Thursday, June 18, 2015

O Texto Maldito (L.F.Riesemberg)






A casa estava semi-destruída, habitada por ratos e cobras. Há muito tempo um crime havia ocorrido ali. Eu entrei, duvidando das histórias que contavam sobre o lugar, mas quase não suportei aquela atmosfera poluída, que me causava dores de cabeça.

Entrei para provar que eu era mais homem que os outros. E agora que eu já havia feito o mais difícil, me restava levar a eles alguma coisa de lá. Olhei todos os cômodos, cheios de escombros e fuligem, e o que mais me atraiu foi aquele papel amarelado, escrito à mão, como uma carta, caído no piso da cozinha.

Dobrei-o em quatro partes, guardei no bolso da calça e saí. Quando me viram, eles me encheram de perguntas:

-E então, como a casa é por dentro?

-Por que você mesmo não olha? – perguntei.

-Ei – disse Kurt – o que trouxe para nós?

Eu peguei o papel e dei a ele.

-O que é isso?

-Eu é que sei? Vocês pediram para pegar qualquer coisa. Aí está!

Eles desdobraram o papel e, assim que começaram a ler, deram-se conta do que aquilo significava.

-Meu Deus! É o manuscrito!

-Impossível! A polícia já teria encontrado, e colocado em um daqueles saquinhos de provas, não?

-E o incêndio deveria tê-lo destruído!

Alguns queriam ler até o fim, outros tinham medo. Eu fiquei sem paciência e tomei o papel para mim novamente. Eu mesmo o leria em voz alta.

-Não! – disse Andreas. –É amaldiçoado! – gritou, tapando os ouvidos.

-Ele tem razão! Dizem que foi isso que enlouqueceu o pobre Charles! Depois que leu, matou a família e se suicidou.

Eu me enchi daquilo.

-Ah, que besteira. Vocês ainda acreditam nessas histórias?

Comecei a ler em voz alta, e ali estavam as frases mais confusas e desconcertantes que eu já tinha visto. Todos ficaram escutando, paralisados, de olhos arregalados, até o ponto final. Depois imperou um estranho silêncio entre o grupo.

-E então? O que acontece agora? – quebrei a quietude.

-Vamos embora daqui, está frio.

Amassei o papel e seguimos bebendo pela rua.

-Você não devia ter lido aquilo, Markus.

-Ah, cale a boca! – falei.

Paramos na loja de conveniência de um posto de gasolina, para comprar mais cigarro. O velho que me atendeu deu um sorrisinho maldoso.

-O que foi, coroa?

Reparei que ele tinha os olhos diferentes, avermelhados, um tanto diabólicos.

-Você não devia ter lido aquilo, rapaz!

Ele me pegou de surpresa e, quando percebi, estava tentando me estrangular com as mãos. Eu me defendi como pude e corri para fora, onde os rapazes estavam me esperando. Mas quando saí pela porta, toda a turma estava enlouquecida. Não consigo explicar como, mas eu sei que eles queriam me matar! Notei que os olhos de todos eles também estavam vermelhos. Não eram mais os meus parceiros! Pareciam possuídos! E ficavam repetindo: “Você não devia ter lido aquilo!”. “Não devia ter lido!”.



***



O investigador dá mais uma volta na cadeira onde Markus está algemado e faz outra pergunta:

-Você costuma andar armado?

O rapaz desvia os olhos para o chão.

-Bem, foi isso que me salvou. Imagina o que seria de mim se...

-Já chega! – gritou o policial. -Você alega legítima defesa, mas as câmeras de vigilância gravaram tudo. Pobres rapazes! Que drogas você usou para ficar daquele jeito, hein?

Markus se agarra à cadeira, furioso.

-Do que é que você está falando? Foram eles que enlouqueceram, não eu! Eu não queria machucar ninguém. Apenas me defendi quando me atacaram!

O investigador, de costas e com as mãos nos bolsos, suspira e balança a cabeça.

-Você não devia ter lido aquilo, Markus.

Ele se vira, e seus olhos estão vermelhos.

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