Thursday, July 09, 2015

Olhos Fechados (L.F.Riesemberg)



Raul atravessava uma densa névoa, mas não lembrava por que ou como havia ali chegado. Apenas sentia algo estranho no ar, como se estivesse em uma região suspensa das leis naturais. De repente, deu-se conta de que nada ao seu redor fazia parte do mundo real. Ele havia cruzado as muralhas do sono e, portanto, sonhava.

Era raro ter consciência de que estava dentro de um sonho, e assim resolveu aproveitar aquele momento enquanto fosse possível. Em breve despertaria, e as memórias ali criadas iriam pelos ares assim que os primeiros raios de luz atingissem os seus olhos.

Ele não sabia como sabia essas coisas. E também não podia pensar muito nisso, sob a pena de ser expulso prematuramente do sonho. Era preciso concentrar-se naquele mundo para permanecer dentro dele enquanto assim fosse permitido.

Aos poucos a névoa foi se dissipando e ele pôde enxergar mais ao seu redor. De alguma forma, sabia que tudo o que visse a partir dali seria pela primeira e última vez, visto que um sonho jamais se repete.

“Olá!”, gritou. E pôde ver o grito sair de sua boca e aterrissar em uma fofa nuvem no céu alaranjado. De lá desceu um anjo que estacionou em sua frente, e esse anjo tinha o rosto de uma jovem que ele conhecia. “Estela”, pensou. “Estranho sonhar com você!”. Não era uma pessoa tão íntima ou que inspirasse especial interesse. Porém Raul lembrava que os sonhos seguiam um roteiro próprio, sem depender da sua vontade, e poderiam parecer surreais ou absurdos. Nos sonhos ele não mantinha qualquer tipo de controle, nem mesmo sobre seus sentimentos. E, naquele em específico, como logo notou, estava completamente apaixonado por ela.

Aquilo era algo bom de sentir. E como no sonho ele nada temia, logo pronunciou lindas palavras em direção à moça, que se materializaram sob a forma de flores multicoloridas brotando de seu coração. “Eu só vim aqui por sua causa, meu grande amor”. Estela sorriu um sorriso luminoso, e ele sentiu vontade de chorar diante de tanta beleza.

Os feixes dourados daquele sorriso lhe atingiram em cheio, atravessando cada poro de sua pele e causando arrepios em diferentes níveis de intensidade. Ele fechou os olhos e ficou assim, sentindo aquela agradável vibração, em um prazer incomparável com qualquer outro jamais sentido. Mas aos poucos algo foi mudando ao seu redor. Primeiro ele notou um tremor, e depois foi como se o universo todo estivesse aos pedaços, esvaindo-se no ar como um castelo de cinzas exposto ao vento.

Foi então que entendeu que o sonho já estava chegando ao fim, e que ele nunca mais poderia retornar àquele local ou àquela sensação. Acordaria em sua cama, sob os raios do sol que entravam pela janela, e sequer lembraria de que um dia fora tão apaixonado por alguém, e que esse alguém era aquela jovem discreta que ele mal notara no decorrer de uma vida inteira, mas que agora, no tempo daquele sonho, passara a ser uma mulher extremamente adorável e fascinante.

“Oh, não! Deixe-me ficar mais um pouco aqui!”, pediu, sem saber a quem (existiria um senhor dos sonhos, talvez). Mas ele sabia que pedir era inútil, pois era tarde demais. As pontas dos dedos já sentiam a textura do lençol e as frias rugas do travesseiro. Contudo, Raul não se entregou: manteve os olhos fechados, num concentrado esforço para prolongar a mágica, rememorando aqueles últimos momentos de sua estadia no reino dos sonhos.

As memórias daquele encontro já caíam no abismo do esquecimento, então ele foi rápido: sem abrir os olhos, tateou com a mão até tocar o lápis na cabeceira. E assim, de pálpebras ainda fechadas, rabiscou na folha em branco aquele nome que, somente agora ele sabia, era capaz de resgatá-lo das profundezas mais geladas e inacessíveis do seu próprio ser.

“Estela”, disse ele em voz alta, com imenso alívio, finalmente abrindo os olhos para o nascer daquele novo dia. Depois de um simples sonho, estava apaixonado de verdade.

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