Sunday, May 26, 2013

Os Destruidores (Graham Greene)




(Tradução para o Português do conto "The Destructors", de Graham Greene, que é citado em Donnie Darko). 

Foi em Agosto, na véspera do feriado, que o mais recente recruta tornou-se o líder da gangue Wormsley. Ninguém ficou surpreso, exceto Mike. Mas Mike, com a idade de nove anos, ficava surpreendido com tudo.
O novo recruta tinha estado com a turma desde o início das férias de verão, e todos reconheciam as qualidades do seu silêncio natural. Ele nunca desperdiçava uma palavra sequer, nem mesmo para dizer seu nome, a menos que isso fosse exigido pelas regras. Quando ele disse "Trevor", aquilo era uma declaração do fato, e não de vergonha ou desafio, como teria sido com os outros.
A turma se reunia todas as manhãs em um estacionamento improvisado - o local da última bomba do primeiro bombardeio. O líder, que era conhecido como Blackie, afirmou tê-la ouvido cair, e ninguém foi preciso o suficiente em suas contas para notar que, naquela época, ele estaria então com um ano de idade e dormindo na plataforma abaixo da estação de metrô de Wormsley. De um lado do estacionamento estava a primeira casa que não foi destruída pelas bombas e depois ocupada, a de número 3.
T, cujas palavras quase se resumiam a votar “Sim” ou “Não” sobre o plano de operações proposto a cada dia por Blackie, assustou toda a turma dizendo, pensativo:
-Wren construiu a casa, meu pai disse.
-Quem é Wren?
-O homem que construiu a catedral de São Paulo.
-Quem se importa?- Blackie disse -É apenas a casa do Velho Tormento.
Velho Tormento - cujo nome verdadeiro era Thomas - tinha sido um construtor e decorador. Agora ele morava sozinho na casa abandonada.
-Já fui no banheiro - um dos meninos disse, pois todos sabiam que, desde que as bombas caíram, algo estava errado com os canos da casa e que o Velho Tormento era pão-duro demais para gastar dinheiro na propriedade. O banheiro era um galpão de madeira no fundo do quintal estreito, com um buraco em forma de estrela na porta.
No dia seguinte, T estava atrasado para o encontro, e a votação para a exploração desse dia ocorreu sem ele. Por sugestão de Blackie a quadrilha se dividiria em pares, tomaria ônibus aleatoriamente e veria quantas viagens gratuitas poderiam ser arrancadas dos motoristas incautos (a operação tinha que ser realizada em pares para evitar mentiras). Eles estavam sorteando as duplas quando T chegou.
-Onde você estava, T? - perguntou Blackie.
-Eu fui lá - disse T.
-
Onde?
-No Velho Tormento.
-No Velho Tormento? - Blackie perguntou.
Ele tinha uma sensação de que T estava pisando em terreno perigoso. e perguntou, esperançosamente:
-Você arrombou a casa?
-Não. Toquei a campainha.
-E o que foi que ele fez?
-Mostrou-me o lugar.
-Você pegou alguma coisa?
-Não.
-Por que é que você fez isso, então?
T disse:
-É uma bela casa.
-O que você quer dizer com é uma bela casa? - perguntou Blackie com desprezo. Ele não estava com ciúmes, e sim ansioso para reter T na gangue, se pudesse. Foi a palavra "bela" que o deixou preocupado - que pertencia a um mundo de classe.
-Se tivesse arrombado - disse ele tristemente – teria sido uma façanha digna da gangue.
-Foi melhor que isso - disse T –Eu descobri coisas!
-Que coisas?
-O Velho Tormento vai ficar fora o dia todo amanhã e no feriado.
Blackie falou com alívio:
-Você quer dizer que podemos invadir?
-E pegar coisas? - perguntou alguém.
-Eu não quero pegar nada - T disse. - Eu tenho uma ideia melhor.
-Qual?
T levantou os olhos:
-Nós vamos derrubá-la. Vamos destruí-la.
Blackie deu uma gargalhada.
-O que a polícia vai estar fazendo durante isso? - perguntou.
-Eles nunca saberiam. Faremos isso por dentro. Eu encontrei uma maneira de entrar. Seremos como vermes em uma maçã: não dá para vê-los enquanto a devoram. Quando sairmos novamente, não haverá nada lá - apenas as paredes, e então nós as derrubamos de alguma forma.
Blackie, inquieto disse:
-Está proposto que amanhã e segunda-feira vamos destruir a antiga casa do Velho Tormento. Quem é a favor?
-Como é que vamos começar? - perguntou Summers.
-Ele vai te dizer - disse Blackie. Era o fim de sua liderança na gangue. Ele foi para a parte de trás do estacionamento e começou a chutar uma pedra de um lado para outro. Ele pensou em voltar para casa, de nunca retornar, de deixá-los todos descobrirem o vazio da liderança de T, mas concluiu que a proposta de T era possível - a fama da gangue do estacionamento de Wormsley certamente percorreria Londres inteira. Haveria manchetes nos jornais.
T estava dando suas ordens com muita ênfase. Era como se este plano tivesse estado com ele sua vida toda.
No domingo de manhã todos foram pontuais, exceto Blackie. Ele pulou o muro do jardim do Tormento e não havia sinal de ninguém em lugar nenhum. O banheiro jazia como um túmulo de um cemitério abandonado. As cortinas estavam fechadas. Eles abriram a porta dos fundos para ele entrar. Ele teve imediatamente uma impressão de organização, muito diferente da sua maneira livre de liderar. Por um tempo, ele subiu e desceu as escadas à procura de T. Ninguém se dirigiu a ele.
O interior da casa estava sendo demolido cuidadosamente, sem que se tocasse nas paredes externas.
-Você realmente conseguiu - Blackie disse, com admiração. - O que vai acontecer?
-Nós apenas começamos - disse T.
A cozinha estava uma bagunça de cacos de vidro e porcelana. A sala de jantar estava com o piso arrancado, as torneiras estavam abertas, a porta tinha sido tirada de suas dobradiças e os destruidores tinham acabado com um andar.
-Você encontrou alguma coisa especial? - perguntou Blackie.
T fez que sim com a cabeça.
-Venha até aqui e olhe – disse. – Tirou de dentro dos seus dois bolsos maços de notas de uma libra.
- As economias do Velho Tormento - disse.
-O que você vai fazer? Dividir com todos?
-Nós não somos ladrões - disse T – Ninguém vai roubar nada desta casa. Eu deixei isto para você e para mim - uma celebração.
Na manhã seguinte, a destruição começou a sério.
-Temos que nos apressar - disse T - Há todos os andares restantes e as escadas. Nós não tiramos uma única janela. Você votou como os outros. Nós vamos destruir esta casa e não haverá mais nada quando estiver terminado.
Foi então que ouviu o assobio do Mike na parte de trás.
- Alguma coisa está errada - Blackie disse.
- O Velho Tormento - disse Mike. - Ele está chegando!
-Mas por quê? Ele me disse... - T protestou com a fúria da criança que nunca foi.
 -Não é justo!
 T ficou de costas para o entulho como um boxeador abatido contra as cordas do ringue. Ele não tinha palavras enquanto seus sonhos eram destruídos. Então Blackie agiu rápido.
-Diga para Mike sair do banheiro e se esconder do lado. Quando ele me ouvir assobiar ele tem que contar até dez e começa a gritar.
-Gritar o quê?
-“Oh, Socorro!”, qualquer coisa.
-Você ouviu, Mike - Blackie disse.
Ele era o líder novamente.
-Rápido, Mike. O banheiro. Fique aqui, Blackie, todos vocês, até que eu grite.
-Onde você está indo, T?
-Não se preocupe, eu vou resolver isso, eu disse que eu o faria, não é?
O Velho Tormento veio mancando mais que o comum. Ele tinha lama em seus sapatos e parou para raspá-los na beira da calçada. Não queria sujar a casa. Em algum lugar alguém assobiou. O velho olhou atentamente ao redor. Ele não confiava em assobios.
Um menino veio correndo do estacionamento para a rua.
-Senhor Thomas! - ele o chamou de “Senhor Thomas”.
-O que foi?
-Sinto muito, senhor Thomas. Um de nós entrou, nós pensamos que você não se importaria, e agora ele não pode sair.
-O que você quer dizer, menino?
-Ele ficou preso em seu banheiro.
-Ele não tinha que se meter aqui... já não te vi antes?
-Você me mostrou a sua casa.
-E daí? E daí se mostrei? Isso não lhe dá o direito de...
-Rápido, senhor Thomas. Ele vai sufocar.
Alguém gritou novamente na escuridão.
-Estou indo, estou indo! – gritou o senhor Thomas.
Ele disse para o rapaz ao seu lado:
-Eu compreendo. Já fui menino também. Desde que as coisas não se passem dos limites.
-Solte-o, senhor Thomas.
-Ele não sofrerá nenhum mal no meu banheiro, disse o senhor Thomas, tropeçando lentamente pelo jardim. Ele parou na porta do banheiro.
-Qual é o problema aí dentro?
Não houve resposta.
-Talvez ele tenha desmaiado – disse o rapaz.
-Não no meu banheiro. Aqui, você, venha para fora! – disse o senhor Thomas, e deu um grande empurrão na porta, que quase caiu de costas quando ela se abriu facilmente.
Uma mão primeiro o apoiou e, em seguida, empurrou-o com força.
Sua cabeça bateu na parede oposta, e ele caiu violentamente sentado. Sua sacola atingiu seus pés. Uma mão tirou a chave da fechadura e a porta bateu.
Deixe-me sair - ele gritou, e ouviu a chave girar na fechadura.
A voz lhe falou calmamente através do orifício em forma de estrela na porta:
-Não se preocupe, Sr. Thomas. Não vamos te machucar, se você ficar quieto.
O Sr. Thomas colocou a cabeça entre as mãos e pensou. Ele tinha notado que havia apenas um carro no estacionamento e com certeza o motorista não viria pegá-lo antes da manhã seguinte.
O Sr.Thomas deu um sonoro grito, mas ninguém respondeu. O barulho não poderia mesmo ter atingido seus inimigos.
Uma voz falou com ele através do buraco.
-Sr. Thomas.
-Deixe-me sair – respondeu, severamente.
-Aqui está um cobertor - disse a voz, e a longa salsicha cinza foi passada através do buraco e caiu em camadas sobre a cabeça do Sr. Thomas.
-Não é nada pessoal - disse a voz. - Queremos que sua noite seja confortável.
-A noite!? – o Sr. Thomas repetiu, incrédulo.
-Pegue, disse a voz. São pães, nós passamos manteiga neles, e linguiça. Não quero que você morra de fome, Sr. Thomas.
Ele implorou desesperadamente.
-Isto é uma piada, rapaz! Deixe-me sair e eu não vou dizer nada. Eu tenho reumatismo. Preciso dormir numa cama confortável.
-Você não vai mais ficar confortável, não nesta casa.
-O que você quer dizer, menino?
Mas os passos se afastaram. Havia apenas o silêncio da noite.
O Sr.Thomas tentou mais um grito, mas ele estava amedrontado e repreendido pelo silêncio.
Às sete da manhã seguinte, o motorista veio buscar seu carro. Ele ouviu vagamente uma voz gritando, mas não lhe interessava. Ele deu a ré com o carro até encostar no palanque de madeira que sustentava a casa do Sr. Thomas.
O carro se moveu para frente e o motorista checou se não havia prendido algo na carroceria. Em seguida, ouviu-se o som de um longa arrancada.
Não havia nenhuma casa ao lado do estacionamento, apenas um monte de escombros.
O motorista voltou a ouvir o grito de alguém.
Vinha da construção de madeira que era a coisa mais parecida com uma casa no meio daquelas ruínas. O motorista pulou o muro e destravou a porta.
O Sr. Thomas saiu do banheiro. Ele deu um grito, soluçando.
- A minha casa! Onde está a minha casa?
- Eu também quero uma! - disse o motorista, e começou a rir. Não havia sobrado nada em lugar algum.
-Como você ousa rir? - disse o Sr. Thomas. –Aqui era a minha casa. Minha casa!
- Sinto muito - disse o motorista. - Eu não posso ajudá-lo, Sr. Thomas. Não é nada pessoal, mas você tem que admitir que é engraçado.

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