Sunday, July 26, 2009

A Hora H (Ray Bradbury)



Um dos maravilhosos contos do estupendo O Homem Ilustrado (também conhecido como Uma Sombra Passou Por Aqui). Tenho certeza que M. Night Shyamalan leu esta história antes de escrever o roteiro de Sinais. Leiam e comprovem.



A Hora H



Oh, era espantoso! Que maravilhoso jogo! Nunca tinham conhecido uma semelhante excitação. As crianças corriam aqui e além no gramado, gritando, agarrando-se pelas mãos, indo e vindo, formando rodas, rindo em altas gargalhadas. Foguetes passavam no espaço, automóveis miniaturas rolavam pelas ruas, mas as crianças continuavam o seu jogo. Era tão divertido, a alegria era tão grande, faziam belas cabriolas e gritava-se a plenos pulmões.
Mink correu para casa, coberta de lama e de suor. Com sete anos, era forte, alegre, muito decidida. A sua mãe, mrs. Morris, podia apenas seguir os seus gestos, enquanto a criança abria os armários e atirava caçarolas e garfos e facas e colheres para um grande saco.
— Em nome de Deus, Mink, o que é que acontece?
— É a mais divertida de todas as brincadeiras! — retorquiu Mink, muito corada.
— Pára um pouco e descansa!
— Não, estou muito bem! Posso levar estas coisas todas, mamã ?
— Não as estragues — recomendou mrs. Morris. — Não, obrigada, obrigada! — gritou Mink.
E zás! Desapareceu rápida como um raio.
— Como se chama o vosso jogo? — A Invasão — respondeu Mink. A porta bateu.
De todas as casas da rua as crianças saíam com facas, garfos, tesouras, pedaços de canos, abre-latas.
Era curioso notar que esta euforia atingia apenas os mais novos. Os mais velhinhos, de dez anos e mais, não se impor­tavam com o jogo, caminhavam desdenhosamente sobre as andas com que jogavam uma versão mais digna do jogo das escondidas.
Entretanto, os pais continuavam a rolar nos seus carros! Os operários vinham reparar os ascensores de vácuo, consertar os postos de televisão ou martelar uns recalcitrantes tubos de alimentação. A civilização dos adultos passava e voltava a passar diante dos miúdos atarefados, com ciúmes da sua energia enorme, divertida condescendentemente com as suas gargalhadas e com um secreto desejo de os acompanhar.
— Olha e mais e mais! — dizia Mink, dando as suas ins­truções e distribuindo pelos companheiros as colheres e as tenazes. — Faz isto e leva aquilo para ali. Não! Aqui! Cabeça de burro! Bem! Agora desaparecei enquanto eu arranjo isto!
Mordia a língua e enrugava a testa com o esforço. — Lá para longe, sabeis?
— Siiiim! — gritaram as crianças. Joseph Connors, de doze anos, apareceu.
— Vai-te embora! — disse-lhe Mink, olhando-o firmemente.
— Eu quero brincar — disse Joseph. — Não podes!
— E porque não posso? — Vais-te rir de nós.
— Não, não o farei, juro.
— Não? Bem te conheço! Vai-te embora ou levas uma data de pontapés!
Um outro rapazito apareceu rolando sobre os patins.
— Eh, joe! Anda! Deixa brincar as raparigas! Joseph hesitou, sonhador.
— Eu quero brincar — teimou.
— Tu já és grande — insistiu Mink.
— Não sou assim tão grande como isso — replicou Joe, com alguma razão.
— Vais fazer troça e estragar a Invasão.
O rapaz, sobre os patins automóveis, escorregou para o chão.
— Anda daí Joe! Deixa lá as raparigas com os contos de fadas! São parvas.
Joseph afastou-se a passos lentos. Continuou a olhar por cima do ombro até que dobrou o canto da rua.
Mink deitou outra vez mãos à obra. Fabricou com o bricabraque de que dispunha um pequeno aparelho. Tinha dado a outra rapariguinha o cargo de secretária, e esta tomava laboriosamente notas com um lápis num caderno de apontamentos. As vozes subiam e desciam no ar quente da manhã.
Em volta, a cidade zumbia. As ruas eram ladeadas de belas árvores, verdes e pacíficas. Só o vento punha uma nota discordante através da cidade, do país, do continente. Em mil outras cidades havia também árvores e crianças, ruas popu­losas e homens de negócios nos seus escritórios registando o correio em chapas magnéticas ou observando o televisor. As astronaves giravam no espaço. Havia por toda a parte o calmo orgulho e a tranqüilidade de homens habituados à paz, certos de que não haveria nenhuma desordem. De mãos dadas os homens formavam à volta do mundo uma frente unida. Todos confiavam nas armas aperfeiçoadas. Tinha-se estabelecido uma maravilhosa confiança entre as nações. Não havia traidores entre os homens, nem havia infelizes ou descontentes. Consequentemente o mundo repousava sobre uma base estável. O Sol iluminava metade da Terra e as árvores cabeceavam no sopro do ar quente.
A mãe de Mink observava as crianças da janela do pri­meiro pavimento.
As crianças! Sacudiu a cabeça. Comiam bem, dormiam bem, na segunda-feira voltariam para a escola. Os pequenos vigorosos corpos portavam-se bem. Escutou.
Mink falava calorosamente a alguém, perto de um roseiral, se bem que não se visse ninguém.
As crianças são muito esquisitas. E a rapariguinha, como é que ela se chamava ? Ana ? Ana tomava notas no seu caderno. Mink fazia uma pergunta e depois ditava a resposta a Ana.
— Triângulo! — dizia Mink.
— O que é isso— perguntou Ana silabando. Um tri... ângulo ?
— E como é que se escreve?
— T-r-i...— soletrou Mink, lentamente. — E depois, nicles! Lembra-te tu — e saltou para outras palavras: — Facho — disse ela.
— Ainda não escrevi tri... ângulo — disse Ana.
— Pois despacha-te!
A mãe de Mink debruçou-se na janela. — Ân-gu-lo— soletrou ela para Ana.
— Oh, muito obigada, mrs. Morris! — disse Ana.
Mrs. Morris deixou-as, sorrindo, para limpar a entrada com o aspirador magnético. Umas vozitas subiam de fora.
— Facho — dizia Ana.
— 497... A, e B, e X — disse Mink, ao longe, muito seria­mente. — E um garfo, cordel, e um hex... hex... ágono!
Ao almoço Mink bebeu o leite de um trago e precipitou-se para a porta. A mãe deu uma pequena pancada na mesa.
— Faça favor de vir sentar-se! E vais comer a sopa. Carregou num botão vermelho e a criada automática, dez segundos mais tarde, aterrou com um choque no tabuleiro receptor. Mrs. Morris abriu-a, tirando uma caixa com um cabo, destapou-a e deitou o líquido numa taça.
— Depressa, mamã! É uma questão de vida ou de morte! Durante estas operações, Mink agitava-se na cadeira.
— Eu era como tu quando tinha a tua idade. É sempre uma questão de vida ou de morte. Eu sei.
Mink devorou a sopa.
— Mais devagar — pediu a mãe.
— Não posso — disse Mink. — O comando espera-me.
— Quem é o comando? Que nome tão divertido! — Tu não o conheces — disse Mink.
— Um novo vizinho pequeno? — perguntou a mãe. Mink começou a devorar o seu segundo bolo.
— E onde está o comando? — perguntou a mãe.
— Oh, está para lá — respondeu Mink evasivamente. — Vais fazer troça. Toda a gente faz troça, oh céus!
— O comando é tímido?
— Sim. Não. Enfim, de uma certa maneira... Mamã preciso correr para que a Invasão resulte!
— Quem é que invade e quem é invadido?
— Os Marcianos invadem a Terra. Não são exactamente os Marcianos, não sei bem. Vêm do ar.
E indicava o tecto com a colher.
— E daqui de dentro — disse a mãe, afagando a testa febril de Mink.
Mink revoltou-se.
— Tu troças! Vais matar o comando e todos os outros!
— Não tenho essa intenção. Comando é um Marciano?
— Não. Ele é... bem... talvez ele venha de Júpiter ou de Saturno, ou de Vénus. De qualquer maneira isto foi muito duro para ele.
— Estou a ver — disse mrs. Morris disfarçando um sorriso. — Ainda não encontraram maneira de atacar a Terra. — Nós somos inexpugnáveis — afirmou a mãe com muita seriedade.
— Foi a expressão que o comando empregou! Ine... náveis! É a sua expressão!
— Pois bem, é porque Comando é um rapazinho inteli­gente. Palavras que se decoram!
— Ainda não sabem como vão atacar, mãe. Comando disse que para se poder combater é preciso encontrar maneira de surpreender o adversário. Então ganharemos. E diz ainda que é preciso ser ajudado pelo adversário.
— A quinta coluna — disse a mãe.
— É isso! Foi o que disse o comando. E ainda não pude­ram encontrar nenhuma maneira de surpreender a Terra ou de ser ajudados.
— Não me admira. Somos muito fortes.
A mãe ria, levantando os guardanapos. Mink ficou sen­tada com os olhos fixos, possuída pela visão do que contava.
— E depois, um dia — sussurrou ela, misteriosamente — eles pensaram nas crianças.
— E então ?
— E então eles pensaram que as pessoas crescidas estão sempre tão ocupadas que nunca olham para os roseirais nem para os relvados.
— Sim, só para caçar caracóis ou para apanhar cogumelos.
— E depois há também as «dims-dims»?
— E o que é isso? — As dimensões.
— As dimensões?
— Há quatro! E depois há qualquer coisa que se refere às crianças com menos de nove anos e à imaginação. É muito divertido ouvir falar o comando!
Mrs. Morris estava fatigada.
— Bom, vai-te divertir. Estás a fazer esperar o comando. Já é tarde, e se queres acabar a Invasão antes do teu banho da tarde, é melhor despachares-te.
— Tenho de tomar o banho? — protestou Mink.
— Sim, minha querida. Porque é que as crianças não querem lavar-se ? Qualquer que seja a época em que vivamos, as crianças detestam sempre a água e o sabão.
— Comando disse que não terei necessidade de tomar o banho.
— Ah, ele disse isso?
— Disse-o a todas as crianças. Não haverá mais banhos. E podemos ficar até às dez horas da noite na rua e ir a dois espectáculos ao sábado em vez de ir só a um.
— Pois bem, o sr. comando faria melhor se tratasse de si. Hei-de ir visitar a mãe dele e... Mink dirigiu-se para a porta.
— Temos aborrecimentos com sujeitos como Pete Britz e Dale Jerrick. Estão a fazer-se grandes. Fazem troça. São piores que os pais. Não querem acreditar no comando. Fazem de maus porque estão a crescer. Podiam ser mais inteligentes. Ainda há menos de dois anos eram pequenos. Não os posso ver. São os primeiros que vamos matar.
— E o teu pai e eu seremos os últimos?
— Comando diz que vocês são perigosos. Sabes porquê ? Porque vocês não acreditam nos Marcianos. É a nós que eles darão o governo do mundo. Não é só a nós. Os meninos das ruas vizinhas também governarão. Posso vir a ser rainha.
Abriu a porta.
— Mãe? — O que é?
— O que vem a ser a lógica?
— A lógica? Olha é uma coisa que serve para ver se um acontecimento é verdadeiro ou se o não é.
— E ele falou... E o que vem a ser im-pre-ssio-ná-vel?
— Bem, isso quer dizer... — mrs. Morris baixou os olhos rindo docemente. — Isso quer dizer... ser uma criança, minha querida.
— Obrigada pelo almoço!
Mink saiu a correr e depois meteu a cabeça pela frincha da porta.
— Mãe tenho a certeza de que te não farão muito mal.
A porta fechou-se.
Pelas quatro horas o audiovisor deu sinal. Mrs. Morris accionou a alavanca.
— Olá, Helen! — saudou.
— Olá, Mary! Gomo vai isso aí em Nova York?
— Muito bem. E tudo vai bem em Scranton? Tens um ar cansado.
— E tu também. São as crianças! Esgotam-me — disse Helen. Mrs. Morris suspirou:
— Mink também. A Super-Invasão! Helen riu:
— As crianças brincam à mesma coisa para esses lados?
— Oh, sim! Mas depressa voltarão ao berlinde electrónico ou ao pilha motorizado. Nós fomos assim, quando éramos crianças, em 48 ?
— Pior! Brincávamos aos Japoneses e aos Nazis. Não posso supor como é que os meus pais me aturavam. Era uma criança endiabrada.
— Os pais aprendem a fazer ouvidos de mercador. Um silêncio.
— Parece que não estás bem — observou Mary.
Mrs. Morris tinha semicerrado os olhos e passava a língua pelo lábio inferior.
— Hem? — sobressaitou-se. — Oh, nada. Estava simples­mente a pensar nisso, nos ouvidos de mercador, etc. Não tem importância. Que é que estávamos a dizer?
— O meu Tinzinho não fala senão num certo comando, parece-me.
— É, sem dúvida, uma nova senha. Mink também está completamente louca.
— Não sabia que isto já tinha chegado a Nova York. Da boca ao ouvido, sabes como é... Uma nova invenção. Falei com a Josefina e ela disse-me que os seus filhos (e ela está em Boston) só brincam a este jogo. Invadiu o país.
Neste instante Mink entrou na cozinha para beber um copo de água. Mrs. Morris voltou-se para ela.
— Então, onde estão vocês?
— Está quase acabado — respondeu Mink.
— Perfeito — disse mrs. Morris. — E o que é isso?
— Um yo-yo — disse Mink. — Olhe.
Deixou cair o yo-yo, desenrolando a guita. Quando chegou à ponta... Desapareceu.
— Reparaste ? — disse Mink.
Hop! Balançou a mão vazia para cima e para baixo, o yo-yo reapareceu e enrolou-se instantaneamente.
— Faz outra vez — pediu Mrs. Morris.
— Não posso. A hora H é às cinco horas. Até já!
Mink partiu velozmente, jogando com o yo-yo.
No audiovisor, Helen riu.
— Tim trouxe um desses yo-yos esta manhã, mas quando eu quis experimentar, disse-me que mo emprestava; e quando experimentei fazê-lo andar não consegui nada.
— Tu não és impressionável. — Eu não sou o quê?
— Não tem importância. Estava a pensar em qualquer coisa. Posso servir-te em alguma coisa, Helen?
— Queria que me desses aquela receita do moka...
As horas passaram. O dia passou. O Sol descia no ar tranquilo. As sombras estenderam-se sobre o gramado. Os risos e a actividade febril prosseguiram. Uma raparigui­nha fugiu a chorar. Mrs. Morris apareceu à varanda.
— Mink, era Peggy Anna que estava a chorar?
Mink estava debruçada para o chão, perto do roseiral.
— Olá! É uma poltronazinha. Não brincará mais connosco. Está a tornar-se velha. Deve ter crescido muito ràpidamente.

— E era por isso que ela chorava? Isso não é razão. Faça o favor de me dar uma resposta honesta, meninas, ou marchas já para o quarto!
Mink endireitou-se, consternada, mas não sem irritação.
— Agora não posso ir. Está quase na hora. Vou-me emen­dar, peço perdão.
— Bateste-lhe?
— Não, não foi bem isso. Pergunta-lhe. Era qualquer coisa... oh, e depois ela é uma grande medrosa.
As crianças rodearam Mink, que se afadigava com colheres e punha em ordem, uma ordem especial, em quadrado, martelos e tubos.
— Ora cá está — murmurava Mink.
— O que é que se passa ? — perguntou mrs. Morris.
— É o comando que está entalado. Está a meio caminho. Se nós o pudéssemos ajudar, seria mais fácil. Todos os outros o poderiam seguir.
— Posso ajudar-te?
— Não obrigado. Hei-de encontrar uma maneira.
— Muito bem. Vou chamar-te para o banho daqui a meia hora. Cansa-me ver-te mexer assim.
Mrs. Morris voltou para casa e sentou-se no «maple» eléctrico de relaxamento, bebendo alguns goles do copo semivazio. O «maple» acariciava-lhe o dorso.
— Ah! As crianças. As crianças. O amor e o ódio, lado a lado. Algumas vezes as crianças amam-nos, e não nos podem ver um momento depois. Estranhas crianças, poderão esquecer ou perdoar os castigos e as repreensões? Como, pergunta-se, podereis esquecer as pessoas grandes que vos dominam, estes tiranos de elevada estatura e estúpidos?
Os minutos passaram. Estabeleceu-se um curioso silêncio na rua, um relógio cantou com uma doce voz musical: «cinco horas, cinco horas! O tempo passa. Cinco horas!» E calou-se resfolegando.
A hora H.
Sorridente, Mrs. Morris abanou a cabeça.
Uma viatura zumbiu na vereda. Era Mr. Morris. Mrs. Morris sorriu ainda. Mr. Morris saiu da pequena via­tura, fechou-a à chave, gritou uma saudação a Mink, sempre atarefada. Mink não lhe ligou importância. Ele riu e observou durante uns instantes o jogo das crianças. Depois subiu os degraus da escada.
— Olá, querida! — Olá, Henry!
Ela dobrou-se para a frente, apurando o ouvido. As crianças estavam muito caladas.
Ele esvaziou o cachimbo, encheu-o de novo.
— Belo dia! É uma felicidade viver.
Bzzzz!
— O que é isto? — perguntou Henry. — Não sei.
Levantou-se ràpidamente, os olhos esgasearam-se. Ia dizer qualquer coisa. Mas calou-se. Era ridículo. Os nervos estremeceram.
— Essas crianças não têm nada perigoso no gramado? — perguntou ela.
— Não. Só têm pedaços de tubos e martelos.
— Nada eléctrico?
— Suponho que não. Verifiquei.
Ela foi para a cozinha. O zumbido continuava.
— Mesmo assim devias ir dizer-lhe que já chega. São mais de cinco horas. Diz-lhe... — bateu as pálpebras. — Diz-lhe para adiar a invasão para amanhã. — riu-se nervosamente.
O zumbido cresceu.
— Mas o que é que eles estão a fazer ? É melhor eu ir ver. A explosão.
A casa foi abalada. Novas explosões nas outras ruas.
Involuntariamente Mrs. Morris gritou.
— Anda depressa! — gritou sem razão. Talvez tivesse visto qualquer coisa de relance, talvez sentisse um perfume estranho ou ouvido um novo ruído. Não tinha tempo de esclarecer Henry. Que pensasse que estava louca, sim louca. Precipi­tou-se para a escada. Ele correu atrás dela, intrigado.
— É no sótão, é no sótão! — gritou. Era uma má desculpa para o fazer subir a tempo. Ah, Senhor, mesmo a tempo! Uma outra explosão. As crianças gritaram alegremente, como se fosse fogo de artifício.
— Mas não é no sótão! — gritou Henry. — É lá fora.
— Não! Não! — Fora de si, despenteada, ela agitava a chave. — Vou-te mostrar. Depressa! Vou-te mostrar.
Entraram no armazém. Ela empurrou a porta, girou a chave e atirou-a para um canto sombrio.
Balbuciava palavras sem sentido, entretanto, como num sonho. Todas as suspeitas inconscientes, o medo que tinha acumulado durante a tarde toda, fermentavam. Todas as pequenas revelações, as sugestões que a tinham incomodado desde manhã e que cuidadosamente, lógica e razoavelmente, tinha recusado e censurado. Tudo isso explodia presentemente e dominava-a.
— Ali, ali! — disse ela encostada à porta, soluçando. — Aqui estamos em segurança até à noite. Talvez consigamos fugir lá para fora. Talvez possamos escapar!
Henry estava nervoso, mas por outras razões.
— Estás louca ? Porque deitaste fora a chave ? Que diabo, é demais!
— Está bem, estou louca, se quiseres, mas deixa-te estar. — E como diabo vou sair, se me apetecer?
— Cala-te que podem ouvir-nos! Oh, meu Deus, vão encontrar-nos mais cedo ou mais tarde...
Em baixo, a voz de Mink. O marido calou-se. Havia um barulho ensurdecedor, explosões, silvos, gritos de crianças, risos sufocados. No salão o audiovisor tocava, tocava com insistência, com inquietação. Será Helen, pensou Mrs. Morris. Chamar-me-á ela pela razão que penso?
Passos na casa. Passos pesados.
— Quem é que entrou na minha casa? — perguntou Henry encolerizado. — Quem é que faz este barulho lá em baixo?
Pés pesados. Vinte, trinta, cinquenta. Cinquenta pessoas que invadiam a casa. O ronco. As gargalhadas das crianças.
— Por aqui! — gritou Mink.
— Mas o que é que se passa lá em baixo? — berrou Henry. — Quem está aí?
— Chut! Não-não-não-não! — segredou a mulher, encos­tada a ele. — Em nome de Deus, cala-te. Talvez eles se afastem.
— Mamã? — chamou Mink. Papá? — Um silêncio. — Onde é que estão?
Passos pesados, pesados, muito pesados, subiam a escada. Mink dirigia-os.
— Mamã? — Uma hesitação. — Papá? — Uma espera silen­ciosa.
O ronco. E os passos que se dirigiam para o sótão, com os de Mink à frente.
Tremiam encostados um ao outro, no sótão, Mr. e Mrs. Mor­ris. Por qualquer razão o zumbido eléctrico, a estranha luz fria, que entrava sob a porta, o estranho perfume, o ardor da voz de Mink tinham acabado por atingir também Henry Morris. Estava de pé, na obscuridade, junto de sua mulher.
— Mamã! Papá!
Passos. Um pequeno ruído. A fechadura fundiu-se. A porta abriu-se. Mink passou a cabeça pela frincha. Atrás dela havia umas altas sombras azuladas.
— Uuuu! — disse Mink.

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