Tuesday, May 31, 2016

O Terno (L.F.Riesemberg)


Ajeitando o guarda-roupas, Malcolm viu algo que o deixou um tanto confuso. De um dos cabides pendia misterioso terno, que ele não reconhecia de modo algum. Tentou recordar onde o teria comprado, ou alguma ocasião em que o teria vestido, mas nada naquela peça lhe trazia qualquer lembrança em particular.

O terno tinha amassaduras, devido à pressão contra as outras roupas, e exalava o perfume de desconhecida colônia. “Nada que uma lavanderia não resolva”, pensou o homem.

Ele tentou não se incomodar com aquilo e deixou o terno de lado, sobre a cama, enquanto continuava a arrumação. Ainda havia muito trabalho a fazer. Porém, a insistente visão daquele traje lhe dava a desconfortável impressão de que um estranho estava ali no quarto. 

Para sair da dúvida, resolveu experimentar o paletó. Teria ficado elegante, não fossem duas polegadas a mais no comprimento das mangas. Definitivamente, não era seu. Talvez Laura soubesse de algo.

Mas a simples lembrança da esposa o deixou ainda mais aflito. Por que ela saberia a respeito da presença daquele terno em sua casa? E como ela conheceria o seu dono?

Malcolm pendurou o paletó na cadeira, imaginando o rosto do homem que o vestira. Lembrou-se que três anos atrás havia saído de casa por uns tempos. “Não, Laura não seria capaz”.

Tentava não pensar naquilo, certo de que iria esclarecer tudo assim que a mulher chegasse. Porém, desde que a ideia se instalara em sua mente, nada que fizesse lhe arrancava aquela amarga sensação.

Se tinha alguma certeza era a de que aquela vestimenta não lhe pertencia, e que estava há algum tempo em seu guarda-roupa, sem que se desse conta disso. Poderiam haver várias possibilidades para aquilo acontecer. Mas a imagem de Laura associada ao dono do terno era a mais recorrente.

Convicto da traição, Malcolm previu os cenários vindouros. Confrontar a esposa foi a primeira opção que lhe visitou, a fim de tomar-lhe a horrenda confissão. Mas e o porvir? Seria duro envelhecer sem ela ao lado. E por mais que a perdoasse, a vida a dois seria cheia de pesares, atormentados que seriam pela sombra daquele equívoco.

Outra alternativa seria manter-se calado. Poderia dar um fim naquele terno, que já estava mesmo esquecido, e varrer a suspeita para a terra do silêncio, sem incomodar a pecadora. Afinal, Malcolm reconhecia que, ele próprio, em termos conjugais, não fora sempre inocente.

E havia ainda a opção de mostrar o terno a ela, ocultando a desconfiança, apenas para ver qual seria sua reação, e fingir acreditar nela, seja qual fosse a desculpa por ela inventada. Este lhe pareceu o caminho mais acertado, porém a voz da consciência o alertou de que isso ainda era um modo de acusação, que certamente traria à tona um tormento desnecessário à alma da esposa.

Por que fora encontrar aquele terno? Tanta angústia teria evitado, simplesmente ignorando a prova daquele crime.

Finda a dolorosa reflexão, Malcolm tomou sua decisão baseando-se nas consequências de atitudes errôneas do passado, e optou por livrar-se daquela prova. Com álcool, na churrasqueira, incendiou aquela roupa, certificando-se de que havia se transformado em cinzas por completo.

Voltou ao quarto ainda em dúvidas sobre a atitude que acabara de tomar, em partes agradecendo por não mais poder acusar ninguém, o que evitaria uma violência desnecessária – seja física ou psicológica.

Logo Laura chegaria, e então tudo o que teria para tratar com ela seria a arrumação que, finalmente, ele estava pondo em prática, após muitos adiamentos. Ela lá o veria e, lembrando-se do terno, ficaria assustada, mas o temor evaporaria quando percebesse que a prova de sua traição não existia mais. Talvez ficasse confusa, mas com o tempo acabaria esquecendo-se daquele insólito evento, e continuariam lado a lado, até que a morte os separasse.

E Malcolm voltou ao trabalho, retirando outras peças do guarda-roupa, satisfeito pelo futuro alternativo que acabara de construir, quando de repente olhou, aturdido, para o cabide que tinha pegado há pouco. No mesmo lugar, com a mesma aparência, continuava lá, o terno maldito, o mesmo que havia acabado de incinerar.

Ele ainda não podia enxergá-los nem ouvi-los, por simplesmente se recusar a isso, mas ali, naquele mesmo quarto, Laura e o novo marido conversavam. “É hora de tirar as coisas do Malcolm daqui. Lá se vão três anos que morreu...”. 

4 comments:

  1. Gabriel RiesembergJune 03, 2016 10:20 AM

    Muito bom! Final surpreendente.

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  2. Eu desconfiei um pouco já quase no final,rs, mas não deixa de ser um ótimo conto. Às vezes penso em escrever alguns,tenho até facilidade pra as histórias surgirem, mas não sei se vão ficar legais assim rsrs.

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