Saturday, December 01, 2018

O Campo de Aviação




Ah, este som! Quantas memórias me trazem...

Antes, quando aquele zumbido surgia no ar, eu corria para a garagem e agarrava a minha bicicleta. Pedalava até a esquina e lá estavam Mário e Tito, meus melhores amigos. “Ali!”, dizia um de nós, apontando para o alto. E víamos a aeronave, um grande pássaro de metal no céu, pouco acima dos telhados. “O último que chegar lá é um bocó!”.

Pedalávamos feito loucos até o fim da rua, quando os paralelepípedos sob nossos pneus davam lugar ao pó de terra. Era mais meio quilômetro para chegar. Percorríamos o trajeto pela estreita estrada de chão entre os pés de milho, torcendo para chegarmos antes do pouso. Eis a maior alegria para meninos de doze anos nas férias de verão, ávidos que estávamos por aventuras.

Não podíamos chegar perto demais, mas não importava. Éramos a única plateia do avião em terra firme, ainda com a hélice girando. “Vocês acham que o piloto nos levaria dar uma volta?”. Talvez nenhum de nós acreditasse nisso, mas tínhamos uma desejo ardente de que, algum dia, ele nos chamasse para entrar na cabine, ver o painel e... quem sabe? Como seria olhar a cidade lá do alto? Como pareceriam as nossas casas vistas de cima? E o cinema, que frequentávamos quase todo sábado, seria pequeno visto do céu?

Em silêncio, encostados na cerca de arame farpado, cada um previa o seu futuro naquele modesto aeroporto, oculto entre a plantação. Não sei o que meus amigos imaginavam durante aquele silêncio, mas eu me via mais velho, como um corajoso aviador contrabandista levando caixas de munição aos rebeldes da resistência, que lutavam contra o sanguinário ditador em um país distante.

Infelizmente, nunca fomos convidados para entrar em nenhum dos aviões que lá aterrissaram. O sonho começou a morrer quando, mais tarde, notamos o capim já alto na pista de pouso. Mas nenhum de nós comentou nada, pois isso seria reconhecer o fim daquela época, cheia de magia e mistérios, que deixamos para trás há tanto tempo.
Os anos passaram e não nos tornamos pilotos de guerra. Nem a nossa amizade pôde permanecer como era. Logo fomos pegos pelo monstro da vida adulta, chamuscados pelo dragão do casamento, arrasados pelos terremotos chamados filhos – que também nos causaram alegrias, é claro. Mas para um menino de doze anos, que tudo o que tem são seus amigos, estas coisas eram tragédias, como enchentes que só trazem destruição e doenças.

Eles também não conseguiram escapar das garras do tempo. Mário foi o primeiro a partir, há alguns anos, e Tito não durou muito mais que ele. Os safados me deixaram para trás.
Hoje, quando olho no espelho, vejo apenas um velho surdo enrolado no cobertor, sozinho, doente e triste. Mas, este som! Há quanto tempo não o ouvia!

Pela janela, observo o pássaro de metal cruzando o céu laranja do fim de tarde.
Subitamente, vejo-me entre os pés de milho, no campo de aviação, onde a aeronave pousa à pequena distância. Sinto-me tão jovem! Uma dupla de tripulantes salta para a pista e caminha em minha direção. Há algo familiar em seus sorrisos.

“Entra logo nesse avião, seu bocó!”.

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