sábado, julho 11, 2020

Kaleidoscópio (L.F.Riesemberg)



“É um caleidoscópio”, disse a mãe, com o olho grudado no objeto. “Eu tinha um quando era menina, mas este é muito mais sofisticado”. O filho esperou impacientemente que ela lhe devolvesse o brinquedo, para que pudesse logo brincar. Gabriel espiou pelo pequeno buraco em uma das bases daquele cilindro feito de lata e madeira. A mãe explicou a mágica: “As paredes internas são espelhos, e conforme você gira, os cristais lá dentro criam essas lindas ilusões”.

Mas Gabriel não via apenas cristais. Parecia algo muito maior. Teve a impressão de olhar todo o universo, com suas estrelas, nebulosas e cometas correndo por todos os lados. “O mundo está aqui dentro”, pensou. Caminhou para o quarto sem tirar o olho daquela pequena janela mágica. “Cuidado para não se machucar andando assim”, alertou a mãe.

Mas como ele poderia se machucar? Estava diante da maior das criações! Quanto mais girava o cilindro, mais imagens surgiam no seu interior. Viu o planeta Terra, com todos os seus continentes mergulhados num mar verde. Encontrou as pirâmides do Egito antigo, que logo se transformaram em um navio cruzando o oceano. Quando mais girava, mais visões iam se revelando.

O menino não saberia dizer quanto tempo ficou ali, admirando aquele mundo de imagens que se formavam e se desmanchavam. Viu navios cruzando o oceano virarem guerreiros de uma tribo pré-histórica, que depois se transformavam em vulcões  de um planeta desconhecido. Girando mais devagar, observou todo o país, com todos os Estados, e seu Estado, com todas as cidades. Deu uma batidinha na lateral do aparelho e então viu surgir sua cidade vista do alto, e achou o telhado da própria casa.

Pouco depois pôde ver até a si mesmo, ali no quarto, maravilhado com tudo aquilo. Pelo visor do cilindro viu até sua mãe na cozinha, preparando o almoço, e depois enxergou a biblioteca fechada naquele sábado, onde pôde entrar e passear pelos corredores silenciosos.

“Que bom que gostou do brinquedo”, disse a mãe, na mesa do almoço. Seria inútil explicar a ela que não era só um brinquedo. “Sim, é muito legal”, concordou, tentando imaginar de onde teria vindo aquele poder fantástico. “Como será que isto foi parar no córrego?”, ela perguntou. Gabriel não sabia, mas em um impulso levantou-se e voltou correndo para o quarto, onde novamente levou o cilindro ao olho.

Os cristais foram se movendo dentro da câmara e revelaram o caminho contrário que o artefato havia percorrido antes de chegar até suas mãos. Gabriel viu-se naquela manhã, abrindo a caixa de madeira na beira do córrego, e antes disso boiando na água. Então viu a caixa subindo rio acima, por muitos quilômetros, até um forte impacto lançá-la na carroceria de um caminhão que sofreu um acidente durante a tempestade. O caminhão rumava para um museu na capital, mas sua carga ficou espalhada na estrada.

Gabriel tirou os olhos do visor e respirou fundo. Como era possível aquele objeto lhe revelar tanto sobre tudo? Que poder incrível ele tinha em mãos! Olhou novamente o exterior do caleidoscópio, com suas inscrições em japonês, e concluiu que, de posse daquilo, poderia saber sobre tudo o que quisesse. Nunca mais teria dúvidas a respeito do que quer que fosse. Bastava olhar e a resposta lhe seria revelada.

Grudou outra vez o olho no objeto, e procurou as questões da próxima prova de Matemática. E estavam lá! Começou a pensar em tudo o que queria saber, e lembrou da linda moça da biblioteca. Como seria o seu nome, que ele nunca teve coragem de perguntar? Procurou um pouco e logo viu, dentro do cilindro, o envelope de uma carta escrita por ela. “Sofia”, repetiu, maravilhado.

E a gangue do Jackson? Onde estaria? Encontrou no caleidoscópio cada um dos garotos e viu como eles pareciam ridículos quando não estavam juntos fazendo maldades. A partir de agora, eles nunca mais o pegariam de surpresa na rua, nem o ameaçariam nunca mais.  

“Eu nunca mais vou ter medo de nada!”, disse, rindo como o Dr. Frankenstein ao constatar que o monstro estava vivo.

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