Friday, June 12, 2015

A Incrível Morte de Christopher Lee (L.F.Riesemberg)



Despertei recentemente de mais um longo sono. Desta vez adormeci por setenta anos, o que me revigorou totalmente. Eis um dos segredos da vida eterna!  
Tornei-me o que sou em 1626. Eu sonhava ser um grande ator, e fazia pequenos papéis num teatro mambembe. Foi em uma viagem com a trupe que conheci um sujeito muito estranho no interior da Inglaterra. Seu nome: Lee. Ele tinha um olhar sinistro e a voz hipnótica. Naqueles dias eu era apenas um jovem romântico, e assim que eu soube o que ele era, não resisti: implorei para que me tornasse igual a ele.
-Há outras formas de ser imortal – ele disse, antes de cravar os dentes em meu pescoço.
Durante muito tempo, não ouvi falar mais dele. Porém, acabei conhecendo outros de nós. Alguns eram obcecados por descobrir nossa origem. Mas eu, sinceramente, nunca me importei. Só sabia que Lee me fez assim, e nossos caminhos nunca mais se cruzaram.
A cada vez que saio de um descanso tão longo, preciso me adaptar à nova época. Ainda há pouco eu estava sentado em um cemitério, contemplando o luar, e o vento trouxe um jornal velho até os meus pés. Abri, para compreender melhor o mundo de hoje, e lá estava uma foto dele! Mesmo após séculos, era impossível esquecer aquele rosto.
Corri os olhos pela notícia, e vi seu nome: Christopher Lee. Ocupação: ator. Mas a reportagem era sobre sua morte.
Durante todo o tempo em que estive dormindo, ele estava trabalhando no cinema. E ironicamente, havia ficado famoso interpretando vampiros!
Ri alto, interessado na história daquele nobre amigo. Teria ele desistido da vida eterna? Às vezes eu mesmo me perguntava se valia a pena viver para sempre. Será que eu também não deveria voltar a ser aquele jovem romântico, e recuperar os sonhos de outrora?
Enquanto eu pensava essas coisas, ouvi passos logo atrás de mim. Meus sentidos são apurados e ninguém se aproxima tanto sem que eu perceba. A não ser, é claro, que seja um de nós.
-E então, Manolo? Tens aproveitado a imortalidade que tanto desejavas?
Aquela voz era inconfundível.
Não sei como me achou, mas tivemos uma breve conversa, que não quero esquecer.
-Uma vez eu disse que havia outras formas de se tornar imortal.
-Sim, Lee, eu lembro. Mas estão dizendo que você morreu.
-Oh, não. Farei apenas uma retirada, para um sono reparador.
-Entendi. Soube que você virou ator. Como foi isso?
-Meu caro, de nada vale existir, apenas. Por isso me dediquei a algo maior nesta vigília mais recente. Fiz mais de duzentos filmes, entre outras coisas.
-E de onde veio essa vocação para atuar?
-Simplesmente usei minha vasta experiência e contei ao mundo tudo aquilo que antes eu ocultava sob minha capa.
Fiquei olhando para ele, admirado. Apesar de sereno, estava com a aparência de velho. Naturalmente ele precisava de um longo sono para rejuvenescer - talvez em um seguro castelo de uma terra distante.
-Vamos nos reencontrar? – perguntei.
-Quem sabe? Quando eu acordar, gostaria de saber que você também gravou o nome neste mundo. O tempo voa, Manolo, e quando menos perceber, vai estar cansado e precisando deitar novamente. Aproveite bem os seus dias!
E, subitamente, ele se transformou em morcego e saiu batendo as asas, desaparecendo nas sombras da noite.

 Homenagem a Christopher Lee (1922-2015)

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