Tuesday, November 10, 2009

A Selva (Ray Bradbury)

— George, gostaria que desses uma vista de olhos pelo quarto dos miúdos.

Que há?

— Não sei bem.

— E então?

— Gostaria, simplesmente, que lá desses uma espreitadela ou que chamasses um psico-pedagogo.

— Que relação há entre o psico-pedagogo e a «nursery»?

— Sabes muito bem.

A mulher, no meio da cozinha, olhava o fogão que, crepitando, preparava, por si, uma refeição para quatro pessoas.

— Dá-se o caso — disse ela — que a «nursery» está diferente.

— Bem, vamos lá ver.

Penetraram no corredor insonorizado do seu lar da Vida Feliz, que lhes custara trinta mil dólares: esta casa que os vestia, alimentava, embalava para dormir, que os divertia e era amável para eles. À sua aproximação um interruptor foi sensibilizado e o quarto das crianças iluminou-se quando estavam ainda a alguns passos.. Entretanto, à retaguarda, no corredor, as luzes extinguiam-se automaticamente, uma após outra, com suavidade.

— Então ? — interrogou George Hadley.

Estavam sobre o chão coberto de palha da «nursery». A divisão tinha quarenta pés de largura, e trinta de altura. Custara o dobro do preço total da casa. «Mas tudo é pouco para os nossos filhos», dissera George.

O quarto estava silencioso. Vazio como uma clareira na selva ao meio-dia. As paredes, a duas dimensões, estavam nuas. Quando se encontravam a meio da divisão, precisa­mente no centro, as paredes começaram a cintilar docemente e a afastarem-se para uma distância cristalina; a selva afri­cana surgiu, de todos os lados, em três dimensões, a cores, nos mínimos detalhes, até à mais pequena erva. O tecto, por cima das suas cabeças, transformou-se num céu intenso com um Sol amarelo, escaldante.

George Hadley sentiu o suor correr-lhe no rosto.

— Vamos para a sombra — disse ele —. Isto é quase real. E não vejo nada de anormal.

— Espera um momento — disse a sua mulher —. Vais ver. Os odorófonos dissimulados começaram a soprar sobre as duas pessoas que estavam no meio da selva sufocante: o odor quente da erva-leão — o fresco e verde odor dos poços escondidos, o cheiro activo dos grandes animais, o odor da poeira e da paprika verde, no ar tropical. Depois, os ruídos, o trotar distante de um antílope sobre a erva, o adejar seco de asas de abutres. Uma sombra passou pelo Céu. Agitou-se por cima do rosto erguido de George Hadley, que transpirava.

— Que animais antipáticos! — exclamou ela.

— Abutres!

— Repara, os leões estão lá em baixo, ao longe, destelado. Agora dirigem-se para um bebedouro. Acabaram de comer alguma coisa — disse Lydia. — Não faço idéia do que tenha sido.

George ergueu a mão para se proteger contra a luz que lhe feria os olhos semicerrados.

— Talvez uma zebra, ou o filhote de uma girafa.

— Parece-te? — A voz de sua mulher soou particularmente tensa.

— Não, já é demasiado tarde para o saber — disse ele com um sorriso. Em frente, só vejo ossos brancos e os abutres a descer sobre o que ainda possa haver de carne.

— Ouviste este grito? — perguntou ela. Não.

— Precisamente há um instante?

— Lamento, mas não ouvi.

Os leões aproximavam-se. George Hadley admirou-se mais uma vez do génio mecânico que tinha concebido este quarto: um milagre de técnica vendido por um preço irri­sório. Todas as casas deviam ter um. Oh, às vezes ficava-se aterrorizado com esta precisão clínica! «Estas divisões provo­cavam-nos um calafrio, mas, na maior parte das ocasiões, que prazer para todos! Não só para os filhos, mas também para nós, quando se desejava fazer uma pequena excursão por terras desconhecidas, ter uma rápida mudança de cenário»

Agora, estavam ali os leões, a alguns metros, de uma realidade tão surpreendente, tão alucinante, que quase se poderia sentir a aspereza do pêlo sob a mão e a boca enchia-se com o odor empoeirado das suas jubas quentes; o tom amarelo das feras impressionava a vista como a esquisita cor de uma tapeçaria francesa: — o amarelo dos leões e o da erva cani­cular; e o sopro dos pulmões que respiravam, o cheiro a carne que as bocarras hiantes e babadas exalavam...

As feras fixaram George e Lydia com uns aterrorizantes olhos verde-amarelos.

— Toma cautela! — gritou Lydia.Os leões saltaram na direcção deles.

Lydia fugiu e, instintivamente, George precipitou-se atrás dela. Uma vez cá fora, no corredor, a porta fechada à chave, ele pôs-se a rir e ela desfez-se em lágrimas; tanto um como outro consternados pela sua própria reacção.

— George!

— Lydia! Meu pobre amor!

— Quase que nos apanhavam.

— Paredes de vidro, Lydia, reflexos e nada mais. Admito que tinham um ar verdadeiro. A África em casa: — mas é somente um filme colorido, sobreactivado, supra-sensível e uma película ideográfica por trás destes «ecrans» de vidro. Odorófonos e difusores, Lydia, nada mais. Toma o meu lenço.

— Tenho medo. — Agarrou-se a ele e gritou insistente­mente: — Viste ? Sentiste? É demasiado real.

— Ouve, Lydia...

— Tens de dizer a Wendy e Peter que não leiam mais livros sobre África.

— Pois, pois. — e acariciou-lhe a mão.

— Prometes ?

— Prometo.

— E fechar o quarto das crianças enquanto eu não esti­ver refeita?...

— Sabes muito bem as dificuldades que Peter levantará. Quando há um mês o castiguei, fechando a «nursery» durante algumas horas somente, fez uma cena. E Wendy também. Esta divisão é a sua própria vida.

— O que é preciso é fechá-la.

— Bem, bem. — deu a volta à chave sem entusiasmo.

— Tens trabalhado muito, ultimamente. Necessitas de repouso.

— Não sei, não sei — disse ela assoando-se. Sentou-se numa cadeira que logo começou a embalá-la e a afagá-la.

— Talvez não tenha bastante que fazer. Talvez tenha muito tempo livre para magicar. Porque não fechamos a casa para uns dias de férias?

— Queres dizer que pretendes estrelar os meus ovos? Sim — assentiu ela com a cabeça.

— E.coser as minhas meias?

— Sim, sim — afirmou ela precipitadamente, com lágrimas nos olhos.

— E varrer?

— Sim, sim!

— Mas eu julgava que tínhamos precisamente comprado esta casa para não fazeres nada!

— Precisamente. Não me sinto em minha casa. Agora a casa é a esposa, a mãe, a governanta... Posso por acaso rivalizar com uma selva africana ? Posso eu dar banho e esfregar as crianças com tanta eficiência e rapidez como o banheiro automático? Não posso! E além disso, não se trata só de mim, mas também de ti. Nestes últimos dias tens andado terrivelmente nervoso.

— Fumo muito, sem dúvida.

— Tens o ar de quem não sabe o que há-de fazer às mãos. Todas as manhãs fumas um pouco mais e todas as noites bebes um pouco mais; e todas as noites precisas de mais um pouco de sedativo. Também tu começas a sentir que não és indispensável.

— Parece-te? — calou-se e perguntou a si próprio o que é que, em realidade, se passava com ele.

— Oh, George! — ela olhava por cima do seu ombro a porta da «nursery». — Aqueles leões não podem sair, pois não?

— Pois claro que não! — confirmou ele.

***

Jantaram sozinhos porque Wendy e Peter que tinham ido à «Festa do Plástico», no outro extremo da cidade, televi­saram para dizer que chegariam tarde e que comessem, sem eles. George Hadley, meditativo, ficou sentado na cadeira a contemplar a mesa da sala de jantar, que extraía comidas quentes das entranhas mecânicas.

— Esquecemos o molho de tomate — disse ele.

— Perdão! — exclamou uma voz de dentro da mesa e o molho de tomate surgiu.

No que diz respeito à «nursery», pensava George, não fará mal às crianças que dela se vejam privadas durante algum tempo. O excesso de qualquer coisa não é bom para ninguém. Era evidente que os meninos consagravam dema­siado tempo à África. Aquele Sol! Sentia-o ainda na nuca, tal como uma garra escaldante. E os leões! E o cheiro a sangue. Era notável o processo como a «nursery» captava as emana­ções telepáticas das crianças e criava a vida para satisfazer o mínimo desejo dos seus espíritos. Os pequenos pensavam em leões e apareciam leões. As crianças pensavam em zebras e as zebras surgiam; pensavam em girafas, havia girafas; e na morte, a morte.

Esta, no fim de contas, mastigava a carne, que a mesa cortara em sua intenção, sem a saborear. Idéias de morte. Wendy e Peter eram muito novos para ter tais pensa­mentos. Mas, afinal, nunca se é demasiado novo para isso. Muito antes de se conhecer o significado da morte, já a desejamos a alguém. Com a tenra idade de dois anos já se faz fogo sobre as pessoas com uma espingarda de rolha.

Mas aquilo, a selva africana, interminável e tórrida, era a terrível morte nas fauces de um leão... e repetida, incessan­temente.

— Onde vais?

Não respondeu. Preocupado, deixou as luzes acende­rem-se à sua frente e apagarem-se atrás, enquanto cami­nhava lentamente até à porta da «nursery». Pôs-se à escuta. Um leão rugia ao longe.

Deu a volta à chave na fechadura e abriu a porta. Um instante antes de entrar ouviu um grito muito distante. Depois um rugido, que também logo cessou. Penetrou em África. Quantas vezes, durante este ano, tinha ele aberto a porta e encontrado o País das Maravilhas, Alice e a Rainha de Copas, Aladino e a sua lâmpada, o Fei­ticeiro de Oz, ou a Vaca saltando por cima da Lua? Todas essas maravilhosas fantasias de um mundo mágico ? Algumas vezes vira Pégaso cruzar o céu do tecto e fogos de artifício rebentar em cascata; ouvira vozes de anjos cantar. E, agora, esta África amarela e escaldante, este forno de matança! Talvez Lydia tivesse razão. Talvez tivessem necessidade de férias, de esquecer este fantasia, que se tornara demasiado viva para crianças de dez anos. Era muito bom que se ginas­ticasse o seu espírito através de um exercício de imaginação, mas quando a mentalidade viva de uma criança se fixa sobre certo tema... Recordava-se que já, desde há um mês, ouvia rugir os leões ao longe e, até mesmo, o seu acre cheiro se infiltrara pela porta do seu gabinete. Mas como andava muito ocupado não tinha prestado atenção.

George Hadley estava em pé sobre a erva africana. Os leões, debruçados sobre a presa, ergueram a cabeça, para o observar. A única quebra na ilusão era a porta aberta, através da qual podia ver Lydia, ao fundo do corredor, como que num quadro, a jantar distraidamente.

— Vão-se embora! — gritou ele aos leões. Os animais permaneceram extáticos.

Conhecia perfeitamente o princípio que regia a divisão. Emitia-se um pensamento e, fosse ele qual fosse, surgia.

— Venha Aladino e a sua lâmpada! — gritou. A selva continuou e também os leões.

— Vamos, quarto! Exijo Aladino.

Nada mudou. Os leões rugiram sob as jubas.

— Aladino!

Voltou à sala de jantar.

— Este quarto idiota está avariado — disse ele. — Já não responde.

— Ou então... — Ou então o quê?

— Não pode responder — disse Lydia — porque as crianças pensaram tantos dias na África, nos leões e em matar que o quarto viciou-se.

— Sim, pode ser isso.

— A não ser que Peter o tenha regulado para que fique sempre assim.

— Regulado ?

— Pode ter-se introduzido no mecanismo e fixado qual­quer peça.

— Peter não sabe nada de mecânica.

— Tem inteligência para dar e vender. Lembra-te daquele teste que fez...

— Mesmo assim...

— Boa noite, mamã... Viva, papá!

Os Hadley voltaram a cabeça. Wendy e Peter tinham chegado: o rosto corado como uma cereja, os olhos como berlindes de ágata, um cheiro a ozone nas roupas devido à viagem em helicóptero.

— Vieram mesmo a horas de jantar — disseram os pais ao mesmo tempo.

— Estamos a abarrotar de morangos e sandwiches — disse­ram as crianças, dando a mão uma à outra. — Mas vamos vê-los comer.

— Sim, e falem-nos da «nursery» — disse George Hadley. O irmão e a irmã baixaram as pálpebras, depois olharam-se.

— A «nursery»?

— Sim, a África e o resto — prosseguiu o pai, com falsa despreocupação.

— Não percebo — disse Peter.

— A vossa mãe e eu fizemos ainda agora uma viagem por África, com uma cana de pesca: Tom Swift e o seu leão eléctrico — disse George Hadley.

— Não há África na «nursery» — disse Peter com simpli­cidade. — Vá lá, Peter! Nós sabemos o que estamos a dizer.

— Não me recordo de nenhuma África — disse Peter a Wendy.E tu?

Não.

— Vamos ver!

A irmã obedeceu.

— Wendy, venha cá! — gritou George Hadley. Mas ela já partira. As luzes da casa seguiram-na como uma nuvem de mariposas. Apercebeu-se demasiado tarde que se esquecera de fechar à chave a porta da «nursery».

— Wendy, vem dizer-nos... — disse Peter.

— Não precisa de mo vir dizer. Eu vi.

— Tenho a certeza de que te enganaste, pai.

— Talvez não, Peter. Vem comigo! Mas Wendy estava de volta.

— Não é a África — disse ela com a respiração entrecortada.

— Vamos ver o que é — disse George Hadley. Dirigiram-se até ao fundo do corredor e abriram a porta.

Havia uma bela e verdejante floresta, um encantador ribeiro, montanhas cor de violeta, cânticos e Rima, a fada, adorável e misteriosa, ocultando-se nas árvores, por entre os vôos coloridos de borboletas, descuidadas, de longos cabelos pen­dentes. A selva africana desaparecera. Dos leões nem sombra. Só havia Rima, cujo cântico era tão belo que até provocava lágrimas.

George Hadley observou a mudança.

— Vão-se deitar — disse às crianças.

Elas abriram a boca para falar.

— Não ouviram?

Dirigiram-se para a caixa pneumática onde o ar os aspi­rou até aos quartos de dormir.

George Hadley caminhou sob a deliciosa sombra das árvores e apanhou qualquer coisa no canto onde tinham estado os leões, voltando lentamente para junto da mulher.

— O que é isso? — perguntou ela. — Uma velha carteira minha — respondeu George. Mostrou-lha. O objecto exalava ainda um cheiro a erva quente e a animal. Estava ensalivada e tinha sido mordida. Nos dois lados viam-se manchas de sangue.

George fechou à chave a porta do quarto dos filhos.

De madrugada ainda estava acordado e percebeu que sua mulher também não dormia.

— Crês que Wendy tivesse feito a mudança ? — perguntou ela, finalmente, na obscuridade do quarto.

— Evidentemente.

— Trocou a selva por uma floresta e substituiu os leões por Rima?

— Sim, decerto.

— Porquê?

— Não sei. Mas vai ficar fechada até que eu saiba.

— Como é que a tua carteira foi lá parar?

— Não sei nada, a não ser que começo a lamentar ter comprado aquele quarto para as crianças. Se elas adquirirem uma nevrose, um quarto como aquele...

— Diz-se que os ajuda a libertarem-se de maneira sã dos seus complexos.

— Começo a duvidar. — Fixou os olhos no tecto.

— Demos aos nossos filhos tudo o que quiseram. E é esta a nossa recompensa: coisas misteriosas, desobediência?

— Quem foi que disse: «As crianças são como tapetes; às vezes é preciso andar em cima delas»? Nunca levantamos a mão para elas, e são insuportáveis, é preciso confessá-lo. Vão e voltam a seu bel-prazer, tratam-nos como se nós é que fôssemos miúdos. Estão estragadas, e nós também.

— Tornaram-se estranhas desde que há alguns meses, as proibiste de tomarem o foguetão para Nova York.

— São muito novos para viajar sozinhos, foi o que lhes expliquei. Reparei, todavia, que se tornaram frios para mim. — Desde essa altura só falta que nos batam. Notei-o muito bem.

— Parece-me que vou pedir a David McClean para vir cá amanhã de manhã dar uma vista de olhos à África.

— Mas agora já não é África, é o País Verdejante e Rima.

— Tenho a impressão que, de um momento para o outro, voltará a ser África.

Logo após ouviram gritos.

Dois gritos. Duas pessoas que, lá ao longe, gritavam. Depois, um rugido de leão.

— Wendy e Peter não estão deitados — disse Lydia. George continuou estendido, o coração a bater com força.

— Não — disse ele —. Forçaram a porta.

— Estes gritos. Parece-me que os reconheço.

— Ah, sim?

— Sim, são-me terrivelmente familiares!

E, apesar das camas mecânicas tentarem adormecê-los, os dois adultos só puderam dormir decorrida uma hora. Um cheiro felino espalhava-se pela noite.

— Pai? — perguntou Peter. Que é?

Peter fixou os sapatos. Nunca olhava o pai e a mãe de frente,

— Não vais fechar a «nursery» para sempre, pois não?

— Depende.

— De quê?

— De ti e de tua irmã. Se variarem um bocado essa coisa de África... Talvez com um pouco de Suécia, Dinamarca ou China...

— Julguei que pudéssemos brincar da maneira que qui­séssemos. ..

— Sim. Podem. Mas com a condição de serem razoáveis.

— O que é que te não agrada em África ? — Então agora admites que a fazes aparecer, não é verdade?

— Gostaria que a «nursery» nunca fosse fechada — disse Peter friamente.

— A propósito, tencionamos fechar a casa, separarmo-nos dela durante três semanas, ou um mês, fazermos, todos, uma vida despreocupada.

— Mas isso ao horrível ar livre ? Tenho de calçar os meus sapatos em vez de deixar que a calçadeira o faça? E lavar eu os dentes, pentear-me, tomar banho?

— Para variar será divertido, não te parece?

— Não, será horroroso. E eu não gostei nada que, no mês passado, me tivesses tirado a máquina de pintar.

— É porque quero que aprendas por ti próprio a pintar, meu filho.

— Não quero fazer nada. Só quero ver, ouvir e sentir. Que melhor poderá haver?

— Está bem, vai brincar para África.

— Vais desligar em breve a casa?

— Não penses nisso.

— Parece-me que seria melhor que não pensasses nisso, pai!

— Não admito que o meu filho me ameace!

— Muito bem! — e Peter dirigiu-se para a «nursery».

— Não cheguei atrasado? — perguntou David McClean.

— Toma alguma coisa — propôs George.

— Obrigado, já tomei o pequeno almoço. O que há?

— David, você é um psicólogo — disse George Hadley.

— Creio que sim...

— Muito bem. Dê uma vista de olhos pela nossa «nursery». Você observou-a há cerca de um ano, quando nos visitou. Notou, nessa altura, alguma coisa de especial ?

— Não sei ao certo. Somente as violências habituais: uma ligeira tendência paranóica, aqui e acolá, habitual nas crianças, devido ao facto de se sentirem perseguidas pelos seus pais de maneira constante. Mas, na realidade, nada de particular.

Caminhavam pelo corredor.

— Fechei à chave a «nursery» — explicou o pai —. Mas, mesmo assim, as crianças conseguiram lá penetrar durante a noite. Deixei-as lá para que pudessem formar os seus temas à vontade.

De «nursery» saíam gritos terríveis.

— Aqui estamos — disse George Hadley. — O que pensa disto ?

Sem bater à porta, surpreenderam as crianças. Os gritos tinham cessado. Os leões comiam.

— Saiam por um bocado, meninos — disse George. — Não, não mudem a combinação mental. Deixem as paredes tal qual estão. Vamos, saiam!

Uma vez as crianças fora da sala, os dois homens obser­varam os leões que, juntos, a alguma distância, se preparavam para devorar, com visível satisfação, a presa que tinham conseguido.

— Bem gostaria de saber o que é — disse George —. Por vezes quase que consigo distinguir. Parece-lhe que com um potente binóculo...

David McClean teve um leve riso:

— Não!

Pôs-se a examinar as quatro paredes.

— Desde quando isto se verifica?

— Há cerca de um mês.

— Na verdade, a impressão é má.

— Tenho necessidade de factos, não de impressões.

— Meu caro George, um psicólogo nunca viu um facto na sua vida. Ouve falar simplesmente de sentimentos, de coisas vagas. E, aqui, não gosto disto. Tenho confiança no meu instinto, na minha intuição. Sei «cheirar» as coisas. E isto não me agrada, O conselho que lhe dou é que mande demolir este maldito quarto e durante um ano, me leve os seus filhos, a fim de os tratar.

— Chegamos a isso?

— Receio que sim. Um dos principais fins destas «nur­serys» é permitir-nos estudar os temas deixados nas paredes pelo espírito das crianças, analisá-los com vagar e ajudar a criança. Todavia, no caso presente, o quarto tornou-se um veículo de pensamentos destrutivos, em vez de os libertar.

— Já o tinha sentido antes?

— Sim. Vi, somente, que vocês amimavam as crianças mais do que seria razoável. E, agora, abandonam-nas, por assim dizer. Mas porquê?

— Não as deixei ir a Nova York.

— E depois ?

— Retirei dois ou três aparelhos da casa e. há um mês ameacei-os de fechar a «nursery» se não cumprissem as suas obrigações. Durante alguns dias encerrei-a para lhes provar que falava verdade.

— Hum, hum!

— Pareceu-lhe que isto possa ter algum significado?

— É revelador. As crianças tinham um Pai Natal e agora têm um papão. As crianças preferem os Pais Natal. Vocês deixaram que este quarto tomasse o vosso lugar na afeição das crianças. Ele é o seu pai e mãe, desempenha nas suas vidas um papel muito maior do que os vossos. E, agora, vocês inter­ferem para o fechar. Não é de admirar que o ódio cresça. Vocês sentem-no surgir. Observe este sol, George. É necessário mudar a vossa vida. Como tantos outros, vocês construíram-na tendo por base o conforto mecânico. Mas amanhã morrereis de fome, se qualquer máquina da vossa cozinha se desarranjar. Nem sequer sabereis estrelar um ovo. Assim, é necessário fechá-la. Começar de novo. Isso levará tempo, mas num ano curaremos estas crianças, vocês verão!

— Não será um choque muito forte, se fecharmos de repente o quarto para sempre?

— Não quero que elas continuem por este caminho, e é tudo!

Os leões tinham terminado o repasto.

Estavam à entrada da clareira e observavam os dois homens.

—Agora sou eu que estou com o sentimento da persegui­ção—disse McClean. — Saímos ? Nunca gostei muito destes quartos. Deixam-me nervoso.

— Os leões parecem verdadeiros, não é? — disse George Hadley. — É impossível supor que pudesse haver um processo de...

— Heim?

— ...de se tornarem reais?

—Não sei.

— Um defeito no mecanismo, ou qualquer coisa que o tivesse provocado, ou... não sei...

— Não!

Dirigiram-se para a porta.

— O quarto não gostará decerto que o fechem... — disse o pai.

— Ninguém gosta de morrer, mesmo um quarto...

— Pergunto a mim mesmo se ele me odiará pelo facto de o ir fechar...

— Há uma intensa paranóia no ar—disse McClean. — Pode seguir-se o seu rasto. Olá!

Abaixou-se para apanhar uma «echarpe» ensangüentada.

— É sua?

—Não. —O rosto de George Hadley era de pedra. — É de Lydia.

Foram os dois ao quadro de fusíveis e desligaram o disjun­tor que matou a «nursery».

***

As duas crianças tiveram uma crise. Gritaram, espernea­ram, partiram objectos, urraram, soluçaram, praguejaram e agarraram-se aos móveis.

— Não podes fazer isso ao nosso quarto, não podes! — Vá lá, meninos!

As crianças, a chorar lançaram-se sobre um sofá.

— George — disse Lydia. — Liga o quarto por alguns minutos. Não deves ser tão brusco!

— Não!

— Não há necessidade de se ser cruel.

— Lydia, o quarto foi fechado e assim ficará. E desde agora toda a imundície desta casa também vai parar. Quanto mais vejo os erros que cometemos, mais doente me sinto. Durante largo tempo contemplámos o nosso umbigo mecânico, electrónico! Meu Deus, como temos necessidade de uma lufada de ar fresco!

E percorreu a casa desligando os relógios falantes, os fornos, os climatizadores, os enceradores, os limpadores, os massagistas e todos os aparelhos que estavam à sua disposição.

Parecia que a casa estava cheia de corpos mortos. Um cemitério mecânico. Silenciosa. Quieta...

— Não os deixem fazer! — gemia Peter como se falasse à casa, à «nursery». — Que o pai não possa matar tudo! — vol­tou-se para o pai. — Detesto-te!

— As tuas grosserias de nada servirão!

— Queria que estivesses morto!

— Estive-o durante muito tempo. E agora vamos viver a sério. Em vez de sermos manipulados e manejados, vamos viver!

Wendy continuava a chorar e Peter recomeçou.

— Só um bocadinho, um instante, um minuto de «nursery» — choramingaram eles.

— Oh, George! — disse-lhe a mulher. — Isso não fará mal algum!

— Está bem, com a condição de que se calem! Um minuto, ouviram, e, nem mais! E depois, acabou-se definitiva­mente !

— Papá, papá! — gritaram as crianças sorrindo através das lágrimas.

— E vamos para férias. David McClean está de volta dentro de meia hora para nos ajudar a fazer as malas e acom­panhar-nos ao aeroporto. Vou vestir-me. Põe a «nursery» a funcionar, Lydia, mas sòmente um minuto!

Saíram todos juntos. George fez-se aspirar para o outro andar a fim de se vestir. Lydia chegou um momento depois.

— Sentir-me-ei feliz quando partir! — suspirou ela.

— Deixaste-os na «nursery»?

— Também queria vestir-me. Oh, aquela horrível África. O que é que nela os pode seduzir?

— Deixa lá que dentro de cinco minutos estaremos a caminho de Iowa. Meu Deus, porque é que viemos para esta casa? O que é que nos levaria a comprar este pesadelo?

— A vaidade, o dinheiro, a estupidez!

— Creio que será melhor descermos antes que os miúdos sejam de novo dominados por esses malditos bichos.

Foi nesse momento que ouviram as crianças chamar:

— Papá, mamã, venham depressa, depressa! Lançaram-se no condutor pneumático e correram ao longo do corredor. Não viram as crianças.

— Wendy! Peter!

Precipitaram-se para a «nursery». A selva estava vazia e só havia os leões que aguardavam encarando-os. A porta fechou-se com ruído.

— Wendy! Peter!

George Hadley e a mulher voltaram-se, lançando-se contra a porta.

— Abram! — gritou George Hadley batendo com o punho.

— Fecharam-nos! Peter! Abram!

Ouviu a voz de Peter do outro lado.

— Não os deixeis acabar com a «nursery» nem com a casa — diziam eles.

Mr. e Mrs. Hadley bateram com os punhos na porta.

— Vamos, não sejam ridículos! Está na hora de partirmos. McClean chegará dentro de um minuto e...

Foi então que ouviram os ruídos.

Os leões, vindos de três lados, como que deslizavam sobre a erva amarela da selva, com rugidos que lhes vinham do fundo das goelas.

— Os leões!

Mr. Hadley olhou para a mulher. Depois voltou a cabeça e olhou as feras que corriam para eles, as mandíbulas a rasar o solo, a cauda tensa.

Mr. e Mrs. Hadley puseram-se a gritar.

E logo compreenderam por que lhes pareceram tão fami­liares os gritos que tinham ouvido.

— Pois bem, cá estou! — disse David McClean, parando à entrada da «nursery». — Olá!

Olhou para as duas crianças, sentadas na clareira, que se preparavam para comer uma refeição fria. Atrás delas, a selva amarelada, por cima, o Sol escaldante. Transpirava.

— Onde estão os vossos pais?

As crianças levantaram os olhos e sorriram.

— Oh, não se devem demorar!

— Muito bem, temos de partir. O dr. McGlean avistou, ao longe, os leões, que disputavam a presa, depois baixa­rem-se para a devorar em silêncio, sob as árvores.

Franziu as pálpebras e levantou a mão para se proteger do Sol.

Os leões tinham agora terminado o repasto. Dirigiam-se para o bebedouro.

Uma sombra passou sobre o rosto suado de McClean. Outras sombras bateram as asas. Os abutres desciam do céu tropical.

— Uma chávena de chá? — propôs Wendy, no meio do silêncio.

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