Sunday, October 08, 2006

A Cápsula do Tempo

Luiz Fernando Riesemberg

Quando somos crianças, fazemos coisas que ficam guardadas para sempre na memória. No meu caso, não consigo esquecer de uma brincadeira muito particular: eu pegava alguns objetos, como algum bonequinho velho, moedas de pouco valor, botões de camisa ou recortes de jornal, os fechava dentro de alguma lata, e enterrava no quintal. Era a minha cápsula do tempo, que algum dia no futuro seria aberta por alguém que não viveu a minha época. Aquelas coisinhas sem valor valeriam uma fortuna em um futuro distante, quando alguém as desenterrasse. É claro que, como qualquer criança curiosa, eu mesmo cavava a terra depois de algumas semanas para ver como as coisas estavam. Aprendi que deveria usar materiais como plástico ou vidro para guardar os objetos. Uma garrafa de água mineral era perfeita, porque podia conservar qualquer tipo de coisa debaixo da terra – até mesmo papel. Como minha família mudava-se muito, acabei deixando algumas cápsulas no único lugar em que elas deveriam realmente ficar: debaixo do solo e longe da minha tentação de desenterrá-las. Cresci e, como todo mundo, acabei esquecendo a maioria dos meus sonhos de infância. Até mesmo das cápsulas do tempo. Só fui pensar nelas depois que meu próprio filho, com oito anos de idade, começou a enterrar seus brinquedos no quintal. Eu fiquei atento para saber o que ele escolheria para ficar para a posterioridade, e meus olhos se encheram de lágrimas ao vê-lo pegando meu velho aparelho de barbear e colocando na caixa. Aquilo foi até então o momento que mais orgulho senti, mas ainda assim não interferi em sua brincadeira. Vi que ele escolheu atentamente um objeto de cada pessoa da casa. Além do que me representava, colocou uma fivela de cabelo da mãe e um soldadinho de plástico dele mesmo. Mas teria que aprender por conta própria que uma caixa de sapatos não suportaria a primeira chuva. Algumas semanas depois meu filho já tinha feito a descoberta, porque também não resistiu à tentação de desenterrar para dar uma olhadinha nas coisas. Eu, sem falar nada a respeito, lhe dei uma garrafa plástica, “para brincar”, e ele entendeu o recado. Logo enterrou a garrafa bem tampada. Deve ter depositado objetos menores em seu interior, para que conseguissem entrar pelo gargalo apertado. Naqueles dias eu recordei muito do meu tempo de criança, e tentei lembrar de algumas outras coisas que eu tinha enterrado. Sabia que tinha pelo menos uma carta que eu havia escrito para o alguém do futuro que viesse a achá-la. Só não conseguia lembrar o que eu havia escrito, nem em qual quintal enterrei, mas tinha certeza que havia feito. Enfim, enquanto eu vivia aquela gostosa sensação de ver meu filho experimentar o que eu também tinha vivido na infância, as coisas estranhas começaram a acontecer. Um dia ele estava no quintal, como de costume fazendo buracos com a pá, e gritou por mim. Ele estava irradiante e ao mesmo tempo assustado: tinha encontrado alguma coisa enterrada há muito tempo em nosso terreno. A princípio achei que fosse uma brincadeira, e que ia me mostrar uma de suas próprias cápsulas. Ou então poderia ser qualquer coisa sem importância, pois era comum aos antigos enterrar o próprio lixo. Mas o que vi saindo da terra não era nada que eu já tivesse visto antes. Fiquei dias ouvindo meu filho orgulhoso dizendo a todos que havia descoberto um tesouro. A princípio também me senti como ele, ao olhar aquele belo baú de madeira escura na minha escrivaninha, já devidamente limpo e lustrado, depois de ser arrancado imundo da terra. Não era grande como os que aparecem nos filmes de piratas – tinha cerca de trinta centímetros – mas emanava um mistério que o fazia parecer ser o maior do mundo. Toda a minha vida passou diante dos meus olhos ao saber que alguém – provavelmente algum garoto – tinha tido a mesma idéia muito antes de mim, e que eu próprio tinha aberto uma cápsula muito mais antiga que a minha. Meu filho perdeu o interesse pelo conteúdo quando soube que lá só havia papéis velhos. Porém, tive a certeza de que nada fazemos em vão. Era o meu destino abrir aquela caixa de Pandora, e eu não teria feito isso caso não influenciasse meu filho a brincar de enterrar coisas, e se não tivesse tantas boas lembranças sobre as que eu mesmo enterrei. Meu mundo parou quando rompi a fechadura do baú e descobri ali uma espécie de diário de quem o enterrou. Era na verdade uma porção de folhas amareladas, amarradas com fio de lã através de um furo na lateral. Era o livro criado por uma criança. Uma espécie de diário feito à mão. As páginas estavam um pouco borradas de tinta. Fiquei imaginando o menino mergulhando a pena no tinteiro para escrever com aquela sua caligrafia irregular. Li a primeira página com lágrimas nos olhos, lembrando da minha infância e imaginando a repercussão que poderia ter aquela fantástica descoberta. “Meu nome é Ulisses, tenho doze anos e hoje é dia 27 de agosto de 1917”. A primeira frase já encheu meu coração de alegria. Ulisses era o nome do garoto. Naquele momento senti que nós dois nos daríamos muito bem. Mesmo sabendo que provavelmente ele já estava morto enquanto eu lia aquilo. Continuei a ler: “Meu pai foi para a guerra e me deixou um presente. Ele disse que sempre que eu tivesse saudades dele, era para olhar para a pedra vermelha do medalhão. Nas primeiras vezes eu não vi nada. Mas depois descobri como fazer certo: eu tinha que lembrar de algum momento feliz que tive com ele, e o que eu pensava aparecia na pedra”. Não poderia ter começado a leitura de forma mais sentimental. Imaginei o tal presente que o pai dera ao menino como sendo algum amuleto sem qualquer valor material ou místico. A memória do garoto é que o fazia ver os momentos felizes que teve junto ao pai. Logo, pensei comigo, ele descobriria que o medalhão não servia para nada, e que o verdadeiro significado do presente recebido estava nas lembranças que os dois teriam enquanto estivessem separados. A leitura prosseguiu: “Quando consegui pela primeira vez, vi meu pai me carregando nos ombros. Foi engraçado porque eu não lembrava detalhes, como a calça marrom que ele usava, ou os meus sapatos desamarrados. Mas olhando o que aparecia na pedra preciosa do medalhão, pude perceber melhor essas coisas que tinha esquecido”. Dei uma folheada para ver se o texto era extenso, e contei dezesseis folhas. Aquilo estava sendo mais interessante do que eu planejara. Aproveitei para dar boa noite à minha esposa e ao meu guri, e fui ler na sala, por que eu já sabia que não pegaria no sono enquanto não acabasse de ler tudo. Estranhamente, nesse ponto, antes de ir para a sala e terminar a leitura, lembrei-me do nome do meu primeiro amor. Eu tinha feito um cartão para ela, onde escrevi alguns versinhos, e enterrei em alguma das minhas cápsulas. Nunca mais a vi depois que nos mudamos, e só naquele momento, depois de mais de trinta anos, fui me recordar dela. Talvez algum dia alguém encontre meus primeiros e últimos versos apaixonados que fiz para alguém que nunca os lerá. Ulisses tinha escrito mais sobre outras memórias suas: “Uma vez eu segurei o medalhão bem apertado, e fiquei tentando lembrar o dia em que nasci. Olhei para a pedra vermelha e pude ver meu pai e avô orgulhosos olhando para minha mãe na cama, com um bebê no colo. Ela me embalava e estava sorrindo, com uma fita vermelha prendendo seu cabelo”. “Um dia eu me concentrei no momento em que um pai tinha feito aquela enorme cicatriz na perna. Achei que não ia conseguir ver nada, porque isso tinha acontecido antes de eu nascer. Mas depois de um tempo, logo reconheci aquele menino caindo de uma árvore e começando a chorar de dor. Era meu pai aos treze anos...”. Eu não queria mais parar de ler, mas aquilo estava mais parecendo uma história de ficção. Talvez fosse isso mesmo: apenas um conto fictício que alguém criou e resolveu enterrar. Eu guardava brinquedos nas minhas cápsulas. Outras pessoas poderiam guardar o que elas bem entendessem. Se os papéis não tivessem aquela cor e cheiro característicos, eu poderia duvidar que realmente datassem do ano anunciado. “Um dia meu pai ficou um tempo muito grande sem escrever, e fiquei bem preocupado. Peguei o medalhão e tentei encontrá-lo. Pensei por um bom tempo em onde ele poderia estar, e por que tinha parado de mandar notícias. O que vi surgir na pedra vermelha me deu um aperto no coração: ele entrava em uma casa em chamas para salvar uma menina. Lá dentro, o fogo era muito forte, e ele acabava nunca mais saindo de lá. Soube depois de algumas semanas que ele tinha morrido exatamente daquele jeito.”. O último parágrafo me fez estremecer no sofá da sala. Mesmo duvidando de que aquela história era real, o suspense me fez imaginar o poder que aquela jóia trazia ao menino. Era como ter um canal que mostrasse o que acontecia em qualquer hora, em qualquer lugar, mesmo que mais ninguém tivesse visto. Era uma verdadeira bola de cristal, aquilo. Mas o mais impressionante vem a seguir. “Quando vi que podia usar a pedra para saber o que acontecia em outros lugares, procurei imaginar o que seria de mim agora que estava sozinho. Me vi mais velho, vestido de soldado, como meu pai. Eu atirava com uma arma estranha, quando de repente um tiro me atingia. Eu caía no chão, procurando de onde vinham os tiros, mas ia sendo atingido mais e mais vezes, até fechar os olhos e não abrir mais.Depois disso guardei o amuleto e decidi nunca mais usá-lo, porque o que vi me assustou bastante”. Eu só queria lembrar que a data em que esse texto foi escrito, teoricamente, é 1917. Como é possível que o menino visse a própria morte, possivelmente a uns vinte anos mais tarde, talvez na Segunda Guerra Mundial? Sim, só podia ser ficção. Pela última frase, achei que o medalhão não participaria mais da vida do garoto, mas me enganei. Ele tinha uma ferramenta muito poderosa nas mãos, que podia ver o futuro. A partir daí começou a pensar nos anos que seguiriam e a anotar tudo o que via na pedra vermelha do amuleto mágico. Assim como o profeta Nostradamus, previu muita coisa que realmente aconteceu. A maior parte do conteúdo daqueles textos se referia a grandes acontecimentos históricos do século XX. Não havia menções a datas, locais ou nomes, mas pelos meus conhecimentos pude identificar a descrição da morte de Hitler e fim da guerra, o assassinato de John Kennedy, a chegada do homem à Lua. Quanto mais eu lia, mais os fatos descritos iam se aproximando da minha época, e foi me causando calafrios. Se aquilo fosse uma farsa, tinha sido montada há muito pouco tempo. Mas quem é que ia enterrar um baú antigo no meu quintal? Além disso, eu já morava nessa casa há mais de cinco anos, e nunca tinha sido enterrado nada naquele gramado, antes do meu filho começar com a brincadeira. Continuei lendo as páginas restantes, suando frio com a possibilidade de alguma descoberta ainda mais surpreendente. Na última página dos escritos, depois de eu ler descrições sucintas do que só poderia ser a queda do muro de Berlim e os atentados terroristas ao World Trade Center, fiquei ainda muito mais chocado. “Um homem de olhos escuros e cabelos grisalhos vai encontrar esses papéis.” – esse homem era eu!!! A partir daqui, eu iria ler sobre meu futuro. E não seria nada animador. Uma revolta da natureza seria a responsável pela destruição da maior parte do planeta. Não havia nenhuma data ou local, mas não pude deixar de imaginar meu tempo sendo destruído por ondas gigantes, terremotos e furacões. Na minha mente, o mundo acabaria dentro de poucos dias. Talvez naquela mesma noite. Em um ímpeto de fúria, juntei todas as folhas e as joguei na lareira. Minha família não gostaria de saber dessa história perturbadora. Mesmo que fosse brincadeira de mau gosto de alguém querendo me pregar uma peça, achei melhor acabar com tudo aquilo. Com as páginas queimadas, chegou a vez de jogar aquela caixa de madeira que tinha trazido aquela baboseira para minha casa. A arremessei com força dentro da lareira, e ela se desfez em pedaços. Nisso, ouvi um som metálico e notei um brilho intenso vindo do fogo. Não pude crer, mas o torpor em que eu estava me fez rir, e puxei o medalhão para fora da lareira com a ajuda de um espeto. Fiquei observando atentamente a jóia. Era muito linda, e pude finalmente descobrir como era a tal pedra vermelha onde o menino via as imagens do futuro. Na verdade era um rubi enorme, e ficava no centro de uma medalha de ouro com inscrições egípcias. Devia haver um fundo falso no baú, onde a rara peça estava oculta. Olhei para as cinzas das páginas na lareira, e depois voltei meus olhos bem para o centro daquela gema enorme. Se ela fosse real como parecia, eu seria o homem mais poderoso do mundo, capaz de prever tudo, e seria disputado por todas as nações. Em troca disso, eu teria que conviver com a desgraça de saber a hora da minha morte, e também a da minha esposa e do meu filhinho. Isso seria ainda pior que saber qualquer coisa sobre o fim do mundo. Olhei fixo para o amuleto, e me concentrei em mim mesmo. Havia muita coisa em jogo caso aparecesse alguma imagem na pedra. Olhei atentamente, sem enxergar nada além do brilho dos meus olhos refletidos o rubi. Olhando bem no fundo da pedra, pude aos poucos notar alguma imagem se movendo. Tudo clareou diante de mim, como se uma tela de cinema aparecesse. O que eu vi foi a minha própria imagem, ainda menino, enterrando uma garrafa plástica com muitos brinquedinhos dentro. Eu enxerguei no amuleto a última cápsula que enterrei, junto com meus versinhos de amor. Pude ver perfeitamente o local onde havia enterrado, e logo soube que aquele tesouro da minha infância estava mais perto do que eu podia imaginar, conservado debaixo da terra. Procurei olhar o que aconteceria a seguir, e me vi na imagem que aparecia no rubi como adulto, voltando ao lugar onde morei quando criança e desenterrando a cápsula. Então eu lia a carta que havia escrito para o meu “eu”do futuro. Sei que se eu começasse a pensar no meu futuro, ou no de toda a humanidade, acabaria tendo problemas. Não quis pensar em nada além daquilo, para o meu próprio bem. Mas quem resistiria àquela tentação? Concentrei-me a pensar na minha família. Só queria saber se algum dia eles estariam em perigo, de modo que eu pudesse prevenir qualquer mal. Um tremor percorreu meu corpo. A imagem que saía do talismã escureceu, e vi meu filho já adolescente, andando sozinho numa rua à noite. Um homem mascarado começa a segui-lo e o agarra pelas costas, para depois jogá-lo dentro do porta-malas de um carro. Meu filho acorda assustado em um banheiro imundo, amordaçado e com as mãos presas por correntes. O homem mascarado me telefona para acertar o preço do resgate. Eu apareço sozinho no local – uma fábrica abandonada - levando uma bolsa com o dinheiro. O homem me agarra e me tranca amarrado em uma despensa. Consigo me livrar das amarras e procuro algum objeto que sirva de arma. Por sorte, encontro uma motosserra. Puxo a corda e ela engasga, engasga outra vez, mas logo começa a funcionar. Serro a porta e saio à procura do mascarado. O encontro lutando com meu filho, que tinha conseguido se livrar das correntes, mas seria executado pelo seqüestrador. Chutei o desgraçado para o canto e usei a motosserra para acabar com a raça do sujeito. Os azulejos do banheiro foram manchados de vermelho por uma chuva de sangue e deixei o bandido em pedaços, para depois sair abraçado com meu filho. E chega. Não quis mais olhar para aquele bizarro talismã, e nem quero que alguém o descubra. Por isso, estou fazendo como fez Ulisses: enterro essa jóia, junto com meu relato de como a conheci. Não quero saber mais nada sobre meu futuro. Se algum dia alguém desenterrar esta cápsula, vai saber em que época ela foi usada e poderá fazer um uso melhor do que eu faria hoje. Não sei se o mundo será devastado pela natureza enquanto eu ainda estiver vivendo. Também não sei se tudo o que vi se projetar diante dos meus olhos vai acontecer realmente. É claro que tomarei precauções para que essa história horrível de seqüestro não aconteça. Só sei que ninguém deveria saber como será o dia de amanhã. A minha época não está preparada para conviver com tal poder. O material desta cápsula que estou enterrando hoje, no dia 06 de outubro de 2005, é muito mais resistente do que as velhas latas ou garrafas de água. Também estou tomando o cuidado de depositá-la bem fundo no solo, de modo que nenhuma criança venha a desenterrá-la em pouco tempo. Não sei se Ulisses realmente teve o fim que previu no amuleto, mas eu não quis saber como seria a minha morte. Espero sinceramente que quando essa cápsula for aberta, o mundo esteja em ordem, em paz e habitado por seres que o mereçam.


2 comments:

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  2. está muito bom... o texto eu li-o todo...

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