terça-feira, março 03, 2020

Tudo aquilo que você ama (L.F.Riesemberg)



Acordei sabendo que havia deixado o mundo dos vivos. Não senti dor, nem raiva. Estava apenas curioso sobre o que viria a seguir. Eu sabia que estava em um plano superior, mas que ali não era o paraíso, nem nada equivalente. O lugar lembrava muito uma sala de aula, e então um professor apareceu.

Eu achei tudo muito natural, como se já houvesse passado por aquilo. “Você vai fazer alguns testes para definirmos o seu local de destino. Boa sorte!”, disse o professor, entregando-me uma folha de prova.

A questão era muito simples: “Escrever uma carta a Deus justificando sua entrada em Seu reino”. Como sempre cultivei o hábito de escrever, foi com grande tranquilidade que produzi meu texto. As ideias vinham com muita rapidez, e em pouco tempo finalizei a tarefa.

O professor leu meu texto e, aparentemente satisfeito, anotou algo em sua prancheta. “Muito bem, sigamos em frente!”.

O segundo exercício era igualmente fácil: cuidar de um animal em situação de abandono. “Excelente!”, pensei, sendo encaminhado a um local que lembrava um abrigo. Sempre fui apaixonado por animais, e há muitos anos cuido deles voluntariamente. Cães, gatos, coelhos e toda uma variedade de bichos ali se encontravam. Eu tinha que escolher um, e aplicar os cuidados necessários. Mas não consegui optar por um só. Dei atenção a todos aqueles pobrezinhos, que me retribuíram o afeto, até que fui levado a outro ambiente.

“Você está se saindo muito bem. A terceira tarefa é igualmente bastante simples”, disse o professor. “Basta manter uma conversa comigo durante cinco minutos”. Realmente, seria muito fácil, pensei, satisfeito. “Mas em russo”, ele completou.

Esta foi a primeira atividade que não consegui finalizar. O engraçado é que eu sempre sonhei em aprender russo, pois adoro a língua, mas nunca me dediquei o suficiente para dominá-la. Assim, tudo o que consegui foi pronunciar meia dúzia de palavras, e entender duas ou três das que ele me disse. Falhei.

“Tudo bem, são raros os que obtêm sucesso em todas as questões”, tranquilizou-me o professor. Então me encaminhou para uma espécie de adega, e deduzi que a próxima tarefa seria relacionada a vinhos. “Outra atividade bastante fácil para você”, disse o professor. “Deverá degustar o conteúdo de uma garrafa à sua escolha e em seguida apontar a safra e o tipo de uva com que foi produzido”.

Neste ponto comecei a estranhar aquele teste. Por que ele disse que seria fácil para mim? De fato, eu sempre amei vinhos, e queria muito me aprofundar na área, mas nunca deixei de ser um leigo no assunto. “Tem certeza que é o teste certo?”, perguntei.

O professor conferiu algo em sua prancheta e confirmou: “Sim, não houve nenhum engano, ao menos da nossa parte”. Confuso, tentei completar a atividade saboreando um dos vinhos, mas me faltava conhecimento para dar as respostas certas e acabei fracassando novamente. Comecei a ficar preocupado.

“E como última tarefa, você irá construir uma casa”, falou, apontando uma pilha de tijolos e materiais de construção.

Fiquei indignado. Como os tais testes puderam ter começado tão fáceis, para depois ficarem tão desafiadores? “Mas agora você terá ajuda”, tranquilizou-me o professor. Ao mesmo tempo apareceram três pessoas mascaradas. 

Não me contive e falei: “Desculpe, mas acho que ainda é uma equipe muito pequena para construir uma casa, não?”. O professor sorriu: “Eu mencionei que esta será a residência onde você vai morar por toda a eternidade?”.

Aquele era o absurdo dos absurdos. Exigi uma explicação. Benevolentemente, ele falou: “Ainda há pouco li uma carta muito bonita sua, narrando o quanto merecia entrar neste reino. Você escreveu com facilidade por ter sido agraciado desde a infância com o amor às palavras. Em seguida atingiu a nota máxima na segunda tarefa, por ter praticado na Terra o amor pelos animais”.

“Mas e depois?”, perguntei. “Por que me deu tarefas tão difíceis?”.

“Não seriam difíceis, se você tivesse seguido seu coração quando teve a chance. Desenvolver qualquer habilidade é fácil quando você faz o que ama. O amor é um magnetismo que recebem os indivíduos, para que sejam atraídos às tarefas a que estão destinados. Nada é por acaso”.

Compreendi que eu deveria ter ouvido o chamado e aprendido a fazer tudo aquilo que desejava, quando tive chance. Língua russa... enologia... sempre estiveram em meu coração. Mas construir uma casa? Isso nunca me despertou qualquer interesse.

“Nesta parte, o segredo não é a tarefa, e sim a equipe de trabalho. Para você apareceram três pessoas, que são as únicas que você realmente ama”. E assim que elas tiraram as máscaras, reconheci, emocionado, meus pais e meu irmão, de quem recebi um longo abraço.

“Mais uma vez, o amor é a resposta”, esclareceu o professor. “Quanto mais pessoas você amar, mais apoio terá para construir sua moradia no reino dos céus”.

“Então eu falhei”, concluí.

“Não”, disse o professor. “Não permito que ninguém falhe. Você sempre terá mais uma chance”.

E subitamente me vi em casa, acordando com os primeiros raios de sol que entravam pela janela, disposto a começar mais um dia na Terra. Meu coração estava preenchido com um imenso amor a diversas coisas e pessoas que, desta vez, não seriam ignoradas.   

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