Saturday, January 14, 2012

Panelas de Ouro (L.F. Riesemberg)



Acredito que todos os professores deveriam entreter seus alunos com boas histórias. É uma forma bastante simples de lhes instigar a curiosidade e fazer com que tenham mais interesse pelas aulas. Esse caso que vou contar é um dos que fazem com que a turma toda não abra a boca e nem tire os olhos de mim enquanto falo. Geralmente aquele lindo silêncio continua reinando na classe, mesmo depois que a história termina.  

    No tempo da Revolução, muito antes de nossos antepassados virem morar nessas terras, era comum grupos de soldados chegarem de surpresa nas casas das famílias e levarem tudo o que quisessem. Trabalhadores simples que se recusavam a receber o exército eram considerados traidores e podiam ser presos ou até mesmo executados, ali mesmo, sem julgamento. E o pior: tudo com o aval do Governo.
    Os homens sempre chegavam armados, famintos e ávidos por qualquer coisa que ajudasse na guerra. Queriam cavalos, armas, munição e ouro. Os pobres lavradores, na maioria imigrantes, acabavam tendo que entregar todas as economias de anos, que serviriam para garantir sua velhice.
    Foi durante este duro período da história da nossa região que muita gente, temendo esses e outros perigos da luta armada, resolveu esconder seus pertences de maior valor. Uma prática que se tornou usual foi a de se fechar todo o ouro da família em uma panela de cozinha, e enterrá-la em algum ponto da propriedade. Ela ficaria escondida lá, debaixo do solo, até que fosse seguro desenterrá-la.
    Naquela época, porém, as notícias demoravam a chegar aos pequenos vilarejos. Quando a Revolução terminou, muitos chefes de família se recusavam a acreditar, temendo ainda sofrer os efeitos da violência, e mantiveram suas riquezas debaixo da terra por muitos anos.
    Alguns, inclusive, vieram a falecer, sem que mais ninguém conhecesse o local onde as panelas foram depositadas.
    Essas histórias já são antigas, de muito antes de eu nascer. Mas ainda tem gente que, volta e meia, encontra uma dessas panelas no quintal de casa. O sortudo vai cavar um poço, ou plantar uma horta, e finca a enxada em uma panela recheada de ouro e prata.
    Alguns casos já passaram por tantas bocas que ninguém mais sabe o que é verdade e o que é lenda dessas prosas.
    Por exemplo, tem essa história de um certo Joca, que viveu aqui há muitos anos. Ele e o irmão Jeremias cresceram ouvindo histórias de que um falecido tio-avô havia enterrado pelo menos duas panelas no terreno que herdaram. Não havia provas de que existia alguma riqueza enterrada, mas mesmo depois de adultos a dupla passava todo o tempo livre cavando a terra, cada vez em um lugar diferente. Eram solteiros e moravam só os dois na mesma casa. Sempre que tinham o palpite de algum lugar iam até lá com a pá e a picareta, e ficavam até tarde da noite fazendo um buraco atrás do outro.
    Na cidade já eram figuras folclóricas. Se não pagavam a conta da venda, ficavam sempre lembrando ao comerciante que era só uma questão de tempo para acertar tudo, porque logo iam achar o ouro enterrado da família. Até pediam dinheiro emprestado aos outros jurando que iam pagar em breve e com juros, porque faltava pouco para encontrar o tesouro.
    A vida seguia, com toda a gente daquela comunidade trabalhando na lavoura, e criando seus filhos, até que um dia simplesmente deram pela falta de Jeremias. Procuraram por todos os cantos e nada dele. Esperaram um dia, dois dias, e ele não apareceu mais. Ele não disse nada a ninguém, apenas sumiu, sem levar quase nada.
    Se no princípio Joca mostrou-se preocupado com o desaparecimento do irmão, aos poucos foi pegando uma desconfiança enorme dele, que só foi aumentando com o passar do tempo, até que o deixasse visivelmente perturbado. Dizia que, no dia do sumiço, Jeremias tinha saído escondido com as ferramentas para cavar, e não voltou mais para casa. “Esse desgranhento incontrô a panela e fugiu, pra não repartir cum ninguém. É isso o que ele aprontô”, bradava pelos cantos, principalmente quando enchia a cara no boteco.
    Tentavam colocar na cabeça dele que aquela ideia era estapafúrdia, que Jeremias não teria feito aquilo. Mas ele pegava raiva de quem defendesse o irmão, e não queria nem ouvir mais o nome de Jeremias. “Num tenho irmão. Pra mim ele morreu”.
    Desde então a obsessão daquele homem pelo tesouro foi ficando cada vez mais acentuada. Lembrava que eram duas as panelas enterradas pelo seu antepassado, e que por mais que Jeremias tivesse encontrado uma, a outra seria dele. A grande propriedade, que passou a ser só sua, vivia toda esburacada, graças às infrutíferas buscas pelo tesouro.
    Conta-se que, já acostumados com a loucura do agricultor, dois camaradas tiveram a ideia de fazer uma brincadeira de mau gosto com ele.
    O plano era enterrar uma panela em um local onde ele provavelmente cavaria em breve, e dentro dela colocar algumas moedas sem valor. Talvez até alguma coisa ridícula, como um guizo de vaca, só para ouvir mais tarde os divertidos comentários pela vila.
    Arquitetavam o plano num fim de tarde, após o dia de trabalho, e para o espanto dos gozadores, quando o padre escutou a conversa resolveu ajudá-los. Ficavam imaginando a cara de bobo de quando ele finalmente encontrasse a panela e descobrisse que só tinha algumas porcarias dentro.
    Mas a surpresa maior viria depois: coberto com um lençol branco, o próprio padre assustaria o coitado. Faria uma voz fúnebre para dizer que era o fantasma do tio-avô, e que Joca tinha que parar de tentar roubar suas panelas de ouro.
    Aquele trio de farristas passou mais umas duas tardes bebendo juntos e bolando o plano, o que rendeu muitas risadas.
    Por um momento ficaram um pouco preocupados, pois lhes passou pela cabeça: “E se ele estiver com a espingarda e der um tiro em nós?”. Mas ambos concluíram que isso era impossível. Ele não tinha mais o costume de andar armado, assim como quase ninguém daquela vila. E, mesmo que andasse, não seria problema, já que ele não enxergava direito.
    “Mais isso vai ser nosso segredo”, combinaram. Não queriam que espalhassem o plano e que Joca desconfiasse da armação.
    Dias depois a panela já estava enterrada no mesmo campo em que Joca ia cavar todas as tardes. O “tesouro” foi depositado no local por um dos donos da ideia original, durante uma manhã em que Joca trabalhava longe. Enterrara não muito raso, para não levantar suspeitas, e dentro colocou uma meia furada, umas bitucas de cigarro e um sapo seco. A barriga até doía de tanto rir quando fechou a tampa.
    Etapa concluída, vinha a segunda parte:    instigar a pobre vítima a cavar exatamente naquele lugar.
    Um dos arquitetos do plano, que quase todo dia conversava com a vítima, lembrou que Joca era muito impressionável com essas coisas do outro mundo, como sonhos, adivinhações de ciganas e visagens. Então chegou para o coitado e disse que tinha visto uma aparição enquanto dormia.
    — Num sei se o sinhô credita nessas coisa, mais me apareceu um véio de chapéu, a barba desse tamanho, ó, e ele tava interrando arguma coisa bem do lado daquela cerca na divisa, debaixo daquele teu pé de araçá, sabe?
    Estava lançada a isca.
    Joca ficou tão entretido com aquela possibilidade que mal trabalhou naquele resto de dia. Dava para notar em seu olhar que não via a hora de chegar em casa e ir até a tal árvore para cavar. Para ele, era o seu tio-avô no sonho do amigo, avisando o local que enterrara o ouro.
    O gozador foi correndo contar a história para os outros dois, e torcendo para que desse tudo certo. Assim, antes das seis da tarde, os três poderiam estar a postos, no local da brincadeira, para ver a cara da vítima durante a surpresa que prepararam. 
    Apesar de alguns contratempos do padre, os três seguiram até o local e ficaram esperando, escondidos no meio do mato, em um ponto que podiam enxergar o local com relativa facilidade.
    Ficaram lá, em silêncio, à espera do Joca, e se segurando para evitar risos altos.
    O tempo ia passando, os pernilongos já começavam a incomodar, até que veio a noite e cobriu o céu de um azul bem escuro, com a lua crescente despontando bonita atrás dos pinheiros.
    Eles só sussurravam uns para os outros, já conversando sobre outros assuntos, quase esquecendo os motivos de estarem ali na mata, quando ouviram barulhos no caminho.
    Silenciaram imediatamente e até prenderam a respiração para que não atraíssem a desconfiança de Joca.
    Os passos foram chegando mais perto, até que ficasse visível a figura do capiau carregando uma picareta. Joca deu uma mijada na cerca e depois começou a cavocar a terra, debaixo do araçá.
    O trio não podia se mexer, e acabava não dando para enxergar tudo o que acontecia debaixo da árvore. Mas era possível ouvir as seguidas estocadas da ferramenta na terra, que fazia voar cascalhos até onde eles se escondiam.
    Joca de vez em quando dizia umas blasfêmias, provavelmente pelas dificuldades que encontrava no serviço, e depois continuava o trabalho, sem parecer cansar. O padre era o que menos enxergava a ação do matuto em busca do tesouro e, ao invés de se divertir, foi ficando irritado, querendo logo poder fazer sua parte no plano e voltar para casa. Tinha que acordar cedo na manhã seguinte para rezar a missa.
    Quando as picaretadas no chão repentinamente pararam, o trio achou que Joca tinha finalmente encontrado a panela, ou então desistido de cavar.
    Sem mais tempo a perder, o padre cobriu-se com o lençol branco e começou a andar pela mata, em direção a Joca. Este, ouvindo os passos, atirou-se no imenso buraco que havia cavado.
    —Ára, quem é o fio duma égua que taí no meio do mato?
        O padre segurava o riso debaixo do lençol, e continuava a se aproximar, lentamente, com os braços esticados para a frente.
    —Quem taííí? — gritava Joca, cada vez mais assustado, de cócoras, apenas com os olhos para fora do buraco na terra.
    O padre fez uma voz diferente, fantasmagórica, e bradou:
    —Joooooocaaaaaaaaa...
    Nessa hora o matuto quase teve um troço e passou a rezar lá no fundo do buraco. Com o canto dos olhos, viu que se aproximava uma visagem, e não sabia se saía correndo ou se cobria-se com a terra.
    —Ai, meu Jesuis... Jeremia, é você, meu irmão?
    Os homens no mato e o padre vestido de fantasma começaram a ter um pouco de compaixão pelo pobre diabo. Tinham ido longe demais na brincadeira.
    O fantasma ficou sem saber se revelava ali mesmo que tudo não passava de uma armação, e parou de andar.
    Joca já havia sujado as calças a esta altura, e não queria nem mais abrir os olhos.
    —Meu irmão, me descurpe! Eu me arrependo tanto de ter te matado! Pode ficá cum tudo o ouro, Jeremia. Mais vorte pro lugar que ocê tava! Me dêxe in paiz!
    Os três companheiros que bolaram o plano só queriam sair dali e tentar esquecer aquela cena.

    Toda a turma de estudantes fica em silêncio, esperando que eu continue.
    Nunca demora para que o primeiro pergunte:
    —A história acaba assim? O que aconteceu com o tal Joca? Foi preso? Ficou louco?
    Nesse ponto eu sempre caminho lentamente até o autor da pergunta.
    —Não, é claro que não termina assim. Mas acho que ninguém ia acreditar no que dizem...
   
    —Ah, conta logo, professor!
    — Ta bem, você pediu. A história termina assim: o tal Joca não passa dessa noite, pois rasga o pescoço com uma faca assim que chega em casa. Remoídos pela culpa, os três que aprontaram a brincadeira acabam contando tudo o que aconteceu naquela noite.
    Depois disso, eles e outras pessoas passaram o resto da vida jurando que, toda vez que chegavam perto da propriedade dos dois irmãos, viam um velho de aspecto horrível, todo descabelado e com as roupas cobertas de sangue, cavando buracos com as próprias mãos no meio do mato. Não sei se vocês sabem, mas o terreno deles era exatamente aqui, onde nossa escola foi construída.

    Mais silêncio, ou então alguns risos irônicos na sala.

    —Portanto, se algum dia vocês começarem a notar algum barulho estranho por aí, ou se encontrarem buracos na terra, podem desconfiar: deve ser o fantasma do velho Joca, ainda atrás das suas panelas de ouro enterradas no chão.

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