saiu da barraca descansada e feliz. Sentiu o aroma do café tropeiro que eu já preparava, e conseguiu ver uma última fumaça saindo do centro do espiral de cinzas. “Eu adoro acampar com você, papai!”.

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