Saturday, August 02, 2014

Baú de brinquedos (L.F.Riesemberg)



Eric brincava sozinho no quarto, depois de espalhar todos os brinquedos pelo tapete. Divertia-se com cada carrinho e boneco que encontrava, e logo abandonava um para divertir-se com os outros. Quando percebeu que já havia usado todos os brinquedos, foi correndo até o baú para retirar mais alguns.
Levantou a tampa e olhou lá dentro. No fundo restava apenas um caminhãozinho. “Cadê meu trem?”, ele pensou. Não estava em lugar nenhum o lindo trenzinho que apitava e tocava músicas. Foi correndo chamar o pai, que estava no escritório ao lado. Mas Eric só tem um ano e meio, e não aprendeu a falar nada mais do que “papá” e “mamã”.
-O que você quer, meu amor? O papai está trabalhando. Fique mais um pouquinho aí com seus carrinhos.
Eric viu o pai sair e permaneceu sentado no tapete, entre os brinquedos. Mas ele queria o trem. Levantou-se e voltou ao baú, correndo com suas meias emborrachadas, e mais uma vez ficou na ponta dos pés para olhar lá no fundo. “Opa, mas que coisa mais estranha!”. Teve que chamar o pai mais uma vez para mostrar aquilo.
-Papá!
O pai parou o que estava fazendo.
-Eric, já disse para esperar mais um pouco. Eu logo termino e já vou brincar com você.
Frustrado, o menino voltou ao baú e ficou olhando os degraus prateados que haviam surgido lá dentro. O pai continuava concentrado na tela do computador e Eric sabia que não adiantava tentar tirá-lo de lá. A não ser que começasse a chorar, e foi o que fez.
-O que foi agora, meu filho? Tenha mais paciência, que estou acabando aqui. Cinco minutinhos!
Eric parou de chorar e viu que não adiantava chamá-lo. Voltou ao baú e os degraus continuavam lá. “Vamos ver aonde é que isso vai dar”, pensou, lembrando ainda que o trem deveria estar lá embaixo, no final daquela escada. Deu um jeito de entrar no baú e, desajeitadamente, desceu os degraus.
Após passar por uma cortina de luz, a escada acabou de repente e o bebê caiu sobre um morro de chocalhos. Tentou ficar em pé, mas os pés não se firmavam muito bem sobre as superfícies redondas dos objetos, e ele escorregava. Olhou ao seu redor e percebeu estar em um lugar muito diferente dos que se lembrava. Parecia um grande depósito, com milhares de pilhas de coisas feitas para crianças. Viu uma grande montanha de chupetas, outra de sapatinhos, um morro de carrinhos vermelhos, outro só com caminhõezinhos verdes, e um infinito de brinquedos de todos os tipos.
“Que lugar legal! Nunca mais quero ir embora!”, pensou.
Passou a engatinhar, já que era impossível andar sobre tantas coisas sem tropeçar. E do alto de um morro de ursos cor de rosa, ele avistou, à sua frente uma grande montanha de trenzinhos, e bem no topo estava o seu. Eric correu para lá, pisando com seus pezinhos os mais variados objetos, pouco importando-se com a dor ou com as quedas. Escalou a montanha de locomotivas dos mais diferentes estilos e países, até colocar as mãos naquela que era a sua.
“Que bom que te encontrei! Agora vamos brincar muito!”.
Mas Eric começou a se sentir incomodado naquele lugar. Afinal, onde estava? Não podia estar certo ficar por lá sem que o pai ou a mãe estivessem juntos. Assim, agarrado ao trenzinho, voltou a andar pelos morros de coisas até encontrar uma escada como aquela que tinha descido. Com muito esforço subiu os degraus, passou pela luz dourada e saiu dentro de um baú. À sua frente apareceu uma menininha que ele não conhecia. Ela ficou olhando para Eric, mais surpresa do que assustada, e perguntou, na língua dos bebês: “Foi você que pegou minha bonequinha?”. Eric entendeu que era para aquele lugar que iam parar todas as coisas perdidas de todas as crianças do mundo. Ele queria ajudar a menina a encontrar sua boneca, mas antes que pudesse respondê-la, sentiu uma forte pegada em seus pés e foi puxado escada abaixo, para o mar das coisas perdidas.
Caiu sobre uma quantidade absurda de mamadeiras, e reparou que era um duende que o havia derrubado. Ele não parecia muito feliz com Eric.
-Devolva o trem! – disse ele.
Eric, assustado, escondeu o brinquedo nas costas e foi caminhando de ré. Não queria entregar seu trenzinho. Era dele! Havia ganhado no aniversário.
“Não vou dar nada para você!”, disse o bebê. Mas o que saiu de sua boca foi algo mais parecido com “Ná!”.
O duende foi ficando mais furioso, e caminhava em direção ao menino. Com uma face ameaçadora, ele arreganhou os dentes. A criatura parecia disposta a recuperar o brinquedo a qualquer custo e preparou-se para atacar.
Eric viu o duende vindo para cima, quando repentinamente surgiu uma escada à sua frente, e ele subiu por ela o mais rápido que pôde. No desespero da fuga, deixou o trem cair degraus abaixo. Eric passou pela luz e, ao atravessá-la, reconheceu-se finalmente dentro do baú do próprio quarto. Escalou-o e caiu sobre o tapete, e antes de qualquer coisa fechou a sua tampa, que caiu sobre uma mão verde e pegajosa – o duende tentava entrar no quarto.
O bebê correu até o pai, mas a meia escorregou e ele caiu sentado. A mão verde estava conseguindo abrir a tampa do baú, quando finalmente o pai desligou o computador e foi em direção ao filho.
-Pronto, meu amor. Agora vamos brincar!
Eric agarrou a mão do pai o mais firme que conseguiu, e puxou-o até o baú. O pai entendeu que ele queria mostrar alguma coisa lá dentro e levantou a tampa. Olhou lá dentro, e franziu a testa. Impressionado, o pai tampou a própria boca e ficou com os olhos arregalados.
-Meu Deus, o que é isso dentro desse baú?
Sem demora, enfiou lá a mão. O bebezinho se preparou para gritar “ná!”, mas assim que o pai ergueu a mão novamente, ela segurava o seu querido trenzinho.
-Olha o que eu achei! 
E, vendo que o baú havia voltado a ser um móvel normal, com fundo de madeira, o bebê sorriu de felicidade e abraçou-se às pernas do “papá”.

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