Saturday, January 14, 2012

A Emissora (L.F. Riesemberg)

Passava das três da manhã, e a estrada continuava vazia à minha frente. Nessas regiões desertas, onde os postos de gasolina ficam a cada quinhentos quilômetros, é melhor nem pensar no pior. Eu viajava sozinho, e o celular estava sem sinal. Um pneu furado, uma pane no motor ou falta de combustível poderiam me trazer muito mais que um mero atraso.
    Depois de horas dirigindo, o sono me fez ligar o rádio do carro para eu procurar alguma estação que tocasse boa música ou, ao menos, um locutor falando qualquer bobagem. Era importante algo que me mantivesse bem desperto.
    Girei o botão do aparelho de uma ponta a outra, e somente a ruidosa estática saiu das caixas de som.
Ainda sem tirar os olhos da rodovia, dei mais uma chance ao velho rádio e continuei a busca, até que aos poucos uma música foi surgindo entre a chiadeira. Estacionei o marcador num ponto em que o som ficava quase livre dos ruídos e me contentei daquele jeito. Agora meus ouvidos teriam companhia enquanto a antena do carro captasse aquela emissora.
    Tocava uma ótima canção de rock antigo, cantada em Inglês por um vocalista rouco acompanhado de um instrumental afiado. Feliz com o achado, logo eu passei a assobiar o grudento refrão enquanto pisava fundo no acelerador. Lá fora, as estrelas brilhavam no céu, e eu seguia a solitária viagem.
    Tive pena quando a canção foi se esvaindo, anunciando seu fim, e fiquei atento para ouvir o locutor dizer o nome da maravilhosa banda que a tocava. Porém, a essas horas da madrugada a programação é geralmente automática, sem locução, e acabei esquecendo aquela música assim que começou a seguinte.
    Quando os acordes da outra canção inundaram o interior do veículo, fiquei na dúvida sobre qual seria a banda tocando. Mas assim que o primeiro verso foi cantado, não tive mais dúvidas: era um conhecido astro dos áureos anos do verdadeiro rock n’ roll.
    Nunca fui um grande fã do cara, mas havia várias de suas canções que eram gostosas de ouvir, e aquela era uma delas. Porém, com minha pouca familiaridade com a carreira do ídolo, também não reconheci aquela faixa.
    Minha viagem avançava mais rápido ouvindo a ótima estação de rádio. O deserto parecia lindo lá fora, iluminado pelo luar.
    Inundado pelas boas vibrações que a música exercia sobre mim, segui em êxtase, canção após canção, com os olhos colados na estrada, mãos ao volante, pés ao acelerador e, sobretudo, com os ouvidos bem atentos ao formidável som dos auto-falantes.
    Depois de uma bateria de ótimos exemplares do cancioneiro antigo, a suave voz de um locutor finalmente se comunicou com os ouvintes. Ele anunciou as últimas faixas executadas, e dei conta de que conhecia a maioria daquelas bandas, mas nunca tinha ouvido falar em nenhuma daquelas canções. Achei que fosse um programa especializado em músicas raras de artistas conhecidos. Algumas rádios faziam esse tipo de programação, mas dificilmente uma música obscura de uma banda famosa era tão boa como qualquer uma daquelas que estavam tocando naquela estação.
    Depois da intromissão, o locutor agradeceu a audiência e fez uma breve descrição do programa, com sua voz impecável:

    Novas canções de grandes artistas que voltaram há pouco tempo da Terra.
    Só aí é que fui me dar conta de que a programação era composta exclusivamente por faixas de músicos mortos. Achei muito curioso o comentário do radialista, mas o que ele disse parecia errado. Ou então eu é que devia não ter ouvido muito bem.
    Ainda estava pensando nas estranhas canções que acabara de ouvir, e no ainda mais estranho comentário do radialista, quando percebi que a voz que passou a cantar em seguida no rádio era de uma intérprete muito conhecida no meu país, já falecida há décadas. Porém, por mais incrível que parecesse, ela cantava uma canção novíssima, um sucesso que outro artista havia emplacado cerca de três meses atrás!
    No exato segundo da descoberta ouvi um estouro. O carro deu um tranco, rodopiou e foi parar fora da pista, chocando-se com uma árvore. O para-brisa estourou, espalhando fragmentos de vidro por todo o interior do veículo. Minha cabeça bateu no volante e por um momento tudo ficou preto e quieto.
    No baque, o rádio parou de funcionar. Mesmo depois que voltei a ficar calmo, não me preocupei em tentar ligá-lo outra vez. Minha maior preocupação seria me certificar de que eu não estava muito ferido e de que o carro funcionava.
    Aparentemente eu estava bem. O carro, não. Tentei várias vezes fazer o motor funcionar, mas não consegui. Finalmente eu estava vivendo um de meus maiores pesadelos: ficar sozinho na estrada, com o carro estragado e um celular sem serviço.
    Os ponteiros do relógio ainda marcavam na casa das 3 horas da manhã. Desde criança, sempre achei que esta era a pior hora da noite. Tarde demais para se estar acordado, cedo demais para esperar que o Sol apareça.
    Como eu sempre sofri de ansiedade, não aguentei ficar esperando ali dentro. Mesmo que passasse algum veículo pelo local — e eu parecia ser o único motorista a estar na estrada naquela noite — seria perigoso pedir ajuda para um estranho àquele horário. E esperar o dia raiar para só então ir atrás de um posto de gasolina era muita perda de tempo.
    Tranquei o carro e fui caminhando pela beira da rodovia, usando apenas a lua para iluminar meu caminho. Como eu já não via um posto há muito tempo, era possível que o próximo não estivesse tão longe.
    Fui apressado, mas estava distraído, ainda pensando na misteriosa estação de rádio que ouvi antes do acidente, e assoviando os refrões que continuavam na memória. Andei por um bom tempo pelo acostamento, sem que nenhum carro passasse por mim e sem encontrar nenhuma placa dizendo a quantos quilômetros ficava o próximo posto.
    Resolvi voltar ao carro. Lá, ao menos eu poderia tentar ouvir mais um pouco de música — seja lá de onde ela viesse.
    Fiz todo o percurso de volta respirando a suave brisa da noite, que parecia particularmente longa demais.
    Quando cheguei ao ponto em que o carro bateu, vi algo ainda mais estranho que me aguardava sentado no assento do motorista.
    Aproximei-me com cuidado, esperando explicar racionalmente tudo o que estava se passando, mas no fundo eu já sabia o que eu ia encontrar.
    Abri a porta, sem pressa, para me certificar do que estava ali. Minha constatação não foi a mais feliz possível.
    Era absurdo, mas vi a mim mesmo, com a cara enfiada na direção, sangue quase seco na roupa e todo o corpo preocupadamente imóvel.
    Chegara o meu fim, e só então eu me dava conta.
    Ajoelhei-me na terra, ao lado do carro, e desatei a chorar.
    Minha vida não tinha sido bem aproveitada, e ainda havia várias questões pendentes a tratar com muitas pessoas. Aquela própria viagem que eu fazia era com um objetivo nada nobre, sendo que eu tinha tido a oportunidade de deixar todo o meu passado negro de lado e trilhar um caminho honesto.
    Comovido e desesperado, implorei por uma nova chance. Daria tudo para poder voltar para casa, abraçar a família, fazer as pazes com os desafetos e colocar em prática velhos planos.
    Fiquei naquele estado, tapando os olhos com as mãos para não ter mais aquela terrível visão da minha própria morte.
    Neste momento algo me lembrou a estação de rádio, me fazendo acreditar que as pessoas mortas continuavam a viver em uma outra dimensão, e faziam trabalhos ainda mais inspirados do que em vida.
    Mesmo assim era muito doloroso pensar em abandonar as pessoas queridas e tantas coisas pela metade, sendo que eu poderia terminá-las de um jeito melhor. As lágrimas continuavam a escorrer pelo meu rosto e, pela primeira vez em muitos anos, rezei e pedi perdão a Deus pelo rumo que minha vida tinha tomado.
    Logo após isso, de súbito caí em mim e passei a sentir uma forte dor de cabeça. Abri os olhos e, depois que eles voltaram a enxergar direito, vi que eu estava outra vez no assento do carro parado, com a cabeça caída sobre a direção.
    Os primeiros raios de Sol surgiam no horizonte, e um senhor que havia estacionado sua camionete no acostamento tentava falar comigo.
    — Você está ferido, rapaz? Ficou inconsciente por um bom tempo!

    O rádio continuava ligado, com o marcador das estações no mesmo ponto de antes. Mas dos auto-falantes só saía estática.  

3 comments:

  1. Quando eu crescer, quero ser fazer algo igual a você. Tenho vontade de escrever, mas o que sai não é tão bom. Vou tentar exercitar escrevendo e talvez alguma coisa de bom saia algum dia.

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  2. Olá, obrigado pela publicação gratuita deste conto incrivel, que me manteve fixo a telinha do começo ao fim. Boa noite.

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  3. 04.06.2012...pq será q só qndo estamos na pior é q surge a vontade de consertar tudo?

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