Tuesday, August 19, 2014

O Anjo Caído (L.F.Riesemberg)



Após o susto, Jennifer riu de si mesma. Mas durante a fração de segundo em que havia visto aquela horrenda imagem à sua frente, seu coração quase congelou. Ela estava chegando da faculdade, quase à meia noite, e ao entrar na sala achou ter avistado um rosto demoníaco a espreitando. Uma observação mais atenta lhe revelou que se tratava de apenas um reflexo no armário. Logo estava sentindo-se bem, mas o fato de morar sozinha fez com que lembrasse, principalmente quando deitou para dormir, da terrível face que a recebeu ao abrir a porta.
Aquela foi só a primeira vez de muitas. A segunda foi em um acampamento com amigos. Ela olhou de relance para a fogueira e lá estava, entre as chamas, o mesmo rosto diabólico, que logo em seguida se dissipou, misturando-se às labaredas e impedindo-a de mostrar aos outros.
Aquilo se tornou seu segredo. Vez ou outra tinha esse rápido encontro com um ser bestial, que a assustava e logo desaparecia. Em casa, na rua, na praia, no milharal: não havia lugar definido. Quando menos esperava, ele surgia, ela se assustava, e então ele sumia. Com o passar dos anos foi habituando-se a esse jogo. Sempre que voltava a encontrá-lo, depois do espanto ela ficava rindo e brincava: “Me pregou mais uma!”.
Se ela somasse o tempo de todas as vezes em que ficou cara a cara com a criatura, não daria cinco segundos. Mas era uma imagem tão forte que já estava gravada em sua mente. Certo dia, munida de caderno e lápis, Jennifer passou a desenhar. Foi recordando alguns detalhes do rosto, imaginando outros, e por fim havia feito um retrato daquele estranho personagem que tanto a perseguia. Assim, no papel, não era tão desagradável olhar para ele. Tinha o queixo quadrado, olhos grandes e longos chifres. Em seus traços, o ser havia ficado com um olhar um pouco triste, o que a fez imaginar que era um anjo caído.
“Não fique assim”, ela pensou. “A vida vai melhorar e você vai conseguir o que quer”. Acabou adormecendo agarrada à gravura, sem perceber que os conselhos que dava ao monstro eram, na verdade, para si própria.
O retrato do anjo caído, como começou a chamar seu companheiro, ficou guardado. Com os anos passando e evidenciando-se nas suas linhas faciais, Jennifer às vezes sentia que aquela criatura era seu único amigo. E toda vez que acontecia de vê-lo novamente, em um daqueles encontros inesperados, ela perguntava por que ele não ficava mais tempo e não mostrava-se por inteiro. “Cansei de te ver tão rápido e logo descobrir que era só um vestido pendurado no cabide, ou uma sombra na parede. Já não tenho mais medo. Apareça!”, disse certa vez, no auge da solidão.
Ela já tinha percebido que todas as pessoas que passavam por sua vida acabavam indo embora. Aquele anjo das trevas era o único que não a abandonava. Parecia que ele a amava, e estava mostrando-se aos poucos, para que ela não se chocasse com sua aparência. E agora, depois de tanto tempo, ela já não tinha medo e nem se importava com sua forma exterior. “O que vale é a alma”, concluiu.
Sozinha numa noite de sábado, dentro do seu frio apartamento, ela abriu uma garrafa de vinho e cantou uma canção triste, dançando consigo mesma. “Venha, meu anjo. Estou pronta!”.
Do canto mais escuro da sala, um movimento surgiu. As sombras mudaram de lugar e então ele revelou-se, totalmente, sem a intenção de se esconder. Vendo-o à meia luz, ela admirou sua grandeza, sensibilizou-se com seus traços grotescos, mas acima de tudo o compreendeu. Era um renegado, vivia na escuridão, sem poder aparecer a ninguém. Ela esticou-lhe as mãos, esperando que ele as tomasse. Deixou-se ser carregada por aqueles fortes braços, exatamente como em seus sonhos, e depois ouviu o bater de grandes asas enquanto era levada para um passeio pelo céu, sob a luz do luar.

No comments:

Post a Comment