terça-feira, fevereiro 20, 2024

O Defumador (L.F.Riesemberg)

 


Às sextas-feiras era o dia de defumar a casa. Não sei de onde surgiu tal costume, mas minha mãe sempre tinha três caixas de diferentes defumadores em tabletes, e religiosamente, uma vez por semana, cumpria o ritual, tendo a mim como ajudante. Primeiro pegávamos os tabletes, que eram de diferentes colorações - um verde, outro amarelo, outro vermelho - e atendiam por nobres nomes como Hei de Vencer, Abre Caminho e Anjo da Guarda.

Em seguida os acendíamos, com certa dificuldade, sempre gastando vários palitos de fósforo no processo. Somente após a ponta acender com uma chama, a qual rapidamente apagávamos com um leve sopro, é que a fumaça começava a esvoaçar e dávamos início à peregrinação doméstica. Mamãe na frente, de chinelos de dedo e lenço amarrado na cabeça, segurando o pires com os três defumadores equilibrados esfumaçando, e eu atrás, a seguindo. Íamos orando mentalmente, pedindo aos bons espíritos que limpassem o ambiente e que todo o mal se afastasse do nosso lar.

Começávamos pela sala, fumegando cada canto, inclusive atrás do sofá, pois poderia haver ali algum espírito escondido. Mas aonde quer que a fumaça branca chegasse, varreria todo o mal invisível que lá se ocultasse. Então íamos aos quartos, os preenchendo com o odor adocicado de ervas e serragem. Nenhum cômodo era esquecido, nem mesmo a despensa, a churrasqueira, a garagem. Por fim, dávamos a volta na casa, sempre em silêncio, desejando a proteção dos anjos da guarda, e deixávamos os tocos dos defumadores terminando de queimar em um canto meio escondido na área externa, ao chão, para papai não ver quando chegasse do trabalho. Não que ele proibisse nosso ritual, mas ele não acreditava.

Passados muitos anos, relembro nossas defumações e percebo que, só depois que cresci e interrompemos aquele costume, é que as coisas tristes começaram a acontecer. A razão diria que uma coisa não tem nada a ver com a outra, e que quando crescemos o normal é que a vida pare de ser cor-de-rosa como na infância, e que deixemos de crer nas fantasias de então.

Mesmo assim, debaixo dos meus cabelos grisalhos, dou uma olhada ao redor, sentindo o turbilhão em que se transformou o lar formado, e desejo que as coisas possam voltar à simplicidade dos tempos de criança. Que bom seria acender um defumador e espantar todos os maus espíritos que causam tamanha infelicidade, afugentar os monstros que ainda assombram, mais assustadores do que nunca. Mais que isso, que bom seria percorrer os cômodos desta casa atraindo a proteção de guias, a bênção de anjos, a alegria de seres iluminados.

Sozinho, desolado com os males que frequentemente se abatem sob este teto, retiro da sacola sobre a mesa as três caixas retangulares da loja de produtos religiosos, e observo as embalagens idênticas às da minha infância. Acendo os três tabletes, com a mesma dificuldade de antes, quase queimando a ponta dos dedos, e após um sopro desajeitado vejo a fumaça branca tomar conta, adocicando o ar ao redor com seu conhecido perfume de serragem, alecrim e alfazema.

Percorro os cômodos da casa com a fé de que aquela fumaça espantará cada espírito que causa meus dissabores, e que tudo o que sempre desejei chegará rapidamente até mim. Espalho a doce emanação por trás de cada objeto, dentro de todo armário, até mesmo pelo boxe do banheiro, fazendo minha prece mental, agradecendo por, apesar de tudo o que houve nas últimas décadas, eu ainda estar por aqui, sobrevivendo, com a coragem para tomar rumos desconhecidos.

Naquele dia eu não sabia, mas estava cercado por uma legião de bons espíritos, que conforme eu andava pelos cômodos iam me enchendo de ânimo para não desistir. E o mais iluminado deles, de chinelos de dedo e lenço na cabeça, caminhava à minha frente, me inspirando, me abençoando, me guiando. “Tenha paciência, filho, que teus caminhos estão se abrindo outra vez”.

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