Friday, August 22, 2014

A Despedida (L.F.Riesemberg)



Patrick e Penelope se abraçavam no setor de embarque. Queriam continuar juntos, mas teriam que se separar. Dentro de alguns minutos, às 5:30 h, ela pegaria um avião para morar dois anos no exterior, e ele sabia que o relacionamento não duraria tanto tempo à distância. “Vem comigo”, ela disse. “Não posso”, ele respondeu, com lágrimas pelo rosto. Pra Patrick, era muito arriscado deixar tudo o que havia conquistado para acompanhá-la em uma aventura incerta como aquela. Por outro lado, aquele era o sonho de Penelope, e ela não queria perder a oportunidade.
O último minuto foi o mais doloroso. Decidiram não dar um beijo a mais, pois seus corpos poderiam ficar colados e doeria ainda mais para desgrudarem. Ouviram a última chamada para o voo e, com dor no coração, cada um caminhou para uma direção: ela para a aeronave, ele para um banheiro do aeroporto.
Patrick estava tão desolado, pensando no avião que levava o seu amor, que nem notou estar dando a descarga há mais de dez segundos. Viu aquela quantidade imensa de água descendo pela louça branca, e ficou ainda mais deprimido por associar a imagem ao seu relacionamento indo embora daquele jeito. Na parede à sua frente, alguém tinha desenhado um coração com asas. Ele fechou os olhos e deu um soco no desenho, saindo de lá em seguida.
Foi caminhando pelo aeroporto e passou pelo exato ponto onde despediu-se de Penelope. Não ia olhar naquela direção, mas viu com o canto dos olhos que lá estava em pé uma moça muito parecida com ela, usando até roupas iguais. Aproximou-se e não pôde acreditar. Era ela. Havia desistido da viagem! “Meu amor, você fez isso mesmo?”. Penelope mantinha o olhar entristecido, mas pareceu não entender o que Patrick havia dito. “Como assim, amor?”, perguntou, um pouco preocupada, e foi logo se entregando aos braços dele. “Venha, me abrace, está quase na hora da partida”.
O rapaz estranhou suas palavras e olhou o relógio. Ainda eram 5:20 h, e ele se perguntou como é que o ponteiro tinha voltado, ao invés de ir para frente.
“Você está bem?”, disse ela. Ele não entendia como havia acontecido, mas tinha retornado dez minutos no tempo. Estava revivendo a despedida do seu amor.
“Vem comigo”, ela disse. Patrick, lembrando de tudo o que possuía – amigos, família, trabalho – ainda não tinha como atendê-la. Queria, isto sim, aproveitar aquela nova oportunidade para fazê-la ficar. “Não posso, Penelope, mas fique! Não me deixe. Vamos ser felizes aqui, eu prometo!”.
Ela olhou entristecida, sabendo que não poderia, apesar do sincero pedido do namorado. Ele a compreendia, mas não queria perdê-la. Continuaram ali, em pé, em meio às pessoas que passavam por eles, esperando silenciosamente o anúncio final do embarque.
“Eu não quero dizer adeus”, ele disse. E ela, engolindo o choro, respondeu, com um sorriso triste: “Então não diga”, e soltou-se, sem desgrudar-lhe os olhos até o último momento.
Patrick a viu desaparecer pelo corredor, e correu até o mesmo banheiro. Havia descoberto uma espécie de falha temporal, ou um erro qualquer do universo, e estava disposto a tentar o truque novamente. Repetiu tudo o que havia feito: segurou a descarga, olhou o desenho do coração na parede e deu um soco nele. Saiu do banheiro, correu até o ponto de despedida e ela ainda estava lá, com aquele mesmo olhar.
Era sua terceira chance. Não dava para desperdiçar mais uma vez. Ele chegou até a amada, apertou suas mãos e disse: “Tudo bem, eu vou com você!”. Penelope ficou assustada com a fala imprevisível do namorado, sorriu e gaguejou, tentando achar o que falar: “Isso é sério? Nossa, amor, que bom!”. Ele imaginava que ela ficaria mais feliz com a decisão, e a interrogou: “O que foi? Não quer que eu vá?”. E ela: “É claro que quero, mas como você vai fazer? Não tem passagem, nem bagagem...”. E ele: “Pois então não vá. Hoje não! Vamos outro dia, os dois juntos”. Ela ficou confusa, olhando o relógio e vendo os últimos passageiros do seu voo passarem por ela. “Desculpe, amor, mas não posso fazer isso. Vai mudar todos os meus planos. Você tinha que ter decidido isso antes”.
Patrick, desapontado, afrouxou suas mãos das dela, ferido. Havia acreditado que ela ficaria para ir com ele mais tarde. “Desculpe, amor”, ela disse, dando-lhe um último beijo e correndo para o avião.
O rapaz voltou ao banheiro. Deu descarga, olhou o coração desenhado, socou a parede. Novamente diante dela, foi direto ao ponto: “Eu te amo, e não quero que você vá. Fique comigo, Penelope!”. Mais uma vez, durante aqueles dez minutos, ela não mudou de ideia. Patrick foi mais longe: “Você sabe que, se entrar nesse avião, nós nunca mais nos veremos. Você vai conhecer outra pessoa, e se esquecer de mim”. E Penelope, chorando: “Não diga isso!”. Ela também sabia que aquilo era, provavelmente, um adeus. Mas achava que era ele quem iria desistir primeiro, entregando-se a outra pessoa. “Deixe a vida seguir seu fluxo, querido. Aquilo que tiver que ser, um dia será”, e foi para o avião.
Patrick repetiu mais uma vez o processo: banheiro, descarga, desenho, soco. E logo estava mais uma vez diante dela. Sempre que a reencontrava naquele ponto do aeroporto, parada em pé o esperando, ele sentia que tinha que detê-la, mas ao mesmo tempo se compadecia por ela, que não podia ficar, por mais que o amasse. Patrick então decidiu parar de implorar. Deixou que seus olhos dissessem tudo. Ficaram só abraçados em silêncio, sentindo o coração do outro batendo próximo ao seu, enquanto esgotavam-se os últimos minutos de seu tempo juntos. Quando chegou a hora de separarem-se, ele disse adeus. Ela respondeu: “A Deus...”. E foi embora.
Patrick estava exausto emocionalmente. Cada uma daquelas despedidas lhe devorava um pedaço do coração. Ele voltou ao banheiro, ficou olhando a descarga, o desenho, a parede... mas decidiu apenas sair dali. Caminhou uma última vez em direção ao local das despedidas, e Penelope já não estava mais lá. Na pista, o avião fazia as primeiras manobras para a decolagem. “É, agora vamos ver o que o destino nos reservou...”, pensou melancólico, concluindo que, se havia ocorrido aquela coisa tão fantástica com o tempo dentro de um banheiro de aeroporto, o vasto mundo à sua volta ainda poderia lhe trazer coisas muito mais inacreditáveis e especiais.        

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