Sunday, October 08, 2006

O Coelhinho da Sorte

Luiz Fernando Riesemberg


Era uma vez um coelhinho chamado Léo, o herói da nossa estória, que vivia com o papai e a mamãe-coelho e mais trinta e dois irmãozinhos em uma toca na floresta. Todos os dias eles se alimentavam com muitas cenouras, pois havia plantações na proximidade, e para eles comida nunca esteve em falta. O trabalho dos coelhos mais velhos garantia o sustento da grande família durante todo o ano. Mas, apesar da harmonia vivida pelos coelhinhos, alguém não estava satisfeito. Léo observava que o cardápio em sua toca só envolvia cenouras: era sopa de cenoura, torta de cenoura, cenoura refogada, cozido de cenoura, doce de cenoura, suco de cenoura..., mesmo sabendo das dificuldades enfrentadas pelos irmãos para garantir a comida, o nosso amigo estava enjoado de comer sempre a mesma coisa, e desejou que um dia parasse de ver apenas a cor laranja em seu prato. — Tudo o que eu queria era sentir um gosto diferente – era o que vivia resmungando enquanto sua mãe cozinhava mais cenouras. Seus pais lhe explicavam que a cenoura era importante para ele crescer forte, rápido e saltitante, e que deveria agradecer por ter sempre comida em casa. Mesmo assim, Léo não se rendia. A explicação para tanta birra estava em um folheto de supermercado, trazido pelo vento, e que apresentava uma variedade enorme de frutas, legumes e outros alimentos empacotados. Léo havia encontrado o papel com fotos multicoloridas de alimentos fresquinhos, apetitosos e diferentes, e o mostrava a todos. Tentava levar seus pais a entenderem que o lugar de onde aquele folheto havia saído era cheio de comida, e que lá eles nunca passaria fome. Carrefour era o nome da cidade dos sonhos daquele coelhinho. Em um dos tantos jantares com algum prato feito de cenoura, Léo se fez mais uma vez de enjoado e não quis nem ver a comida em sua frente. A mamãe chorou na frente de todos, e o papai-coelho perdeu a paciência: — Coelho malvado! Olha só como você é! Eu e seus irmãos trabalhamos duro para te dar do que comer, e veja como você agradece! Vai já pro quarto! Está de castigo! Aquilo foi a gota d’água para o coelhinho. Na mesma noite, resolveu fugir de casa. Ou melhor, fugir da toca. No meio da noite, pulou a janela e adentrou a floresta escura. Nunca tinha feito um caminho diferente daquele da plantação, e estava feliz pelo momento de liberdade. Levou na bagagem apenas o encarte com as promoções do supermercado. Era só do que precisava, pois era pra lá que ele ia. Cenouras, nunca mais. Após caminhar por algumas horas, quando já não tinha mais volta, começou a ouvir alguns ruídos diferentes no meio da mata escura. Apertou o passo, mas quanto mais rápido andava, mais sons estranhos começavam em sua volta.Lembrou-se das antigas histórias que ouvia quando criança, sobre os predadores. Mesmo sabendo que aquelas eram apenas estórias de assustar, um medo lhe percorreu a espinha ao lembrar de como elas o assustavam quando era mais jovem. Na forma como sua mãe contava, o predador era muito grande, com presas afiadas e garras pontudas. Resolveu usar sua velocidade de coelho e cruzou uma grande parte da floresta aos saltos, até que bateu o cansaço e teve que parar para uma cochilada. Pensou em voz alta: “que bobagem, eu com medo dessas velhas estórias...”. E preparou-se para dormir. A fadiga por ter corrido tanto realmente exigia um descanso, mas os ruídos da floresta e o frio da noite não permitiam que se fechasse aqueles olhos vermelhos por muito tempo. Além isso, uma leve pontada no estômago indicava que a energia despendida precisava ser recomposta com comida. Passos foram se aproximando na mata, e as orelhas de Léo se esticaram para ouvir melhor. A velha imagem do predador com os dentes afiados lhe veio à cabeça. Já se preparava para fugir, quando de repente alguma coisa o segurou pelos pés, impedindo qualquer movimento. Era outro coelho. Léo o reconheceu no mesmo instante, pois era seu irmão mais velho. —Desculpe, mas eu não poderia deixar meu irmãozinho vir sozinho pra cá. É perigoso demais... Para encurtar a história: O irmão veio disposto a acompanhar nosso herói, e não a levá-lo pra casa. Mas antes de continuarem, algumas coisas foram explicadas ao jovem coelho: não eram apenas estórias o que ele havia ouvido. Realmente, existiam predadores. Léo aprendeu que existia uma cadeia alimentar, e que, enquanto coelhos comiam vegetais, outros animais comiam coelhos. Mesmo assim, ele quis continuar a jornada rumo à cidade dos seus sonhos. O resto da noite foi assustador, pois agora sabia que os predadores eram reais. E o pior: além de realmente existir uma espécie parecida com aquela que habitava seus pesadelos — os lobos — havia ainda as corujas, os gaviões e as raposas, todos também dispostos a comer alguma coisa diferente no jantar. O irmão, precavido, trouxe consigo uma porção de cenouras na mochila. Imaginou que Léo estaria faminto, visto que não havia jantado naquela noite. Léo relutou em aceitar, mas a fome bateu mais forte, e teve que comer justo daquilo que havia sido o motivo de fugir de casa. Mas era a última vez que comia cenouras, pensou em voz alta. Com o Sol nascendo e iluminando a floresta, foi mais fácil achar o caminho da estrada que levava à cidade. Mas os dois coelhinhos já estavam exaustos por andarem tanto. Sem poderem andar muito rápido, foram lentamente até o local de onde, com suas enormes orelhas, ouviram vozes humanas. A cidade das comidas diferentes era também habitada por esse tipo de gente, e contava-se que as crianças humanas tinham uma relação de carinho com coelhos. Chegando de mansinho, observaram uma cena que, no mínimo, encheu de lágrimas os olhos de Léo. Em um campo aberto, estendidas sobre uma toalha xadrez, havia uma grande variedade de alimentos idênticos aos do folheto. Crianças humanas brincavam ao longe. Léo não teve dúvidas: mesmo cansado, correu com todas as forças até a comida. O irmão não conseguiu segurá-lo, e continuou escondido na mata. Foi a maior festa para Léo. Sobre a toalha, havia maçãs! Vermelhas como na foto do folheto, e eram doces! Léo ainda entrou dentro de um pacote com batatas fritas... crocantes e deliciosas! Experimentou tudo o que pôde, até se sentir completamente satisfeito, com o estômago cheio. Ficou tão feliz, aproveitando o momento que tanto esperara, que perdeu a noção de tempo. Quando se deu conta, as crianças humanas tinham se aproximado e o observavam, admiradas. Uma delas, um menino, fez um sinal com a mão, e logo apareceu um adulto, muito maior que as crianças. Léo tentou correr, assim como seu irmão fez em menos de um segundo, mas toda aquela comida diferente em seu estômago fez com que ele ficasse muito pesado. Não conseguiu agir com a habitual rapidez. O resultado: foi pego pelas orelhas e colocado no porta-malas do carro. Acabou sendo vendido para uma escola, que o dissecou e o usou em uma aula de Biologia para ensinar os alunos sobre o aparelho digestivo. O pé de Léo foi conservado por um aluno e transformado em chaveiro porque dizem que dá sorte.

1 comment:

  1. Pow, fio, que crueldade. Viver comendo apenas cenoura é pra matar mesmo, ahauahua! Abraço!

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