segunda-feira, março 16, 2020

Vampiros do século XXI



Angel, apesar do nome, era um vampiro. Mas não como os das ficções, que precisam se nutrir de sangue e fugir da luz do Sol. Você poderia encontrá-lo a qualquer hora do dia, com uma aparência comum, desempenhando atividades absolutamente normais. Mas nas noites de sexta ele transformava-se. Alterava sua aparência com vestimentas, adereços e penteados, e saía à caça.

Quando o vi dançando entre dois amigos, bebendo desajeitadamente uma bebida fora de moda, deduzi que, como eu, ele era um peixe fora d’água naquele local. Encorajado pela ação do álcool, me aproximei e iniciamos um diálogo. A conversa fluiu tão bem, apesar do som ambiente, que decidimos prolongar a diversão de forma mais reservada.

Pensei ter encontrado uma alma gêmea, ou ao menos alguém muito especial, com quem seria ótimo passar mais tempo. Conversamos sobre pequenas coisas que nos causavam sensações e sentimentos parecidos, e a cada nova similaridade descoberta, mais eu sentia um magnetismo feroz nos aproximando. Por fim, convidei para ir ao meu apartamento.

Na intimidade, fui o mais doce possível, como o sou normalmente, e ele retribuiu toda atenção, sendo bastante compreensivo com meus defeitos. Na manhã seguinte, o surpreendi com farto café na cama, apenas para ver mais uma vez a doçura em seu olhar. O deixei em sua casa acreditando ter sido um encontro especial, o qual eu adoraria repetir.

Não me importava nada do que eu havia dispensado a ele naquelas horas. Eu estava contente por poder fazer gentilezas, a faria outras se pudesse. Ele merecia aquilo tudo.

Meus pensamentos com ele foram tantos, que alguns dias depois combinamos novo encontro. Outra vez houve aquela aura mágica, pela qual o cerquei de carinhos sinceros, de cuidados sem segundas intenções, o que nos levou a repetir os rituais de natureza íntima. Nos sentimentais, lhe confiei segredos nunca antes revelados. Nos físicos, combinei toda a minha força com carícias suaves, paciência e imaginação, a fim de lhe dar o prazer máximo.

Levei semanas para perceber o que estava acontecendo. Foi mais precisamente em uma noite de conjunção carnal que, em êxtase, ele gritou com fôlego de modo tão intenso que me preocupei com o sono dos vizinhos. Já havíamos conversado sobre certas regras, as quais ele descumpria repetidamente, responsabilizando o calor do momento pelos atos de insensatez.

Ele passou a atuar com cada vez mais força e egoísmo, sem a suavidade e atenção que lhe dispensei desde o primeiro encontro. Foi num momento assim, de peles coladas pelos suores, que entendi que aquele não era um relacionamento justo. Havia apenas investimento da minha parte. Eu lhe cedia meu tempo, minha atenção, minha força, minha criatividade, e não obtinha o mesmo. Ele sugava tudo, regulava até mesmo minhas amizades, mas não me entregava nada.

Assim rompemos, e mesmo depois disto ele me roubou noites de sono, pois eu acreditava ter agido com injustiça. Ao menos foi isso que ele me falou enquanto nos despedíamos. Somente mais tarde fui concluir que, lhe dispensando, eu não havia lhe causado qualquer avaria. Ao contrário, eu devia ter sido uma de suas caças perfeitas, daquelas que o predador se alimenta até se fartar, e ainda garante uma reserva para sobreviver por algum tempo.

Anos depois, contando essa história para uma amiga, percebi que ela tinha alguma informação e fiz com que me contasse. Com um sorriso malicioso, ela revelou que também tinha tido um relacionamento rápido com o mesmo rapaz. Porém, com sua experiência, logo notou uma malícia nas palavras dele, e até mesmo mentiras, típicas de quem quer encantar para então sugar ao máximo tudo o que pode, e depois partir para outra vítima.

A vida seguiu, eu formei uma família e, apenas eventualmente, meus pensamentos eram assombrados por ele, normalmente com compaixão. Talvez Angel fosse apenas um ser humano, carente e com falhas como tantos somos.

Para minha surpresa, recentemente percebi que ele se mudara para o meu prédio. Assim que coloquei os olhos nele, senti como se tivesse caído um raio sobre mim. Sabe, ele tem ainda o seu charme.

E se eu tivesse cometido um equívoco? Ao observá-lo, notei uma ponta de interesse em seu olhar. Pensei, por certo tempo, que ele não havia tirado nada de mim que eu não quisesse lhe dar. Já pensei em procurá-lo para viver uma aventura rápida e descomprometida, como reparação pelo mal que lhe causei, mas sempre lembro de algo que ouvi um dia. Que os vampiros de hoje não apenas abusam de você. Eles também fazem com que acredite que é você quem os está vampirizando.  

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