segunda-feira, julho 06, 2020

Monstrologia (L.F.Riesemberg)



Gabriel apagou as luzes e começou a ver monstros pelo quarto. Era no escuro que eles surgiam, com seus olhos ferozes, garras e mandíbulas saindo do meio das sombras. Ele tentava fingir que nada daquilo era real, até que corria para o quarto dos pais, implorando por ajuda.

“Veja! Não tem nada aqui...”, falou a mãe, paciente, mostrando cada canto do cômodo. Mas era inútil, pois os monstros só apareciam quando Gabriel estava sozinho. Adotando outra estratégia para vencer o medo do filho, a mãe falou: “Talvez eles só desejem te conhecer. Você é um menino tão legal que até os monstros querem você como amigo”.

Foi esta ideia que fez o menino querer saber mais sobre os monstros.

“Moça, onde fica a seção de Monstrologia?”, perguntou à bibliotecária. Ela achou graça, e o levou até uma estante onde ele talvez encontrasse algo. “Você já leu Frankenstein? Também tem Drácula, O Médico e o Monstro. E essas revistas em quadrinhos aqui”, disse a moça, deixando o garoto perdido entre as criaturas.

Todos os dias, durante muito tempo, Gabriel estudou os monstros. Queria saber de onde vinham, o que faziam, como viviam. Aos poucos foi descobrindo fatos muito interessantes, que os deixava cada vez mais à vontade com a sua presença. Seu medo à noite foi diminuindo e, quando ele descobriu que na verdade gostava dos monstros e os queria como amigos, eles deixaram de aparecer.

Essas lembranças surgiram velozes como um raio, e então Gabriel voltou a si. Deu-se conta de que já não era mais uma criança e que agora ele próprio era o pai de um menino com medo de monstros. Estava ajoelhado diante da cama do garotinho. “E esses monstros...", perguntou ternamente ao filho. "Eles só aparecem no escuro, quando você está sozinho?”. 

"Sim, pai. Como você sabe?”.

Gabriel contou sua história. Por fim, disse que tudo o que aprendeu em suas pesquisas lhe garantira o título de Doutor em Monstrologia. “Os monstros são legais, filho. Eles só são um pouco tímidos, porque muita gente os acha feios. Então eles aparecem somente à noite, quando é seguro - e só para crianças muito especiais, como você”.

O menino ficou pensando naquilo. “Tem uns garotos malvados na escola, que me perseguem no fim da aula. Será que eles também veem monstros?”.

Gabriel suspirou, lembrando do seu próprio tempo de escola. Por que tinha que haver tanta maldade no mundo? Ele ficou tentado a dizer que esses garotos é que eram os verdadeiros monstros. Mas apenas acariciou os cabelos do filho.

“Não, meu amor. Os monstros não gostam desse tipo de gente”.

“Por que não, pai?”.

“Porque sabem que o medo faz parte de nós. Sempre vamos ter medo de alguma coisa, mesmo depois de adultos. E os monstros nos ajudam a conviver com isso. Já esses meninos só ficam causando medo por diversão. Eles não sabem o que estão fazendo”.

Ao perceber que o filho já havia adormecido, Gabriel saiu do quarto sem fazer barulho. “Boa noite...”, disse, com ternura, antes de fechar a porta. “E cuidem bem dele...”.

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