Wednesday, June 12, 2013

Um Portal (L.F.Riesemberg)



Noah pilotava um avião típico da segunda guerra, e sabia estar sobrevoando território hostil. Disparos inimigos haviam perfurado sua asa esquerda e os motores. Os comandos já quase não respondiam e o painel expelia fumaça.

“Mayday! Mayday!”, gritou pelo rádio, mas como retorno só recebeu um chiado.

O piloto preparava o salto de paraquedas, treinando seu alemão para dizer apenas o nome e número quando fosse feito prisioneiro.

Deu um beijo na foto da noiva que trazia no bolso e fez o sinal da cruz, quando ouviu o ronco de um bombardeiro em seu rastro.

“Agora não há mais saída”, pensou.

Com toda a sua força, puxou o manche e fez a aeronave desviar da mira inimiga, e uma chuva de projéteis passou raspando pela cabine.

Um novo ataque se preparava atrás dele quando viu, no horizonte, uma instigante formação de nuvens que criava um círculo gigantesco em pleno ar. Era como se um tornado estivesse se formando a vinte mil pés de altitude. Em seu núcleo faiscavam luzes ora azuis, ora alaranjadas, tornando aquela a mais estranha tempestade que Noah presenciara desde que entrara para a Força Aérea.

Sem combustível o suficiente para continuar a fuga do inimigo, ele entendeu que a única forma de sobreviver seria entrar no centro daquele monstruoso trabalho da natureza. Embicou a aeronave em direção ao círculo, e viu-se rodeado por um túnel de nuvens multicoloridas.

Depois de alguns segundos dentro daquela formação, percebeu que havia deixado para trás o céu azul, mas também o avião perseguidor. Não se escutava qualquer ruído no interior daquela espiral de nuvens em movimento. Até o chiado do rádio havia dado lugar ao silêncio absoluto.

No horizonte, a única visão era a de um ponto luminoso, para onde tudo parecia convergir.

Enquanto deslizava pelo estranho corredor à sua frente, Noah foi acessando lembranças adormecidas, sentindo-se mais sereno.

Uma espécie de voz o induzia a continuar pilotando em direção àquela luz no final do túnel, e à medida que avançava para lá, o piloto ia se transformando.

Conforme o avião chegava mais próximo do núcleo, pôde-se ouvir nitidamente a voz que o guiava, finalizando uma contagem regressiva... três... dois... um...

Noah abriu os olhos e viu que agora encontrava-se sentado não no assento do avião, mas em um sofá, dentro de uma sala branca. Em sua frente havia um senhor também sentado, que o encarava seriamente. Ele segurava um pêndulo em uma das mãos e um pequeno gravador na outra.

“Muito bem, Noah. A regressão foi surpreendente. Acredito que já descobrimos a origem da sua fobia de voar”.

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