Friday, June 07, 2013

O Homenzinho (L.F.Riesemberg)


Dos brinquedos da minha infância, meus favoritos eram os homenzinhos. Eu os chamava assim, pois não eram simples soldadinhos de plástico que mexiam os braços e pernas: eles tinham feições humanas, ainda que fosse preciso olhar bem de perto para notá-las. E eles eram carregados de detalhes, tanto nas roupas como nos acessórios, que incluíam pequenos capacetes, mochilas e armas. Fui os comprando ou ganhando de presente aos poucos, até formar um exército em miniatura.
            Brinquei muito com eles, dentro e fora de casa. Gostava de levá-los para o banho e, debaixo da ducha, eles se aventuravam em uma cachoeira. A pia do banheiro se transformava em um lago. O piso, numa rodovia. Do lado de fora de casa, o gramado era uma floresta; o gato e o cachorro, monstros furiosos; o quintal, um planeta a se explorar. Os bonecos faziam tudo à minha volta parecer maior e mais perigoso.
            Além dos soldados, passei também a me interessar por figuras de coleções diferentes, como super-herois, principalmente depois que assisti ao filme do Batman.
            Toda vez que eu ia com dinheiro na loja, após receber a mesada, torcia para que lá tivesse algum interessante. Eu gostava particularmente dos vilões, e fiquei encantado quando consegui o Coringa.
            Baseado na versão daquela série dos anos 60, o insano arqui-inimigo do Batman vinha com um terno roxo e usava como arma uma marreta verde.
O brinquedo ainda acompanhava uma pequena revista em quadrinhos que explicava a origem do personagem. Segundo aquela versão, o Coringa era um criminoso que, durante uma fuga, acabou caindo na piscina de produtos químicos de uma fábrica, e saiu de lá com aquela conhecida cara de palhaço louco.
            No cinema a história foi um pouco mais realista, mostrando que ele ficou com o rosto desfigurado e, para esconder as cicatrizes, passou a se maquiar como palhaço – o que era bem mais interessante.
Com todos esses detalhes, que incluíam a boca vermelha sempre aberta em um sorriso malvado, e o cabelo verde, o Coringa passou a me fazer grande companhia, onde quer que eu fosse. E isso significava que ele ficava em cima da mesa durante o jantar e dormia sobre meu travesseiro.
            Apesar de gostar muito dos meus brinquedos, eu nunca os poupei dos riscos. Eles realmente eram usados para brincar – não para colecionar. E até mesmo o Coringa encarava os banhos de lama, as quedas, os congelamentos no freezer e outras experiências.
            Com o tempo, de tanto participar destas aventuras, seu estado já não era dos melhores. Notei que a tinta do seu rosto estava desbotando cada vez mais. A boca já não era rosada, e uma das sobrancelhas havia desaparecido.
Foi quando resolvi levá-lo para uma recauchutagem no paiol do meu pai.
            Aquele era um dos cômodos mais interessantes da casa. Escuro, empoeirado, cheio de pregos e instrumentos cortantes. No armário, uma coleção de sacos com veneno para formiga e latas de líquidos inflamáveis. Era ali, sobre uma mesa, que eu praticava experimentos científicos e construía minhas invenções.
            Para dar um jeito no rosto do Coringa, bastaria usar um pincel pequeno e algumas tintas. O ato era solene, pois seria como realizar uma plástica no boneco, então ele chegou de helicóptero e foi colocado sobre a mesa cirúrgica.
            Foi com muita confiança que mergulhei o pincel na tinta a óleo preta e, pouco sutilmente, retoquei sua face. Mas, com minhas fracas habilidades para a tarefa, ao invés de fazer ressurgir o negro traço da sobrancelha, eu simplesmente a transformei em um borrão. Levei um susto, mas mantive a calma, pois havia formas de se contornar aquele erro médico.
            Talvez fosse mais fácil começar pela boca, então passei a tinta vermelha nos lábios do boneco, para ele recuperar seu sorriso diabólico. E, infelizmente, ao primeiro toque, a pincelada transformou metade do seu rosto em uma mancha com cor de sangue.
            Fazer aquela operação revelava-se mais difícil do que o esperado, e era preciso terminar o serviço, senão a tinta ia começar a secar. Desolado ao ver como o boneco estava ficando horroroso, percebi que teria sido muito melhor tê-lo deixado como estava, com todos os seus sinais de desgaste.
            Corri os olhos ao redor do paiol para achar alguma solução. Entre os produtos que meu pai mantinha ali havia um que sempre era muito útil. Certa vez fiquei com as mãos sujas de tinta, e não adiantava lavar nem esfregar para limpá-las. Eu já estava chorando, imaginando que ficaria com as mãos manchadas de branco para sempre, além da surra que eu ia levar, quando meu pai apareceu e me deu algumas gotinhas de thiner para lavá-las. Era um líquido com cheiro forte de gasolina que, num passe de mágica, lavou completamente a tinta das minhas mãos e elas voltaram ao normal.
            Assim, quando vi o desastre que eu estava cometendo no rosto do boneco, fui logo pegar o frasco daquele líquido salvador e derramei um pouco naquela sujeira.
            Como era esperado, a camada de tinta que eu havia aplicado começou a evaporar, mas a face continuava manchada. Resolvi despejar mais um pouco, para um melhor efeito, e para minha infelicidade a abertura da lata me traiu, fazendo cair uma quantidade muito acima do desejado. O solvente era tão forte que começou a agredir a pintura original, e em poucos segundos a cabeça inteira estava sendo corroída pelo ácido.
            Gritando em desespero, corri com o boneco até a pia mais próxima e o coloquei debaixo da água corrente. Mesmo com esse cuidado, já estava claro que eu havia barbarizado o meu companheiro de forma irreversível. Ele perdera seu rosto - e aquela era a vida real. Desta vez ele não se transformaria em um novo vilão, e sim em plástico derretido.
            Com um grande aperto na garganta, comecei a chorar, porque eu havia matado o homenzinho. Minhas lágrimas escorriam assim como a tinta do seu rosto, que o transformava em um boneco sem olhos, sem boca e sem cabelo: tudo nele passou a ser apenas branco, como a cabeça de um manequim de vitrine. Já não era mais o meu Coringa.
            Outras partes do corpo também foram atingidas, de modo que não havia mais solução. Ele havia morrido para sempre.
            Envergonhado, não tive coragem de pedir ajuda ou de contar aquilo a alguém. Só fiquei lá, pensando no triste fim do meu bonequinho, morto sobre a mesa de cirurgia suja de tinta vermelha.
            Sem mais o que fazer para ressuscitá-lo, tive que me conformar com a perda. Mas ele não poderia simplesmente parar numa lixeira. Era preciso fazer uma justa homenagem ao meu amigo, em nome de todas as aventuras que havíamos passado juntos naquele reino. Todos deveriam fazer uma última despedida ao respeitável companheiro.
            Assim, com o uso de um serrote, ripas de madeira, pregos e um martelo, construí um improvisado caixãozinho, que durante aquela tarde ficou no centro do meu quarto com o corpo do boneco. Recebeu a última despedida de todos os meus outros bonequinhos. Até o Batman foi velar o corpo do seu ex-inimigo. E, antes do pôr do sol, foi realizado o seu enterro no jardim, com direito a uma cruz para marcar o local e flores em volta dela.
            Apesar de tudo aquilo estar sendo mais uma brincadeira para mim, saí triste de verdade de lá, por pensar que não poderia mais brincar com o boneco e que teria que escolher outro para ser o meu favorito. Mas nenhum seria como aquele. E não bastaria comprar outro Coringa, pois só aquele tinha uma história comigo, depois de vivermos tantas coisas juntos.
            Naquela noite não dormi muito bem, pois sonhei que o boneco estava são e salvo, com o rosto novinho em folha, e ao acordar a decepção da realidade bateu fundo, pois a verdade era que ele estava debaixo da terra, sem rosto, e isso me fez chorar mais um pouco, no meio da madrugada.
            E foi assim que, no dia seguinte, eu levantei: sem motivação para mexer na caixa de brinquedos debaixo da cama, para procurar outro homenzinho que o substituísse.
            Sei que muitas crianças precisam aprender a lidar desde cedo com a morte, seja a de um animal de estimação ou de algum familiar, mas no meu caso foi a perda irreparável de um boneco que me fez entender que nada dura para sempre.
            E foi pensando nessas coisas da vida, olhando para o local de descanso do meu companheiro, e para a cruz que eu havia enfiado na terra, que comecei a imaginar uma história a respeito da volta do palhaço louco. Poderia ter caído uma tempestade durante a noite, e um raio atingido a cruz. A descarga elétrica teria chegado lá no fundo da terra e eletrizado o caixão, de modo que o boneco tinha voltado à vida! Ele estaria se mexendo lá dentro da terra, louco para ver a luz do sol novamente. Teria que conviver com o fato de não ter mais um rosto, mas o que era isso para quem foi dado como morto?
            Sem esperar mais, corri até o paiol pegar a pá de jardim e cavei novamente o chão, para desenterrar meu amigo. Tirei da terra o pequeno caixão e o abri, desesperado para vê-lo novamente, ainda que não da maneira como recordava dele. E, assim que tirei a tampa, tomei um grande susto.
            O Coringa estava lá, deitado como eu o havia deixado, porém, estava diferente. Seu rosto estava radiante, com os olhos abertos e a boca aberta em um grande sorriso. O cabelo verde estava intacto, as sobrancelhas arqueadas como nunca, e todos os detalhes do seu terno roxo, intactos.
            Examinei muito atentamente para ver se aquele era realmente o meu boneco, mas não havia dúvidas: apesar de parecer novo em folha, ele ainda tinha algumas das inconfundíveis imperfeições que o tornavam o “meu” Coringa, as quais eu conhecia muito bem. Somente os ferimentos causados pelo acidente com o ácido do dia anterior é que haviam sido restaurados pela pintura de mãos muito mais destras que as minhas.
            Não acreditei no que estava me acontecendo, e me belisquei para saber se não estava sonhando ainda. Quem poderia ter feito aquilo? Será que, ao fazer aquele caixão, eu havia criado uma caixa mágica que recuperava o que nela fosse depositado? Ou seria a terra do jardim que era especial? Ou então, poderia alguém ter feito aquilo por mim, sem que eu soubesse? Talvez minha irmã ou algum dos meus pais? Eles deviam saber que eu não resistiria e abriria novamente a cova para dar outra olhada no boneco, e poderiam ter preparado uma surpresa.
            Este foi um dos primeiros mistérios que vivi, e por mais que pareça banal diante de outros episódios que me aconteceram, a inesperada ressurreição do homenzinho foi um dos mais marcantes, por me fazer começar a acreditar que havia muito mais coisas na vida do que eu havia imaginado até então.
            O Coringa, recuperado, ainda participou de muitas aventuras ao meu lado durante a minha infância, mas não voltou a ser destruído como naquele dia. Mantive-o a salvo por muitos anos, e agora o estou depositando dentro da caixa com minhas outras memórias.

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