Thursday, January 31, 2013

Eu não matei Charles Bronson


Quando eu apontei o cano da espingarda para a cara do desgraçado, ele implorou para que eu não atirasse. Tinha caído de joelhos bem na minha frente e estava tremendo, quase chorando. Talvez nem percebesse, mas tinha juntado as palmas das mãos como se rezasse, implorando pela vida. Estava manchado, machucado e humilhado. Escorria sangue de seu nariz. Era só eu puxar o gatilho e ele já era. Neste momento meu relógio de pulso apitou 4 horas da manhã e lembrei que tudo isto tinha começado exatamente cinco horas antes.
            Às onze da noite eu estava tranquilo em minha casa, assistindo TV, de pijama e comendo pipoca, quando tocou o telefone. Era uma voz desesperada de mulher que eu não reconheci. Ela sabia o meu nome. Chorava do outro lado da linha, dizendo que tinha acontecido uma tragédia e que precisava da minha ajuda. Perguntei quem estava falando, e o que exatamente tinha acontecido, mas a única coisa que ela disse antes de desligar foi o nome de um conhecido hospital.
            Um frio percorreu meu corpo, dos pés à cabeça, e meu coração começou a bombear forte. Antes eu estava despreocupado, sozinho em casa porque meus pais tinham viajado, e esperando para assistir a uma sessão dupla de filmes com o Charles Bronson na sessão de gala, de madrugada. Imediatamente pensei em meus pais, viajando sozinhos, percorrendo estradas que não conheciam, e fui tomado pelo desespero.
            Liguei para o tal hospital, mas só dava ocupado. Pensei em ligar para o meu tio, mas provavelmente ele não sabia de nada e isso o deixaria preocupado. Lamentei que meus pais não usassem um celular.
            Resolvi pegar o carro e ir até o hospital. Com certeza a tal mulher estaria lá e poderiam passar mais informações. Mesmo que tudo não passasse de um engano ou brincadeira de mau gosto, só estaria em paz indo lá.
            Vesti apressado um casaco por cima do pijama, calcei o tênis e peguei as chaves do carro. Nem lembro se conferi se as portas e janelas estavam mesmo trancadas. Entrei no carro e percorri como um doido os quase dez quilômetros que separam minha casa do hospital.
            Chegando lá fui logo perguntando na recepção se havia algum ferido em acidente de carro. Disseram que sim, que estava sendo uma noite movimentada devido ao feriado, e que se eu estivesse procurando por alguém, deveria deixar os nomes e esperar.
            Depois de meia hora veio a notícia. Nenhum acidente com um carro igual ao dos meus pais. Foi um grande alívio no momento. Mas quem seria a mulher que tinha me telefonado? A recepcionista disse que naquela noite nenhuma mulher tinha usado aquele telefone.
            Dirigi para casa mais calmo do que na ida, porém ainda intranquilo. Quem telefonou era conhecido, pois sabia meu nome.
            Quando cheguei ao portão de casa, percebi que estava tudo escuro. Geralmente deixo alguma luz acesa quando a casa fica vazia à noite, mas no nervosismo em que eu estava, só Deus sabe.
            Larguei o carro na garagem, abri a porta de casa e entrei. Meu desespero voltou quando acendi a luz da sala. Alguém tinha entrado lá enquanto estive fora.
            O sofá estava virado no chão, com o estofamento rasgado mostrando a espuma. Os cristais eram apenas cacos no tapete. O vaso de flores tinha sido quebrado. Os quadros arrancados da parede. A TV, o dvd, o som e o computador tinham sumido.
            Afinei meus ouvidos a fim de saber se ainda havia alguém lá dentro e notei um ruído vindo do meu quarto. O impulso era de sair correndo para fora, mas tive coragem de andar até lá. O barulho era do televisor pequeno ligado, caído no chão. Os ladrões preferiram levar apenas o aparelho grande da sala. Na tela passava o filme do Charles Bronson que eu tanto queria ver. O guarda-roupa tinha sido revirado e minhas vestes estavam todas espalhadas por cima da cama.
            No quarto dos meus pais não foi diferente. Gavetas abertas e roupas pelo chão. Lembrei da arma que meu pai escondia de mim no fundo falso do guarda-roupa e fui dar uma olhada. Os ladrões não tinham a encontrado. Estava lá, com uma caixinha de munição.
            Era uma espingarda calibre 12, com dois canos. Puxei-a para meus braços e a apontei para frente, esperando encontrar ali algum dos desgraçados que tinham invadido minha casa. Meu pai ficaria ainda mais nervoso se soubesse que, além de terem nos roubado, eu conhecia o segredo dele.
            Coloquei a munição na arma e andei pela casa mirando para todos os lados. Tinham revirado tudo, até o armário do banheiro. Na cozinha, abriram a geladeira e levaram metade da minha comida.
            Infelizmente já tinham ido embora. Eu gostaria de encontrá-los nesse momento, de vê-los roubando minhas coisas. Queria saber se teriam coragem de fazer tudo o que fizeram com dois canos quentes apontando para o rabo deles.
            Enrolei a espingarda em uma toalha de banho e levei para o porta-malas do carro. Eu teria telefonado antes, mas roubaram até o telefone. Então decidi ir pessoalmente até a polícia.
            Cheguei à delegacia e encontrei apenas um policial atrás da mesa. Todos tinham saído. Não havia viatura disponível no momento. Contei meu caso para ele e tive que preencher uma ficha com meus dados e minha queixa. A tv da delegacia estava ligada, transmitindo aquele filme do Charles Bronson. O policial contou que estavam fazendo uma homenagem ao ator, que morrera velho e doente naquela semana, e apresentariam dois filmes estrelados por ele. Grande porcaria, pensei. Roubaram minha tv grandona e só deixaram a droga da 14 polegadas para eu assistir.
            Quando eu estava terminando de escrever na ficha, o telefone da delegacia tocou. Pude ouvir a voz da mulher do outro lado da linha, contando que tinha ocorrido um acidente em frente a casa dela, na rua 1 de Maio, número 226. O policial deu a mesma explicação que eu já tinha ouvido: que no momento estavam sem condução e que assim que fosse possível uma equipe passaria pelo local.
            Pedi orientação ao guarda. Ele, lendo o que eu tinha escrito na ficha, disse que provavelmente tinha sido algum conhecido, que arrumou um jeito de me tirar de casa para efetuar o roubo, e que talvez tivesse até mesmo uma cópia da chave, já que a porta não tinha sido arrombada e estava trancada quando eu cheguei. Ele pediu para eu esperar ali mesmo até que fosse feita uma revista na casa, mas eu não fiquei.
            Entrei no carro e fui dar umas voltas pela cidade para procurar algum suspeito. A noite estava escura e pouco movimentada, pois era feriado e muitas pessoas estavam viajando.
            Cheguei na rua 1 de Maio e resolvi procurar pelo número 226. Era onde havia ocorrido o acidente que tinham avisado para a polícia enquanto eu ainda estava lá.
            De longe já avistei o local da batida. Tinha sido um terrível acidente. Pelo visto, o Ford preto, modelo novo, que estava no meio do cruzamento tinha sido atingido por um carro que cruzou o sinal vermelho. A porta do passageiro do Ford tinha afundado quase um metro com o impacto. No chão havia cacos de vidro e sangue. Perguntei a um senhor que estava entre a meia dúzia de curiosos olhando o carro e consegui saber o que eu queria. Um Chevette azul marinho veio em alta velocidade e furou o sinal vermelho, atingindo o Ford. Tinham visto três passageiros e o porta-malas estava aberto antes da batida, carregado com uma tv grande. O Chevette fugiu, mesmo amassado, e com os passageiros machucados. Seria fácil para a polícia encontrá-los.
            Lembrei do policial dizendo que provavelmente os ladrões da minha casa eram conhecidos, que sabiam que eu estava sozinho em casa, que armaram aquele telefonema para me tirar de casa, e que podiam ter a chave da porta. O que me assustou foi que, na verdade, eu conhecia alguém que tinha um Chevette azul marinho.
            Dias atrás tinha acabado uma pequena reforma lá em casa. Meu pai quis aumentar o tamanho da garagem, já que agora eu tenho meu próprio carro, e contratou um engenheiro amigo dele para fazer a obra. Depois de entregue o projeto, dois pedreiros começaram a trabalhar em nossa casa. Levaram duas semanas para terminar tudo. Um deles parecia ser bem legal. Mas o outro era calado, e não tinha uma cara de muitos amigos. Várias vezes vi um Chevette azul parar lá em frente às seis da tarde, para pegá-lo no fim do expediente.
            Não tive dúvidas. Fui a um telefone público e pedi à telefonista o número do engenheiro amigo do meu pai. Ele deveria saber onde encontrar o tal pedreiro.
            —Boa noite. Desculpe acordar o senhor a esta hora, mas é que eu precisava encontrar aqueles pedreiros que trabalharam lá em casa na reforma da garagem. Será que teria como?
            Sonolento, deu o endereço da casa dos dois homens, que moravam na periferia. Me dirigiria até lá. Antes, daria uma passadinha em casa para pegar umas coisas.
Entrei outra vez naquele ambiente desolador do meu lar, vendo toda aquela bagunça pelo chão e nenhum objeto de valor. Peguei a caixinha de munição da espingarda e já estava saindo, quando resolvi levantar a tv pequena do meu quarto, que por milagre não tinha se espatifado no chão, e a liguei. Ainda estava passando o filme do Charles Bronson. Ele elegantemente vestido e atirando nos bandidos sem errar um tiro. Olhei para minhas roupas e percebi que eu ainda vestia o pijama por baixo do casaco. Resolvi agir com o mesmo charme do Bronson e botar um traje mais atraente.           Das roupas que ainda restavam no guarda-roupa do meu pai, vesti uma camisa branca, calça preta e sapatos sociais. Por cima coloquei um sobretudo preto. Eu deveria deixar o bigode crescer, igual ao do Bronson. Agora sim eu estava pronto para fazer o que a polícia não faria por mim.
            Tirei a arma do porta-malas e a coloquei ao meu lado, no banco do passageiro. Ela era minha passageira agora, e minha melhor amiga. Juntos, recuperaríamos o que haviam roubado.
            Segui rumo ao primeiro endereço que o engenheiro tinha me dado, mas sem saber se este seria aquele que eu queria, já que ele não especificou qual endereço era de quem. Poderia ser o do pedreiro legal.
            Fui dirigindo por aquelas ruas perigosas, em meio a casas semi-construídas, quando avistei o endereço. Era uma casinha simples e pobre, ao lado de um bar fechado. Não tive nenhuma dúvida, tinha vindo ao lugar certo. Bem em frente ao endereço estava parado o tal carro azul marinho — o mesmo que buscava aquele vagabundo na minha casa — e estava com o capô todo amassado.
            Estacionei atrás do Chevette e saí armado com minha 12, pronto para encarar qualquer um. Fui entrando no portãozinho de madeira sem pedir licença e bati na porta da casa. Quem é?, uma voz de homem perguntou. Não respondi e bati mais forte. Após um silêncio por parte do meu interlocutor, encostei o cano duplo da espingarda na fechadura e apertei o gatilho. O estrondo me ensurdeceu, mas a porta foi destroçada, voaram farpas da madeira a metros de distância e eu recarreguei a arma antes de entrar.
            Lá dentro estavam o meu dvd, o computador e algumas roupas, tudo desarrumado, jogado pelo chão, bem diferente do jeito que eu gostava de deixar.
            Em um canto, embaixo de uma mesa, estava o desgraçado. Era exatamente aquele veado vagabundo que trabalhou na garagem. Tinha conseguido informações preciosas sobre minha família enquanto estava lá. Soube da viagem dos meus pais; que eu ia ficar sozinho estes dias; deve ter roubado a chave da porta e devolvido depois de tirar uma cópia, para não levantar suspeitas. Desgraçado, agora estava lá, ajoelhado debaixo da mesa. Covarde! Não teve medo quando carregou minha tv para o porta-malas daquele carro podre estacionado ali em frente.
            Seu nariz estava inchado e tinha sangue escorrendo da boca e na gola da camisa. Provavelmente devido à batida de carro. Bem feito para ele. Devia ter morrido, o bastardo! Eu apontei o cano da espingarda bem no meio dos seus olhos. Ele tremia, soluçava, implorava para que eu não o matasse. Dizia que não queria me roubar, ia devolver tudo no dia seguinte...
            Besteira...
            Meu relógio apitou quatro horas da manhã, e eu puxei o gatilho. Os projéteis atingiram sua cabeça à queima-roupa e voaram pedaços de cérebro e sangue por toda a sala. O cano da espingarda ficou salpicado de vermelho, minhas mãos também.
            Liguei a televisão para ver se ainda funcionava e estava passando o filme do Charles Bronson. Que pena que ele morreu na vida real. Ninguém mais age como ele. Todos são trapaceados, roubados, mortos e não fazem nada. Ficam calados. O Bronson se orgulharia de mim se me visse agora, segurando aquela arma com a fumaça ainda saindo pelos dois canos quentes.
            Eu fiquei um tempo olhando o filme, então ouvi um soluço vindo de um quartinho ao lado, que nem porta tinha, apenas um lençol pendurado como se fosse uma cortina. Caminhei até lá apontando a arma. O quarto não tinha lâmpada. Notei duas figuras no escuro. Imaginei que fossem crianças ou mulheres, e bateu um pingo de remorso. Meu Deus, o que eu fiz? Mandei que saíssem de lá e viessem para a luz. Uma voz de mulher pediu: “Por favor, não machuque a gente!”.
            Saiu do quarto escuro um casal. A mulher, eu nunca tinha visto na frente, apesar da sua voz não ser estranha. E para minha grande surpresa, o homem era o segundo pedreiro da reforma. Aquele em quem eu confiava.
            Saíram os dois com as mãos na cabeça, com certeza acostumados a serem revistados pela polícia. Perguntei para a mulher se tinha sido ela quem havia me telefonado naquela noite, me deixando nervoso a ponto de ir até o hospital mais distante, vestido só de pijama, pensando ter acontecido alguma tragédia. Ela começou a chorar. Perguntei ao pedreiro por que ele tinha feito aquilo. Eu confiara nele, conversara amigavelmente, e ele só estava interessado em me roubar.
            Agora os dois choravam, vendo que eu tinha praticamente arrancado a cabeça do amigo deles com um tiro de espingarda.
            Obriguei os dois a colocarem todas as minhas coisas no meu carro. Ambos estavam machucados do acidente e assustados comigo. A mulher teve muita dificuldade para ajudar a erguer o televisor.
            Depois de terem colocado tudo no carro, obriguei-os a ajoelharem-se na minha frente e atirei na cabeça dos dois.

***

            Agora eu estou aqui nesta cela apertada e fria. Meus pais já foram avisados e tiveram a viagem interrompida.
Cacete! Vocês não entendem nada, mesmo. Fazem tudo errado. Vão passar a vida toda apanhando e levando a culpa. Se alguém lhes roubar, vão achar normal. Quem te ferrar vai sair sempre ileso, e vocês vão ficar olhando como idiotas, feito crianças que tiveram o doce roubado e não podem fazer nada além de chorar. Vocês acreditam que a violência vai ter um fim. Que a execução sumária não é o caminho para acabar com esse esgoto da sociedade.
            Vocês não são como o Charles Bronson, que não levava desaforo para casa. Vocês o desonram. Ele morreu por culpa de vocês, moscas-mortas. Eu não matei Charles Bronson. Vocês o mataram!

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