Wednesday, June 03, 2015

O Farol (L.F.Riesemberg)



          
Ela decidiu fazer a travessia, na esperança de fugir das injustiças e misérias daquela ilha. Se desse certo, mais tarde mandaria trazer o filho.

Infelizmente, nunca mais houve notícias daquela balsa, nem daquele grupo de refugiados que se arriscou em alto mar.

O pequeno Frederico cresceu ouvindo histórias sobre a mãe e recordando o pouco tempo que viveram juntos. Ela havia lhe ensinado as primeiras letras, a nadar e a sonhar com um futuro melhor. O que ele nunca conseguiu aprender foi aceitar que ela havia partido.

Para ele, eram verdadeiras as palavras que ouviu na hora da despedida: “Nunca vou te abandonar”. Foi por isso que, quando completou doze anos, decidiu ele mesmo fazer a travessia para reencontrá-la.

Na embarcação improvisada partiram quinze pessoas, entre mulheres e crianças. Era arriscado, mas ao menos havia uma chance, enquanto ficar na ilha era apenas um modo de prolongar o sofrimento.

No meio do mar, as ondas eram dribladas com profundo respeito. O menino se sentia sobre um gigante adormecido. Aqui e ali era preciso agarrar-se aos outros para não ser tragado pelas águas agitadas.

Fome, sede e desconforto foram companheiros naquele bote. Depois de sete dias o ar foi ficando elétrico, o céu se pintou de preto e uma enorme tempestade os golpeou.

Frederico acordou sozinho, boiando, agarrado a um pedaço de madeira. Não havia qualquer sinal dos outros. Até onde seus olhos alcançavam, apenas o mar e o céu lhe faziam companhia.

Era inútil chorar, pois as lágrimas se misturavam à água infinita. Ele berrou, mas o grito foi sufocado pelo gigantesco silêncio e se extinguiu antes de chegar a qualquer ouvido humano. O natural pavor da situação ficou ainda maior com o pôr do Sol, que trouxe o sussurro dos fantasmas de todos os afogados naquele mar.

A noite foi esfriando, e as únicas alternativas eram ficar agarrado àquela madeira enquanto ela flutuasse, ou largá-la e nadar antes que suas forças chegassem ao fim. Mas nadar para onde?

Foi só muito depois de escurecer que Frederico percebeu. Além das estrelas que piscavam no céu havia outro ponto luminoso, acendendo e apagando no horizonte distante. “Um farol!”, gritou, recuperando a esperança. Se conseguisse nadar até lá estaria a salvo. Mas não seria fácil.

Depois que decidiu largar sua bóia na escuridão, não havia como voltar atrás. Só lhe interessava aquele brilho que prometia o chão firme e a chance de sobrevivência.

Quase às cegas, ele nadou freneticamente apesar das cãibras, e lembrou-se das lições da mãe. “Não pare”, diria ela. “Só mais um pouco!”. E a cada braçada e tomada de fôlego, a imagem dela lhe anulava as dores.

Ele nadou mais do que achava suportar, e quando o corpo já não resistia a tanto, precisou parar. Decepção e tristeza o invadiram quando percebeu a total escuridão do oceano: o farol não estava mais lá.

Só o fundo do mar o aguardava. Seria lá o local marcado para o encontro com a mãe? Restou-lhe apenas ir deixando que a exaustão o consumisse. Os olhos se fecharam e ele afundou nas trevas.

Assim que a água o engoliu por inteiro e começou a invadir seus pulmões, ele teve a visão de um rosto conhecido, cujos lábios se moviam.

“Mamãe? Não ouço sua voz”.

De súbito, compreendeu o que ela queria.

Frederico conseguiu voltar à superfície e, pequenina, a luz do farol ainda estava lá. Havia esperanças.

Ele nadou, com toda a força que tinha no sangue e na alma. Apesar da luz continuar sempre distante, ele não parou mais. Foi cortando o mar e a noite com suas braçadas, sem se importar com medos ou dores. Nadaria até o limite de suas forças.

Quando a manhã começou a raiar e as estrelas lentamente se retiravam do céu, um barco de pesca apareceu.

-Veja! Um menino boiando – disse um dos pescadores.

-Espere. Está vivo!

Frederico conseguiu abrir os olhos e perguntou:

-Aqui é o farol?

Os trabalhadores do mar se olharam, confusos. Estavam a alguns quilômetros da costa, e não havia qualquer farol. Nunca houve.

-Venha. Vamos cuidar de você – disse o homem, puxando o garoto para o barco.

Do alto, uma alma intensamente iluminada observava o desenrolar da cena.

“Você nunca estará sozinho, meu filho”.

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