Wednesday, June 29, 2016

O Eco (L.F.Riesemberg)


Era um rancho de dois alqueires, na margem direita do rio, com um velho casebre perto do barranco. Nas minhas férias, papai sempre me levava lá. Ele gostava de ficar estirado em uma poltrona, ouvindo os sons da natureza e fumando um cachimbo, enquanto eu arrumava algo para fazer.

Descontando o assobio dos canários e dos bem-te-vis que viviam na mata, tudo ao redor era muito quieto. Quase podíamos ouvir as águas descendo o rio. E então o meu pai, de pé na ribanceira, gritou para a outra margem: “Eco!”.

Imediatamente uma voz emergiu do meio das árvores, sobrepondo-se à dele com um mínimo de atraso: “Eco!”.

Olhei espantado para a densa floresta do outro lado do rio e perguntei: “Quem mora lá?”. E ele, sorrindo, passou a mãos nos meus cabelos: “Ah, é um outro homem. E ele também tem um filho, igual a nós dois”.

“Eia!”, gritou novamente. E imediatamente aquele homem do outro lado gritou também. Resolvi experimentar, juntando todo o ar que pude nos meus pulmões: “Cadê vocês?”. E logo ouvi uma voz idêntica gritar para mim: “Cadê vocês?”.

“Estamos aqui!”, tornei a berrar.

E o menino do outro lado repetiu: “Estamos aqui!”

Maravilhado, perguntei a papai: “Posso ir lá brincar com ele?”.

“Oh, não! Você não o veria”.

Aquilo me entristeceu.

“Mas eles estão lá, fazendo as mesmas coisas que fazemos aqui, eu e você”, disse papai.

“Eles também pescam? E o menino corre? Será que tem amigos?”. Eu fazia muitas perguntas ao meu velho paizinho. “Tenho certeza que sim”, disse ele. “Fazem tudo isso e muito mais”, falou, sorrindo e me abraçando.

Essas são as lembranças mais vivas que tenho dele. Já faz tanto tempo! Mas no rancho, nada mudou. O rio continua aqui, imenso e silencioso. E a outra margem permanece lá, misteriosa, com as mesmas árvores de sempre ocultando o que quer que haja por trás delas.

Eu já não sou mais aquele menino. Porém, como não há mais ninguém aqui para achar estranho, resolvo gritar:

“Eco!”.

E, ao mesmo tempo, do fundo daquela mata na outra margem, eis que a voz me responde: “Eco!”. Não mais a voz do menino de outrora, mas, inquestionavelmente, a voz das minhas lembranças. A voz do meu pai.

Eu gostaria muito de ir para lá, abraçá-lo como antes, e dizer que o amo, como eu nunca disse. Aproveito o momento e grito outra vez: “Eu amo você!”.

E sou logo correspondido: “Eu amo você!”.

Hoje eu sei que é inútil atravessar o rio e explorar a outra margem. Não haveria nada lá, pois o que eu mais procuro acabaria se transferindo para a margem oposta, onde agora me encontro. “Ainda assim, eu queria o seu abraço”, penso sozinho.

E do outro lado do rio, sem que eu veja, ele me vê. Sentado na poltrona, sorrindo com um cachimbo no canto boca. “Algum dia, filho. Algum dia...”.

No comments:

Post a Comment