Saturday, May 23, 2015

O Homem do Sul (Roald Dahl)

("The Man From The South", traduzido por L.F.Riesemberg)




Era perto das seis horas, então eu pensei em comprar uma cerveja e sentar-me em uma espreguiçadeira à beira da piscina para tomar um pouco do sol da tarde.

Eu fui para o bar, peguei a cerveja, levei-a para fora e desci o jardim em direção à piscina.

Era um belo jardim com gramados, canteiros de azaléias e altos coqueiros, e o vento soprava fortemente através das copas das palmeiras que faziam as folhas silvarem e crepitarem como se estivessem em chamas. Eu podia ver os aglomerados de grandes nozes marrons por baixo das folhas.

Havia muitas espreguiçadeiras ao redor da piscina, mesas brancas e enormes guarda-sóis coloridos e homens e mulheres queimados de sol sentados ao redor em trajes de banho. Na piscina havia três ou quatro meninas e cerca de uma dúzia de meninos, todos fazendo muito barulho e jogando uma grande bola de borracha uns para os outros.

Fiquei a observá-los. As meninas eram garotas inglesas do hotel. Os meninos eu não sei, mas eles pareciam americanos, e imaginei que eram provavelmente cadetes navais que tinham vindo do navio de treinamento dos EUA, que tinha chegado no porto naquela manhã.

Fui até lá e sentei-me sob um guarda-sol amarelo, onde havia quatro lugares vazios. Acomodei minha cerveja e recostei-me confortavelmente com um cigarro.

Era muito agradável estar lá na luz do sol com cerveja e um cigarro. Era agradável sentar e observar os banhistas se molhando na água verde.

Os marinheiros americanos estavam se dando bem com as garotas inglesas. Eles haviam alcançado o estágio em que mergulhavam e passavam sob suas pernas.

Só então notei um homem pequeno e velho andando rapidamente em torno da borda da piscina. Ele estava impecavelmente vestido com um terno branco e andava muito rapidamente, ficando na ponta dos dedos dos pés a cada passo. Ele usava um grande chapéu panamá cor de creme, e vinha ao longo do lado da piscina, olhando as pessoas e as cadeiras.

Ele parou ao meu lado e sorriu, mostrando duas fileiras de dentes muito pequenos, desiguais, ligeiramente manchados. Eu sorri de volta.

"Desculpe, mas posso sentar aqui?"

"Certamente", disse eu. "Vá em frente."

Ele deu a volta por trás da cadeira e inspecionou para ver se era segura. Em seguida sentou-se e cruzou as pernas. Seus sapatos de camurça brancos tinham pequenos buracos para ventilação.

"Uma bela noite", disse ele. "Elas são todas belas aqui na Jamaica". Eu não poderia dizer se o sotaque era italiano ou espanhol, mas eu tive certeza de que ele era sul-americano. E muito velho, quando visto de perto. Provavelmente na faixa dos sessenta e oito ou setenta.

"Sim", eu disse. "É maravilhoso aqui, não é?"

"E posso saber quem são esses? Não são hóspedes do hotel". Ele estava apontando para os banhistas na piscina.

"Eu acho que são marinheiros americanos", disse a ele. "Americanos que estão aprendendo a ser marinheiros."

"Claro que são americanos. Quem mais no mundo iria fazer tanto barulho assim? Você não é americano, é?"

"Não", eu disse. "Não sou."

De repente, um dos cadetes americanos estava em pé na nossa frente. Ele saiu pingando da piscina e uma das garotas inglesas estava ali com ele.

"Estas cadeiras estão ocupadas?" ele disse.

"Não", respondi.

"Se importa se eu me sentar?"

"Fique à vontade."

"Obrigado", disse ele. Ele tinha uma toalha na mão e quando sentou-se ele a desenrolou e tirou um maço de cigarros e um isqueiro. Ele ofereceu os cigarros para a menina e ela recusou; em seguida, ele ofereceu-lhes para mim e eu tomei um. O homenzinho disse: "Não, obrigado, mas acho que eu tenho um charuto." Ele tirou um estojo de crocodilo e pegou um charuto, em seguida ele tirou uma faca, que tinha uma pequena tesoura e cortou a ponta do charuto.

"Aqui, deixe-me te dar fogo." O menino americano pegou o isqueiro.

"Não vai funcionar neste vento", disse o velho.

"É claro que vai. Ele sempre funciona."

O homenzinho tirou o charuto apagado de sua boca, inclinou a cabeça de um lado e olhou para o menino.

"Sempre?", ele disse suavemente.

"Claro, ele nunca falha. Não comigo."

A cabeça do homenzinho ainda estava inclinada para um lado e ele ainda estava olhando o menino. "Bem, bem. Então você diz que esse famoso isqueiro nunca falha. É isso?"

"Claro", disse o garoto. "Isso mesmo." Ele tinha cerca de dezenove ou vinte anos, um rosto comprido, sardento e um nariz pontudo como o bico de um pássaro. Seu peito não estava muito queimado de sol e havia sardas lá também, e algumas mechas de pelos avermelhados. Ele estava segurando o isqueiro na mão direita, pronto para girar a roda. "Ele nunca falha", disse, agora sorrindo porque estava exagerando de propósito. "Eu prometo a você que ele nunca falha."

"Um momento, por favor", disse o velho. A mão que segurava o charuto foi ao alto, palma para fora, como se estivesse parando o tráfego. "Agora só um momento." Ele tinha uma voz curiosamente suave, inalterada, e ficou olhando para o menino o tempo todo.

"Não poderíamos talvez fazer uma pequena aposta?". Ele sorriu para o menino. "Não devemos fazer uma pequena aposta sobre se o seu isqueiro acende?"

"Claro, eu aposto", disse o menino. "Por que não?"

"Você gosta de apostar?"

"Claro, eu sempre aposto."

O homem parou e examinou seu charuto, e devo dizer que eu não gostava muito do jeito que ele estava se comportando. Parecia que ele já estava tentando fazer aquilo, e queria envergonhar o garoto. Ao mesmo tempo eu tinha a sensação de que ele estava saboreando sozinho um pequeno segredo.

Ele olhou novamente para o menino e disse lentamente: "Eu gosto de apostar também. Por que não fazemos uma boa aposta disso? Uma aposta grande?

"Agora espere um minuto", disse o menino. "Eu não posso fazer isso. Mas eu aposto um dólar, ou o que eu tiver a mais que isso – só uns trocados, eu acho."

O homenzinho acenou com a mão novamente. "Ouça-me. Agora nós temos um pouco de diversão. Nós fazemos uma aposta. Depois subimos para o meu quarto aqui no hotel onde não tem esse vento e eu aposto que você não pode acender esse famoso isqueiro por dez vezes sem falhar nenhuma vez. "

"Eu aposto que posso", disse o menino.

"Tudo bem. Bom. Nós temos uma aposta, então?"

"Claro. Eu aposto uma prata."

"Não, não. Eu faço uma aposta mais alta. Eu sou um homem rico e também competitivo. Ouça-me. Na frente do hotel está o meu carro. Um carro muito bom. Carro americano, do seu país. Cadillac".

"Ei, espere um minuto." O rapaz recostou-se na cadeira de praia e riu. "Eu não posso bancar esse tipo de aposta. É loucura."

"Não é nenhuma loucura. Você acende dez vezes o isqueiro e o Cadillac é seu. Você gostaria de ter este Cadillac, sim?".

"Claro, eu gostaria de ter um Cadillac." O menino ainda estava sorrindo.

"Tudo bem. Tudo bem. Nós fazemos uma aposta e eu coloco meu Cadillac."

"E como eu cubro isso?"

"O homenzinho cuidadosamente removeu a faixa vermelha do charuto ainda não aceso." Eu nunca pediria a você, meu amigo, para apostar algo que não pudesse pagar. Você entende? "

"Então o que posso apostar?"

"Uma coisinha que você não usa tanto, e que se acontecer de você perdê-la não iria se sentir muito mal, certo?"

"Como o quê?"

"Como, talvez, o dedo mindinho de sua mão esquerda."

"Meu o quê?”. O menino parou de sorrir.

"Sim. Por que não? Você ganha, você toma o carro. Você perde, eu levo o dedo."

"Eu não entendo. O você quer dizer com levar o dedo?"

"Eu corto ele fora."

"Besteira! Essa é uma aposta maluca. Acho que só vou fazer isso valendo um dólar."

O homem se inclinou para trás, estendeu as mãos com as palmas para cima e deu um pequeno encolher de ombros, desdenhando. "Bem, bem, bem", disse ele. "Eu não entendo. Você diz que acende, mas não vai apostar. Então esqueçamos tudo isso, sim?"

O menino sentou-se muito quieto, olhando fixamente para os banhistas na piscina. Então lembrou-se de repente que ele não tinha acendido o cigarro. Ele o colocou entre os lábios, as mãos em concha em torno do isqueiro, e girou a roda. O pavio acendeu e queimou com uma chama pequena, amarela, constante. E da maneira como ele o segurava, o vento não a incomodava nem um pouco.

"Pode me emprestar o isqueiro?", eu disse.

"Puxa, me desculpe. Eu esqueci que você não tinha um."

Eu estendi minha mão, mas ele levantou-se e aproximou-se para acender para mim.

"Obrigado", eu disse, e ele voltou ao seu lugar.

"Está se divertindo?", perguntei.

"Tudo bem", respondeu ele. "É muito bom aqui."

Houve um silêncio em seguida, e eu pude ver que o pequeno homem conseguiu perturbar o menino com sua proposta absurda. Ele estava sentado imóvel, e era óbvio que uma pequena tensão estava começando a acumular-se dentro dele. Então ele começou a se mexer em seu assento, e esfregava o peito, acariciando a parte de trás do pescoço. Finalmente, ele colocou as duas mãos sobre os joelhos e começou a bater os dedos neles. Logo ele também estava batucando com um dos pés.

"Agora, deixe-me verificar esta sua aposta ", disse ele, por fim. "Você diz que vamos para o seu quarto e se eu fizer este isqueiro acender dez vezes seguidas eu ganho um Cadillac. Se ele falhar apenas uma vez, então eu perco o dedo mindinho da mão esquerda. Está certo?"

"Certamente. Esta é a aposta. Mas eu acho que você está com medo."

"O que vamos fazer se eu perder? Eu tenho que segurar o meu dedo para você cortá-lo?"

"Oh, não! Isso não seria bom. E você pode ficar tentado a recusar-se a segurá-lo. O que devo fazer é amarrar uma de suas mãos sobre a mesa antes de começar, e eu deveria ficar com uma faca pronta para usá-la na hora em que o isqueiro falhar. "

"Qual o ano do Cadillac?", perguntou o rapaz.

"Desculpa. Eu não entendo."

"O ano. Quando foi fabricado?"

"Ah sim. É do ano passado. Carro bem novo. Mas eu vejo que você não é um homem de aposta. Americanos nunca são."

O menino fez uma pausa por um momento e olhou primeiro para a garota inglesa, depois para mim. "Sim", disse ele bruscamente. "Eu aposto com você."

"Bom!", o homenzinho bateu palmas discretamente, só uma vez. "Tudo bem", disse ele. "Vamos fazê-lo agora. E você, senhor", ele se virou para mim", você talvez seria bom o suficiente para... como é que se fala? para árbitro". Ele tinha olhos pálidos, quase incolores, com pequenas pupilas negras brilhantes.

"Bem", eu disse. "Eu acho que é uma aposta maluca. Eu não acho que gosto muito disso."

"Nem eu", disse a garota inglesa. Era a primeira vez que ela abria a boca. "Eu acho que é uma aposta ridícula, idiota."

"Você está falando sério sobre cortar o dedo do garoto se ele perder?", perguntei.

"Certamente estou. E também sobre dar-lhe um Cadillac se ele ganhar. Venha agora. Vamos para o meu quarto."

Ele se levantou. "Você gostaria de vestir algumas roupas antes de tudo?", ele disse.

"Não", respondeu o rapaz. "Vou assim mesmo." Então ele se virou para mim. "Eu consideraria um favor se você viesse e fosse o árbitro."

"Tudo bem", eu disse. "Eu vou, mas eu não gosto da aposta."

"Você vem também", ele disse para a menina. "Você vem e observa.

O homenzinho fez o caminho de volta através do jardim do hotel. Ele estava animado agora, o que parecia fazê-lo se apoiar mais alto do que nunca na ponta dos pés enquanto caminhava.

"Você gostaria de ver o carro antes? Está logo ali."

Ele nos levou para onde se podia ver a calçada da frente do hotel. Ele parou e apontou para um elegante Cadillac verde-claro estacionado.

"Lá está ele. O verde. Gostou?"

"Puxa, é um lindo carro", disse o menino.

"Tudo bem. Agora vamos para cima e ver se você consegue conquistá-lo."

Nós o seguimos e subimos um lance de escadas. Ele destrancou a porta e todos marchamos para o que era um grande e agradável quarto duplo. Havia um roupão esticado na parte inferior de uma das camas.

"Em primeiro lugar", disse ele, "vamos tomar um pouco de Martini."

As bebidas estavam sobre uma pequena mesa no canto mais distante, tudo pronto para ser misturado, e havia uma coqueteleira, gelo e muitos copos. Ele começou a fazer o Martini, e enquanto isso tocou a campainha. Houve uma batida na porta e uma criada negra entrou.

"Ah!" ,ele disse, abaixando a garrafa de gim, tirando a carteira do bolso e pegando uma nota de uma libra. "Você vai fazer uma coisa para mim agora, por favor." Ele deu a nota à empregada.

"Guarde isso", disse ele. "E agora vamos jogar um joguinho aqui e eu quero que você saia e encontre para mim duas – não, três coisas. Eu quero alguns pregos, eu quero um martelo, e eu quero uma faca de açougueiro, de corte, que você pode pedir emprestado na cozinha. Você pode fazer isso, sim? "

"Uma faca de corte!". A empregada arregalou os olhos e juntou as mãos na frente dela. "Você quer dizer uma faca de corte, de verdade?"

"Sim, sim, claro. Vamos agora, por favor. Você pode conseguir essas coisas para mim, com certeza."

"Sim, senhor, eu vou tentar, senhor. Com certeza eu vou tentar conseguir." E ela se foi.

O homenzinho entregou a rodada de Martinis. Ficamos ali e bebemos. O menino com o longo rosto sardento e o nariz pontudo, o corpo nú exceto por um par de calções de banho marrom desbotado; a garota inglesa, uma menina de cabelos louros, de ossos grandes, usando um maiô azul claro, que observava o menino por cima dos seu copo o tempo todo; o homenzinho com os olhos incolores de pé lá em seu terno branco imaculado bebendo seu Martini e olhando para a menina em seu traje de banho azul claro. Eu não sabia o que fazer com tudo aquilo. O homem parecia sério sobre a aposta e sobre o negócio de cortar o dedo. Mas, inferno, e se o menino perdesse? Então teríamos de correr com ele para o hospital no Cadillac que ele não tinha ganhado. Isso seria legal. Agora, isso não seria imbecil? Seria uma maldita coisa idiota, desnecessária, até onde eu podia entender.

"Você não acha que isso é uma aposta boba?", eu disse.

"Eu acho que é uma boa aposta ", respondeu o rapaz. Ele já havia bebido um grande Martini.

"Eu acho que é uma aposta ridícula, estúpida", disse a garota. "O que vai acontecer se você perder?"

"Não importa. Pense um pouco, eu não me lembro de nunca em minha vida ter visto qualquer utilidade para o dedo mindinho da mão esquerda. Aqui está ele." O menino pegou o dedo. "Aqui está ele e ele nunca fez nada por mim. Então, por que eu não deveria apostá-lo? Eu acho que é uma boa aposta."

O homenzinho sorriu, pegou a coqueteleira e reabastaceu nossos copos.

"Antes de começarmos," ele disse, "eu vou deixar com o árbitro a chave do carro." Ele tirou uma chave de carro do bolso e a deu para mim. "Os papéis", disse ele, "os documentos e seguros estão no porta-luvas do carro."

Em seguida, a empregada negra apareceu novamente. Numa das mãos carregava uma faca, do tipo usado por açougueiros para cortar ossos de carne, e na outra um martelo e um pacote de pregos.

"Boa! Você conseguiu tudo. Obrigado, obrigado. Agora pode ir." Ele esperou até que ela fechasse a porta, em seguida colocou os instrumentos em uma das camas e disse: "Agora nos preparamos, sim?" E para o menino: "Ajude-me, por favor, com esta mesa. Nós vamos erguê-la um pouco."

Era uma típica escrivaninha de hotel, apenas uma tábua retangular simples com um mata-borrão, tinta, canetas e papel. Eles a levaram para a sala, longe da parede, e removeram os utensílios para escrita.

"E agora", disse ele, "uma cadeira." Ele pegou uma cadeira e colocou-a ao lado da mesa. Ele foi muito rápido e muito animado, como uma pessoa organizando jogos em uma festa infantil. "E agora os pregos. Devo pregá-los." Ele foi buscar os pegos e começou a batê-los na parte superior da mesa.

Ficamos ali, o menino, a menina e eu, com Martinis nas mãos, observando o pequeno homem trabalhar. Nós o assistimos martelar dois pregos na mesa, a cerca de quinze centímetros um do outro. Ele não os bateu até o fim; permitiu que uma pequena parte de cada um ficasse à mostra. Em seguida, testou sua firmeza com os dedos.

Qualquer um acharia que o filho da puta já tinha feito isso antes, eu disse a mim mesmo. Ele nunca hesitava. Mesa, pregos, martelo, faca de cozinha. Ele sabia exatamente tudo o que precisava e como consegui-los.

"E agora", disse ele, "tudo o que precisamos é de uma corda." Ele encontrou uma corda. "Tudo bem, finalmente estamos prontos. Você pode, por favor, sentar aqui na mesa?", ele disse para o garoto.

O menino largou seu copo e sentou-se.

"Agora coloque a mão esquerda entre esses dois pregos. Os pregos são só para que eu possa amarrar sua mão no lugar. Tudo bem, ótimo. Agora eu amarro sua mão bem presa na mesa".

Ele enrolou a corda ao redor do pulso do garoto e, em seguida, várias vezes ao redor de grande parte da mão. Depois, amarrou apertado aos pregos. Ele fez um bom trabalho e quando terminou não havia qualquer dúvidas sobre o menino ser incapaz de tirar a mão dali. Mas ele podia mover seus dedos.

"Agora por favor, dobre os dedos, exceto o mindinho. Você deve deixar o mindinho esticado na mesa."

"Excelente! Excelente! Agora estamos prontos. Com sua mão direita você mexe no isqueiro. Mas um momento, por favor."

Ele pulou para a cama e pegou a faca. Depois voltou e ficou ao lado da mesa com ela na mão.

"Estamos todos prontos?" ele disse. "Senhor juiz, você deve dizer para começar."

A menina inglesa estava ali de pé em seu traje de banho azul claro, logo atrás da cadeira do menino. Ela só estava ali parada, sem dizer nada. O garoto estava sentado, imóvel, segurando o isqueiro na mão direita, olhando para a faca. O homenzinho estava olhando para mim.

"Está pronto?", perguntei ao menino.

"Estou."

"E você?", para o homenzinho.

"Muito pronto", disse ele, e levantou a faca no ar e a segurou lá, aproximadamente meio metro acima do dedo do garoto, pronto para cortar. O menino o observava, mas ele não vacilou e sua boca não se mexeu. Ele apenas levantou as sobrancelhas e franziu a testa.

"Tudo bem", eu disse. "Continue."

O menino disse: "Você, por favor, conte em voz alta o número de vezes que eu acendo."

"Sim", eu disse. "Eu farei isso."

Com o polegar, ele levantou a parte superior do isqueiro, e de novo com o polegar girou a roda em um movimento certeiro. Houve uma faísca, o pavio acendeu, pegou fogo e queimou com uma pequena chama amarela.

"Um!", avisei.

Ele não assoprou a chama; ele fechou o topo do isqueiro sobre ela e esperou por talvez cinco segundos antes de abri-lo novamente.

Ele bateu na roda muito fortemente e, mais uma vez, houve uma pequena chama ardente no pavio.

"Dois!"

Ninguém mais disse nada. O rapaz manteve os olhos no isqueiro. O homenzinho segurava a faca no ar e também estava atento ao isqueiro.

"Três!"

"Quatro!"

"Cinco!"

"Seis!"

"Sete!".

Obviamente era um desses isqueiros que funcionavam bem. A pedra dava uma grande faísca e o pavio era do comprimento certo. Eu via o polegar tampando a chama. Em seguida, uma pausa. Então o polegar levantava mais uma vez. Era uma operação toda do polegar. O polegar fazia tudo. Eu tomei fôlego, pronto para dizer oito. O polegar girou a roda. A pedra faiscou. A pequena chama apareceu.

"Oito!", eu disse, e quando eu falei, a porta se abriu. Todos nós viramos e vimos uma mulher em pé na soleira da porta, uma pequena mulher de cabelos negros, um tanto velha, que ficou lá por cerca de dois segundos. Em seguida, correu gritando: "Carlos, Carlos!" Ela agarrou seu pulso, tirou a faca dele, jogou-a na cama, pegou o homenzinho pela lapela de seu terno branco e começou a sacudi-lo vigorosamente, falando com ele rápido e alto e ferozmente o tempo todo, em alguma língua hispânica. Ela apertou-lhe tanto que nem se podia vê-lo mais. Ele tornou-se fraco, enevoado, um esboço do que era antes, como os raios de uma roda em movimento.

Então ela se acalmou e o homenzinho apareceu de novo. Ela puxou-o pela sala e empurrou-o em uma das camas. Ele sentou-se na borda piscando os olhos.

"Eu sinto muito", disse a mulher. "Estou tão terrivelmente triste que isso tenha acontecido." Ela falava um Inglês quase perfeito.

"É muito ruim," ela continuou. "Eu suponho que é realmente culpa minha. Por dez minutos eu o deixo sozinho para ir lavar o meu cabelo, e quando eu volto ele está assim outra vez." Ela parecia triste e profundamente preocupada.

O menino estava desamarrando a mão da mesa. A menina inglesa e eu ficamos lá e não dissemos nada.

"Ele é uma ameaça", disse a mulher. "Lá onde moramos ele já tomou no total quarenta e sete dedos de pessoas diferentes, e perdeu onze carros. No final, eles ameaçaram sumir com ele. É por isso que eu o trouxe para cá."

"Estávamos só fazendo uma pequena aposta", murmurou o homenzinho na cama.

"Eu suponho que ele apostou com você um carro", disse a mulher.

"Sim", respondeu o rapaz. "Um Cadillac."

"Ele não tem carro. O Cadillac é meu. E isso torna as coisas piores", disse ela. "Como é que ele aposta quando não tem nada para apostar? Estou envergonhada e sinto muito por tudo." Ela parecia uma mulher muito simpática.

"Bem", eu disse, "então aqui está a chave do seu carro." Eu a depositei sobre a mesa.

"Estávamos só fazendo uma pequena aposta", murmurou o homem.

"Ele não tem nada para apostar", disse a mulher. "Ele não tem nada no mundo. Nada. De fato, eu mesma ganhei tudo dele muito tempo atrás. Levou tempo, muito tempo, e era um trabalho duro, mas eu ganhei tudo no final. " Ela olhou para o menino e sorriu, um sorriso triste e lento. Então ela se aproximou e estendeu a mão para pegar a chave da mesa.

Eu ainda posso vê-la agora, aquela mão! Havia apenas um dedo nela. O polegar.

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