Sunday, March 30, 2014

Dr. Rock (L.F.Riesemberg)


Max entrou na loja com o dinheiro que ganhou de aniversário de dez anos, em 1990, e foi escolher um disco novo. Muito feliz, foi olhando capa por capa, até se deparar com Greatest Hits, do Queen. Já segurava, na outra mão, O Melhor Internacional de Novelas, que tinha algumas canções legais, como viu no comercial da TV.
-Estou em dúvida - disse ao vendedor.
O homem, de barba e cabelos compridos, olhou as duas capas e disse logo:
-O do Queen. Leve este.
E Max saiu de lá com o disco debaixo do braço. Chegando em casa, não se arrependeu da escolha ao ouvir a primeira faixa. E adorou o som da segunda. E de todas as canções dos dois lados daquele disco incrível.
Comprar um disco naquele lugar, todos os anos, com o dinheiro do aniversário, tornaria-se tradição. Em 1991, saiu de lá com Nevermind, do Nirvana. O vendedor embolsou o dinheiro em silêncio, desta vez sem precisar ajudar o garoto a escolher. Aquele disco, com o bebê nadando na capa, seria ouvido à exaustão por longos meses.
Em 1992, Max voltou à loja de cabelos longos, usando calças jeans rasgadas, camisa de flanela xadrez e com olhos distantes, como se estivesse depressivo. O dono da loja tentou animá-lo.
-Feliz aniversário, menino. Qual vai ser o de hoje?
O menino já estava segurando um do Soundgarden, mas o vendedor lhe mostrou Rocket to Russia, do Ramones.
-Por que não leva este aqui? É punk rock.
Max lembrou-se do aniversário de 1990, quando comprou seu primeiro disco de rock, e havia sido uma boa sugestão do vendedor. Assim, resolveu aceitar aquela nova proposta.
Em 1993, entrou na loja com o cabelo espetado e botons presos na jaqueta de couro. Parecia bem mais feliz que no ano anterior.
-E então, Max. Já sabe o que quer hoje?
-Não sei, tio – disse, timidamente. –Queria alguma coisa pesada, mas não tanto, entende? E que tivesse umas músicas mais lentas também. Acho que estou ficando velho.
Sem pensar muito, o vendedor tirou de trás do balcão o Fear of the Dark, do Iron Maiden.
-Ah, tio, você tem esse em cd? É que compramos um aparelho novo...
Sim, ele tinha em cd. Aliás, os discos de vinil já estavam com os dias contados.
Em 1994, aniversário de quatorze anos de Max, e ele queria Pink Floyd. Havia assistido ao filme The Wall e não conseguia parar de cantar aquelas músicas.
Em 1995 foi a vez de Metallica, o álbum preto. Em 96, The Doors. 97, Led Zepellin.
Foi assim até 2001, quando completou vinte e uma primaveras. Era hábito ir, sempre no dia do aniversário, comprar um álbum de rock. Só via o vendedor uma vez por ano, mas a cada disco novo acontecia uma revolução na vida de Max. Diferentes cartazes no quarto, um novo corte de cabelo, um jeito diferente de pensar. A cada álbum, uma mudança profunda. Mas naquele ano, Max não quis ir à loja. Já tinha todos os discos possíveis em seu computador, e achou que seria perda de tempo e de dinheiro. Acabou-se a tradição. Em seu quarto, tinha acesso a mais de vinte mil músicas, sem ter pago um centavo por elas. Foi naquele mesmo ano que a loja de discos fechou e instalaram uma lan house no lugar.
Max passa dirigindo seu carro, lembra de quando entrou lá pela primeira vez, e pergunta a si mesmo por onde andará o vendedor. Aperta um botão no som do automóvel e começa a tocar uma música. Max não gosta do que ouve, e aperta novamente. Ouve cinco segundos, não gosta, e passa para a próxima. Nenhuma música daquelas tinha graça. E assim vai passando para a próxima, e a próxima, e a próxima...


1 comment:

  1. Muito interessante... Uma pena que a evolução está tirando de muitos o mistério e a imaginação. São poucos que fazem questão de resgatar esse imaginário que existia antes dessa tecnologia toda. Espero que essa arte não acabe. :) ameninaeacanetarj.blogspot.com

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