Wednesday, June 10, 2015

O Andar Secreto (L.F.Riesemberg)



O senhor Sebastian trabalhava no prédio há mais de trinta anos, cuidando da manutenção. Conhecia cada teia de aranha daquele lugar.

-Ok, estou subindo – comunicou pelo rádio, assim que o chamaram para ver um problema no vigésimo sexto andar.

Entrou no elevador vazio e, no caminho até seu destino, uma pane elétrica interrompeu a subida. As luzes ficaram piscando e o painel que indicava o andar apagou por completo.

Acostumado, Sebastian foi logo abrindo sua caixa de ferramentas. Estava mexendo nos cabos quando o toque em um fio desencapado lhe causou uma pequena descarga elétrica na mão. Logo em seguida as luzes normalizaram e o visor voltou a funcionar.

Porém, havia acontecido algo estranho.

O elevador indicava estar parado no décimo terceiro, mas desde a inauguração do prédio nunca havia existido um andar com aquele número. Por superstição dos primeiros donos, os andares pulavam do doze para o quatorze.

Curioso, o zelador apertou o botão e a porta se abriu.

A colocar os pés para fora, ele notou, surpreso, um andar parecido com os demais. Mas ele conhecia o prédio em todas suas minúcias, e certamente nunca havia estado ali.

Foi tomado por um misto de excitação e medo, absorvendo cada detalhe do que via no corredor.

Havia apenas uma porta naquele andar, que Sebastian não hesitou em bater. Sem obter resposta, puxou a chave mestra do seu molho.

-Muito bem, vamos ver o que acontece aqui.

A fechadura abriu, e sorrateiramente ele empurrou a porta.

Era um apartamento escuro, antiquado, com cheiro de mofo, apesar de decorado com esmero. Um rico lustre pendia do teto sobre uma pesada mesa cheia de livros. Sebastian reparou em um telefone muito antigo, que parecia peça de museu.

-Bom dia! – falou –Tem alguém aí?

Tendo o silêncio como resposta, caminhou cada vez mais para dentro, notando a presença de artigos militares, como a miniatura de um tanque de guerra e um uniforme estendido sobre uma poltrona.

O zelador olhou em direção à suíte, e a porta estava aberta. Percebeu, apesar da escuridão proporcionada pelas cortinas, que na parede havia um quadro com um famoso símbolo pintado. O que aquilo significava mesmo?

A cama estava com a colcha bem esticada, mostrando que se alguém costumava dormir ali, já estava em pé. Isto se confirmou com o barulho de água caindo na pia do banheiro e uma música que começou a ser assoviada.

O instinto de Sebastian lhe dizia para sair, mas a curiosidade era maior. Tremendo, ele esticou o pescoço para ver melhor, e conseguiu enxergar o espelho, com o rosto de um homem fazendo a barba. Era um rosto conhecido. E com aquele peculiar bigode pequeno.

A imagem durou o suficiente até ser quebrada pela queda acidental do molho de chaves, que tilintou no chão.

-Wer ist da? – gritou o homem no banheiro, com uma voz muito potente.

Sebastian deu um passo para trás, vendo que o misterioso morador vinha em sua direção, com espuma no rosto, furioso e ameaçando-o com a navalha.

-Was willst du hier? Wer hat dich geschickt?

O zelador, sem entender uma só palavra, optou por dar as costas e correr para o elevador novamente, onde apertou um botão qualquer para sair logo dali.

Aquela foi a única vez que Sebastian conseguiu ir no décimo terceiro andar, e ninguém nunca acreditou em sua história. Hoje ele está aposentado, e quando passa pelo prédio, fica olhando para cima.

-Que diabos! – resmunga –O que ele fez para não envelhecer?

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