sexta-feira, março 13, 2020

Como Andar de Bicicleta (L.F.Riesemberg)



Igor era jovem, inexperiente e impulsivo: uma combinação perigosa. Havia ingressado na universidade, mas não estava certo sobre ser aquele o seu caminho. Por isso pensava, sentado em um banco na praça, observando as pessoas que iam e vinham, algumas sorridentes, outras sérias, gente de todos os tipos, com diferentes histórias para contar.

“Posso me sentar aqui?”. Era um senhor simpático que apareceu de repente.  “Claro!”, disse Igor, interessado em descobrir o título do livro que o homem portava. “Sempre venho aqui para ler um pouco”, o homem comentou, abrindo o exemplar. “Puxa...”, disse Igor “...eu devia ter trazido um livro também. É um ótimo lugar para ler”.

O homem, concordando com o rapaz, estendeu-lhe o livro. “Fique com o meu”. A capa tinha um retrato de Albert Einstein. “Muito obrigado, senhor, mas não precisa”.  O homem sorriu. “Engraçado você me chamar de senhor”. Igor desculpou-se. “Está tudo bem, rapaz! É que o tempo é uma coisa e tanto”.

“Eu justamente estou tentando saber como aproveitar o meu tempo”, falou Igor. “Há tanto a se fazer, mas tão pouco tempo para decidir. Tenho medo de tomar uma decisão errada e estragar todo o meu futuro. Talvez o senhor pudesse me dar umas dicas, com sua experiência”.

O homem suspirou. “De fato eu sou experiente, meu jovem”. Igor animou-se. “Então pode me ajudar?”. “Mas é claro! Foi por isso que vim!”. O rapaz sorriu, achando aquela afirmação uma tolice. “Não duvide, filho. Tudo acontece por um motivo”, disse o velho.

“De fato, estou em dúvida sobre a minha vida”, disse o rapaz. “Dúvidas podem ser ruins”, falou o velho. “Dúvidas são impasses, são freios”. Naquele momento passaram duas crianças andando de bicicleta. “Neste livro há a seguinte frase: ‘Viver é como andar de bicicleta. Para haver equilíbrio é preciso estar em movimento’. E faço um adendo: As dúvidas são aqueles momentos em que você para de pedalar”.

“Mas como não ter dúvidas, se não sabemos o caminho certo?”, perguntou Igor. O homem ao seu lado olhou no fundo dos seus olhos. “As dúvidas só desaparecem com o tempo, e eu sei bem do que falo”, afirmou, colocando sua mão enrugada ao lado da mão do jovem. “Quanto mais marcas do tempo possuímos, menos dúvidas nos restam”.

“Ou seja, eu tenho que aceitar minhas indecisões?”, perguntou o rapaz. “Mas o senhor não falou que iria me ajudar a decidir?”. O velho voltou a sorrir e lançou o olhar à distância, como se contemplasse um reino que só ele via. “Filho, você sabe o que tem que fazer. Pare o que está fazendo, e siga seu coração! Não vale a pena continuar com algo que te deixa em dúvida”.

“Puxa, é um ótimo conselho”, disse Igor. “Sim, eu sei”, disse o homem. “E não é só isso que eu sei. Eu sei muito mais sobre você do que pensa”. Igor imaginou estar diante de um desses idosos que acham que os jovens são todos iguais, que vão cometer os mesmos erros que eles, e por isso concluem que conhecem o futuro de todos. “Eu sei, por exemplo, que você pensa em viajar pelo mundo antes de ingressar na universidade, e eu digo que é isso que você deve fazer. Também sei que seu pai é contra, mas você deve enfrentá-lo, porque o que ele espera de você não é o que vai torná-lo feliz”.

“Puxa”, disse Igor, impressionado. “O senhor realmente sabe o que está falando. Como conhece tanto a meu respeito?”.

O velho levantou-se. “Digamos que eu tenha vindo do futuro”.

“Nossa!”, disse Igor. “Aonde o senhor quer chegar?”

“Imagine que, daqui a cinquenta anos, você esteja cheio de arrependimentos, cercado de infelicidade, mas descobre como voltar no tempo e tem a chance de aconselhar, a si mesmo, para não tomar a decisão errada”.

Igor estava estupefato. “Quer dizer que você sou eu? Eu vim do futuro mudar o meu próprio destino?”

“Ah, não”, falou o velho. “O meu eu jovem está por aí, em algum canto da cidade, com mais certezas do que dúvidas. Você não sou eu, mas você é meu melhor amigo, e eu não poderia te deixar aqui sozinho. Se você também não mudar de rota agora, nossos caminhos nunca irão se cruzar, pois nos conhecemos na universidade... a mesma que você não deve mais frequentar”.

“Calma aí”, disse Igor. “Minha cabeça já está embaralhando. ”Então o senhor é...”

“Sou um amigo”, completou o velho. “Um amigo que já passou pelo que você está passando, que escolheu a opção errada, desperdiçou uma vida e que agora está tendo a chance de consertar tudo”.

Igor ouviu o conselho do velho, sem saber se acreditava literalmente em tudo, ou se eram apenas forças de expressão, ou ainda se o homem era louco. “Por isso, meu amigo, você deve partir amanhã. Pegue o trem para o destino que você tanto sonha, e na viagem você vai conhecer a minha versão mais jovem. Já está tudo acertado!”.

O velho se despediu com um forte aperto de mãos, montou em uma bicicleta que estava encostada no muro e saiu de cena pedalando, até perder-se entre as pessoas da praça. Somente mais tarde Igor deu-se conta que ele havia deixado o livro sobre o banco, ao mesmo tempo em que dúvidas o atormentavam. “Mas se isso for verdade, como vou falar ao meu pai que devo largar os estudos? Será que realmente vou encontrá-lo na viagem? E como o velho sabe que esse plano vai funcionar?”.

Na contracapa do livro, havia uma dedicatória: “Viver é como andar de bicicleta: no começo é difícil, mas uma vez que você aprende, não esquece jamais”.   

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