Wednesday, June 19, 2013

O Trem da Meia Noite (L.F.Riesemberg)


 Dava para ouvir quando ele passava, sempre por volta da meia noite. Quando criança, Richard ficava acordado em sua cama até ouvir o apito, e imaginava como era o trem, para onde iria, que carga levava e quem estaria a bordo. Durante o dia ele ia brincar perto dos trilhos, mas nunca viu a locomotiva. O único horário em que ela passava era tarde demais para se estar por lá.
"Um dia quero ficar ao lado da linha para vê-lo soltando fumaça", pensava. Mas acabava nunca indo. Apenas ouvia aquele silvo agudo, ao longe, na hora de dormir.
Assim foi durante anos, até que o trem parou de apitar. Foi de repente, numa noite qualquer. O relógio marcou meia noite, depois uma da manhã, duas, e nada. Ele simplesmente não passou pela cidade, e isso se seguiu nas noites seguintes, e então nunca mais.
Richard lamentou ter perdido a chance de ver o trem, que sempre tivera papel importante em sua imaginação. Mas aos poucos ele foi se esquecendo que um dia tinha ouvido os apitos. O menino cresceu, começou a trabalhar, casou, teve filhos, eles cresceram, lhe deram netos, enviuvou...
Na velhice, Richard passou a escutar cada vez menos. Tinha sempre que perguntar duas ou três vezes antes de responder uma pergunta, o que irritava os menos pacientes. Sentia-se um velho triste e sem utilidade, cujas antigas histórias não interessavam a mais ninguém.
Foi numa noite de nostalgia que, pouco antes de adormecer, ele o ouviu. Começou baixinho, muito distante, e então foi crescendo. O trem estava passando por lá outra vez. 
"Não é possível!", pensou.
Depois de setenta anos a locomotiva estava novamente nos trilhos. O som ia ficando cada vez mais forte, e ele não quis mais esperar. Levantou da cama, calçou os chinelos e saiu de casa, depois caminhou até a linha de trem. Não havia ninguém na rua para estranhar um senhor da sua idade andando de pijamas.
O apito ia ficando cada vez mais forte à medida que Richard se aproximava da linha de ferro, até que eles se encontraram. Pela primeira vez Richard viu aquele enorme dragão de ferro vindo em sua direção, cantarolando e soltando fumaça pela chaminé. 
O trem foi diminuindo a velocidade e parou exatamente onde Richard esperava. 
-Viemos especialmente para buscá-lo, Richard - disse o maquinista.
Convertido novamente em um menino, ele subiu os degraus da locomotiva. 
-Eu posso puxar a corda que faz apitar? - perguntou o garoto.
Apesar da ferrovia estar desativada há décadas, todos os moradores da cidade juravam que, na noite em que o velho Richard se foi, ouviram um animado apito de trem chegar aos seus ouvidos.

3 comments:

  1. este foi um dos contos fantásticos q eu mais gostei, pois foi muito emocionante o final, adorei, nota 10 para quem fez este conto

    ReplyDelete
  2. Que lindo, realmente me emocionou. Adoro seus contos, eles me inspiram, mas este em especial tocou minh'alma. Fez lembrar da minha infância, cuja alegria era escutar o som do trem à noite. Entretanto, assim como Richard, eu jamais o vira.
    Perfeito! Meus parabéns...

    ReplyDelete