sexta-feira, julho 10, 2020

A Tempestade (L.F.Riesemberg)



De repente o dia virou noite e o vento começou a assobiar pelas janelas. Os primeiros pingos anunciavam que a chuva seria forte. Logo a cidade desapareceu entre as rajadas de água e vapor que vinham de todas as direções. O canal sob a ponte não foi o suficiente para conter o volume do córrego, e as águas subiram até as ruas.

Foi uma chuva rápida, mas destruidora. Os jornais do dia seguinte chamariam aquele fenômeno de ciclone, e muitas famílias sofreriam com as perdas. No sábado o clima ainda era de preocupação geral e contabilização dos prejuízos, mas Gabriel aproveitou o momento para se aventurar.

Calçou as galochas e foi dar uma volta pela rua, para observar os estragos. Havia árvores caídas, carros da companhia de luz correndo, móveis estragados nas calçadas e ruas sujas de lama. O menino caminhou até a ponte, para ver como estava o nível da água, e ao chegar o que mais lhe chamou a atenção não foi o volume, mas a fúria com que o córrego se deslocava. Parecia que haviam aberto a represa, tamanha a velocidade com que as águas fluíam.

Gabriel ficou admirando a correnteza e os eventuais objetos que ocasionalmente surgiam boiando e viajando por ela. Galhos, folhas secas e pedaços de madeira eram os mais comuns, mas também viu um colchão e uma velha boneca navegando rio abaixo. Resolveu descer o mais que pôde até a margem do córrego para ver de perto aqueles estranhos passageiros, torcendo para aparecer algo interessante. Mais tarde ele entenderia esta ação como inspirada por alguma força superior.

Após alguns minutos observando o curso das águas, reparou em algo preso num dos pilares da ponte. Parecia uma caixa de madeira. Gabriel pegou um galho comprido que estava caído próximo aos seus pés e o esticou até o objeto. Com alguns movimentos ele se desprendeu e entrou no fluxo do córrego. “Não, não! Venha pra cá!”, implorou o menino, puxando com a ponta do galho, até que conseguiu trazê-lo para a margem.

“Ora, ora, o que temos aqui?’, pensou o garoto, observando o que havia pescado. “De onde veio isso?”.

Era um pequeno baú, muito velho, que parecia uma arca do tesouro de um filme de piratas. Estava coberto de lama e lodo, exalando um odor forte e pútrido. Gabriel olhou ao redor, para ver se não estava sendo observado. Uma espécie de piche selava a tampa, que com um pouco de esforço abriu-se totalmente. Lá dentro havia mais lama, porém algo reluziu no meio dela. O garoto utilizou um pedaço de pau para resgatar o que quer que fosse aquilo, e estranhou o formato cilíndrico daquela descoberta.

Com todo o cuidado, lavou o objeto na margem rasa do córrego, e ficou maravilhado. Era algo que nunca havia visto antes, nem em livros: um tubo de metal, com cerca de trinta centímetros de comprimento por dez de diâmetro. Ao lado havia algumas inscrições em japonês.

“O que é isso?”, pensou, em êxtase. Havia feito um achado! Saiu para explorar e acabou ganhando um presente. “Mãe, veja o que eu encontrei no riozinho!”, anunciou ao chegar em casa. Ela não disfarçou o contentamento ao ver o filho feliz. “Que sorte a sua, Gabriel!”, disse ela, mais tarde. “Agora telefone para algum amigo e o chame aqui para vocês descobrirem para que isso serve”, falou, esperançosa.

Mas Gabriel não tinha amigos. Ao menos, não amigos comuns. A tempestade é que fora sua amiga, trazendo-lhe aquele presente raro e inusitado, que mudaria sua vida para sempre.    


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