quarta-feira, janeiro 24, 2024

Memórias (L.F.Riesemberg)

 



Chegamos ao café e olhei ao redor, procurando gravar o máximo de detalhes daquele local. Graças a isso, jamais esquecerei da mesa onde ficamos, debaixo de velhos canecos de chopp pendurados no teto, ao lado da grande janela que apontava para verdes folhagens. Nunca esquecerei da conversa interminável da garçonete, que antes mesmo de sentarmos, contou toda a triste história de como viu a velha dona daquele lugar ir muito doente dar uma última olhada no estabelecimento antes de morrer. Também não esquecerei das duas moças sentadas na mesa ao lado, que chegaram depois de nós e partiram antes, já que ficamos conversando por quase três horas, lembrando histórias da nossa infância.

Sempre hei de recordar o momento em que deixamos o café já à noite e caía uma fina chuva, cujas gotas estavam douradas graças à luz dos holofotes, e que corremos de mãos dadas até o automóvel. E, é óbvio, lembrarei para sempre do primeiro beijo, dentro do carro estacionado, debaixo daqueles mesmos pingos dourados de chuva que escorriam pelo para-brisa.

A história de nós dois é antiga, começa na pré-escola. Minha tendência era gravar na memória apenas os momentos que me causaram embaraço e remorso, como quando a fiz chorar depois que fechei a apostila para que não copiasse minha tarefa, ou quando, ao fazer um trabalho em sua casa, derramei o copo de Tang de laranja que sua mãe havia me dado, encharcando a toalha. Senti tanta vergonha que nem pude pedir desculpas.

Mas passaram-se quase quarenta anos destes dois acontecimentos, quarenta voltas ao redor do Sol, nas quais estivemos separados, lutando sozinhos nossas próprias lutas. Como dois viajantes, enfrentamos os perigos deste longo trajeto e sobrevivemos, até que aconteceu o fato mais natural de todos, segundo as leis da física. Um professor me ensinou que os elementos se buscam porque os átomos estão sempre tentando alcançar o estado mais estável possível. E cá estamos nós, juntos outra vez.

Das memórias que ambos guardávamos da terna infância, a mais forte é a de minha mãe prevendo que um dia iríamos nos casar. Conforme a minha já anunciada tendência, não esqueci disto por conta do embaraço que isso outrora me causava. Porém, hoje, é apenas doce a ideia de estar contigo pelo tempo que nos resta. E é por isso que, a cada encontro que tivermos, farei todos os esforços para gravar até os menores detalhes.

Assim como fiquei todos esses anos com você em minha mente, querendo me desculpar por ter te causado lágrimas um dia, meu sonho hoje é passar a eternidade rememorando os momentos cheios de beleza que ainda teremos juntos, gravando cada minúcia, cada detalhe, para brilharem eternamente em minha mente, como uma noite estrelada ou uma mina de diamantes.  

4 comentários:

  1. Não tem como negar: o conto é extraordinário e envolvente!!

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  2. Era doce sentir os anos passando, porém com você novamente ao lado...as cores ficam sólidas, ganham base...a luz fica completa depois que você voltou...

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    1. Como uma mina de diamantes?

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    2. Ou seria como uma noite estrelada?!
      Relendo, novamente, este conto maravilhoso!

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